Guerra Rússia-Ucrânia

Contraproposta da UE ao plano de paz de Trump rejeita qualquer limitação à defesa ucraniana

Plano europeu tende a ser mais favorável à Ucrânia ao contrário do plano dos EUA que favorece mais o lado russo. Negociações, com a presença da Ucrânia, procuram encontrar a melhor solução.

Chefe do gabinete do presidente da Ucrânia, Andriy Yermak (à esquerda), e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio
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Os Estados Unidos, a Ucrânia e os líderes da União Europeia estão este domingo a realizar uma das negociações mais sensíveis da atualidade: o plano de paz para o fim da guerra na Ucrânia. A UE apresentou uma contraproposta ao plano negociado entre Trump e Putin - à revelia de Zelensky - e há várias diferenças assinaláveis.

De acordo com um excerto do plano publicado esta tarde pelo The Telegraph, uma das linhas vermelhas do contraplano europeu - que conta com 24 pontos, menos quatro do que o dos EUA - é a restrição ao tamanho das forças armadas ucranianas. Ou seja, ao passo que o plano de Trump quer limitá-las a 600 mil soldados, a contraproposta impõe que não haja nenhuma restrição às Forças de Defesa da Ucrânia e à indústria de defesa nem que seja restrita ou limitada a cooperação internacional.

Outro dos pontos em que os dois planos diferem é no que diz respeito à adesão à NATO. O plano de Trump veta a Ucrânia de aderir à organização, seja agora ou no futuro, enquanto a contraproposta define que a adesão depende de consenso dentro da aliança.

O plano europeu também defende que Kiev “não seja forçado a ser neutro” pelo que teria liberdade de convidar “forças amigas” para operar no seu território enquanto que o dos EUA obriga a NATO a não mobilizar tropas para a Ucrânia.

Mais: no que respeita ao cessar-fogo, os europeus querem que o mesmo seja imediato e incondicional, sob monitorização dos EUA e Europa. Já o plano negociado com Putin não menciona um cessar-fogo, mas exige troca territorial imediata que retiraria à Ucrânia a soberania em relação a cidades ricas em minerais, próximas às linhas de frente na região leste de Donbass.

O plano europeu reconhece ainda que deve haver um alívio “gradual” das sanções contra a Rússia, mas sob uma condição: "podem ser retomadas em caso de violação do acordo de paz (restabelecimento automático das sanções)". Já o plano dos EUA é mais vantajoso para os russos prevendo o levantamento das sanções e acordos comerciais de longo prazo entre os EUA e a Rússia na mineração e inteligência artificial. Além disso, refere ainda que a Rússia possa voltar ao G7.

O plano de Trump prevê ainda garantias de segurança futura para a Ucrânia, enquadrando-as no Artigo 5.º da NATO e menciona, de forma vaga, "esperar-se que a Rússia não invada os países vizinhos e que a NATO não se expanda ainda mais".

A contraproposta traria de volta à Ucrânia o controlo da usina nuclear de Zaporizhzhia e da barragem de Kakhovka e "passagem livre" no rio Dnipro, além da total reconstrução e compensação financeira da Ucrânia através de "ativos soberanos russos que permanecerão congelados até que a Rússia indemnize os danos causados ​​à Ucrânia”.

A Ucrânia teria também de prometer não recuperar território ocupado através de ações militares, convocar eleições e receber garantias de proteção dos EUA.

A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni já reagiu em declarações aos jornalistas em Joanesburgo afirmando que "a Europa claramente não esteve entre os autores do plano de Trump, mas muitas questões incluídas exigem a participação da Europa" como a "reconstrução, garantias de segurança, a entrada da Ucrânia na UE".

"Esta fase é delicada, temos que olhar para o objetivo, a UE tem que mostrar que pode apresentar propostas que façam as coisas avançarem, todos concordamos sobre onde podemos contribuir e a UE deve demonstrar maturidade", afirmou.

Trump acusa Kiev de ingratidão

O Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, acusou este domingo os líderes ucranianos de ingratidão face ao que diz serem os seus esforços para por fim a uma guerra que herdou "e que nunca deveria ter acontecido".

"Herdei uma guerra que nunca deveria ter acontecido, uma guerra em que todos perdem, em especial os milhões que morreram de forma desnecessária. A 'liderança' ucraniana não mostrou gratidão pelos nossos esforços e a Europa continua a comprar petróleo à Rússia", escreveu Trump numa mensagem na sua plataforma Truth Social, em letras maiúsculas.

Na publicação, Trump assinalou que os EUA "continuam a vender quantidades massivas de armas à NATO para distribuir à Ucrânia" e deixou críticas ao seu antecessor, Joe Biden, que disse ter cedido estas de forma gratuita.

Zelensky não deixou o presidente dos EUA sem resposta

Zelenskyy diz que está grato pelo apoio de todos os líderes que ajudam a Ucrânia. Nas redes sociais, o presidente ucraniano respondeu ao comentário de Donald Trump. Também outros responsáveis ucranianos já reagiram e garantiram que valorizam os esforços dos Estados Unidos.

O plano de 28 pontos elaborado pelo Governo de Trump é visto com grande preocupação em Kiev, pois incorpora várias exigências russas importantes: a Ucrânia ceder território, aceitar uma redução do seu Exército e renunciar à adesão à NATO. No entanto, oferece a Kiev garantias de segurança do ocidente para evitar quaisquer novos ataques russos.