Histórias de 28mm

Os refugiantes

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

A palavra não existe ainda, porém, talvez possamos começar a pensar numa palavra nova que defina os incertos à deriva.

À procura de uma vida melhor

Andam todos no mesmo mar. Todos navegam no mesmo tipo de barco. Todos andam à procura de uma vida melhor. Todos fogem de algo. São refugiados ou migrantes ilegais?

O conceito começa a diluir-se nas águas do mediterrâneo central quando aparecem em pequenos barcos de madeira improvisados, com pouca comida, pouca água, pouca sorte e muita esperança. “Lampedusa, Lampedusa!” Gritam o nome duma ilha que não sabem muito bem em que rumo está.

Rui Caria

Quem paga, embarca

Navegam, alguns, com pequenas bússolas de norte duvidoso e só esperam chegar a terra; não pedem mais que Lampedusa, nem sequer Sicília que é maior, por isso, com “mais terra” para poderem fugir numa qualquer praia onde os fracos motores aguentem chegar. Saem da Tunísia, são rotulados de “migrantes ilegais” porque navegam sem bandeira sem registos e a maior parte nem guarda documentos de identificação.

Alguns vêm bem vestidos, com roupas de grife e ostentam telemóveis de última geração, são quase sempre estes que também trazem elevadas quantias em dinheiro. Outros não têm mais do que a pouca roupa no corpo. O que aqui se vê é algo novo, estão a surgir vários géneros, completamente diferentes de migrantes a juntar aos que simplesmente fogem dos países desmembrados e a quem nos habituámos a chamar de refugiados.

Migrantes, emigrantes, refugiados, “vêm todos no mesmo barco”, todos esperam chegar à Europa, uns dizem que querem trabalhar, outros vêm ter com a família que dizem já lá estar e outros, não dizem nada, simplesmente vêm. Os barcos são comprados pelos “facilitadores”, homens que normalmente fazem a travessia com eles e voltam para darem continuidade ao negócio. Chegam a custar mais de 50 mil euros, estas pequenas embarcações com motores improvisados, às vezes, motores de carros adaptados que servem perfeitamente para levá-los à grande mentira de uma vida melhor na Europa.

Quem paga, embarca. As “passagens” podem custar até 3000 euros, mesmo assim, muitos trabalham durante anos para poderem sair do país. O mar, visto do mar, é imenso e este Mediterrâneo, por vezes é tão calmo que a linha do horizonte deixa misturar o céu e o mar, fundindo-se o mundo à nossa frente num pano azul sem fim. São 360 graus de azul e nada.

Rui Caria

A resposta é sempre “Lampedusa, Lampedusa”

Muitos barcos são avistados pelo pessoal de vigia na ponte, mas muitos dos sinais vêm do alto, enviados pelo avião que ajuda na deteção destas pequenas embarcações. As coordenadas recebidas são processadas pelo sistema do navio militar e toma-se o rumo até ao encontro dos pequenos barcos. A alguns, demora mais de um dia a chegar, mas chega-se sempre.

Rui Caria

Rui Caria

A intercepção é feita, invariavelmente, de forma cirúrgica. São sempre momentos de tensão; não se trata de pessoas que queiram ajuda, quase todos preferiam chegar a terras italianas pelos seus meios. A comunicação entre as autoridades do navio e aquelas pessoas, é sempre isenta de tecnologia, grita-se do navio para um barco; pergunta-se se querem vir a bordo. A resposta é sempre “LAMPEDUSA, LAMPEDUSA”. Fingem não saber falar língua nenhuma além da nativa.

Chega a demorar horas, muitas horas, esta negociação e acompanhamento. Nada pode ser feito em águas internacionais. Não havendo ofensiva por parte daqueles navegantes, os militares escoltam-nos até ao limite das águas territoriais italianas para poderem tomar uma acção de força ou de salvamento.

Cheira-se a adrenalina misturada com o gasóleo dos motores do patrulha quando a equipa de abordagem do fuzileiros sai no bote semirígido. Imediatamente se desligam os pequenos motores das embarcações de migrantes, que assim, esperam ser salvos em vez de detidos. Esta técnica de desligar motores e fingir que se avariaram, foi usada por quase todos os barcos interceptados, menos por um que estava na iminência de se incendiar, dado o aquecimento do motor e o derrame de óleo e combustível no porão.

Rui Caria

“Primeiro as crianças e as mulheres!”

Todos eram sempre rebocados até ao navio patrulha Viana do Castelo, onde já estava montada toda a operação de recepção e acolhimento àquelas pessoas. A subida a bordo não era sem aflição. De repente todos queriam subir ao mesmo tempo, num pânico inventado à pressa pelo assentar da consciência.

“Primeiro as crianças e as mulheres!”, gritam os fuzileiros que tratam de todo o embarque e garantem a segurança de toda a guarnição e dos recém chegados visitantes. São agrupados, revistados, rastreados pelo médico de bordo, identificados pelos agentes do serviço de estrangeiros e fronteiras e encaminhados para o convés de voo depois de receberem um cobertor e um “bag meal”, um pequeno saco com uma refeição ligeira.

Ali irão permanecer durante a viagem até a um porto italiano, onde serão entregues às autoridades em terra e encaminhados para os centros de refugiados, prontos a receber e a acomodar milhares de pessoas.

Rui Caria

Foto em exposição nas Nações Unidas

Esta imagem vai ser exposta na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, depois de ter chegado ao top de finalistas de um concurso de fotografia sobre direitos humanos.

A fotografia em causa foi tirada na missão Frontex, que Rui Caria acompanhou durante mais de um mês, em 2017, no Mediterrâneo, a bordo com NRP Viana do Castelo, da Marinha Portuguesa.

Ninguém sabe ao certo o destino destes homens, mulheres e crianças, que aparecem à deriva e são recolhidos para serem entregues em terra. Os facilitadores, homens quase sempre fáceis de detectar entre os demais, pela forma como se comportam no grupo, serão logo detidos e repatriados ao abrigo do acordo entre as autoridades italianas e tunisinas, que obriga à reserva de cerca de 30 lugares em voos semanais apenas para este propósito.

Os outros, a maior parte, serão documentados e ser-lhes-á dado um prazo de oito dias para deixarem Itália. Para onde vão estas dezenas de pessoas? Nesta grande mentira, que é a venda do destino Europa com a promessa de uma nova e boa vida, para esta gente que em rebanho e em fraqueza, segue mar a fora, existem caldos químicos difíceis de verbalizar; mesmo assim, vale a pena tentar descrever os sorrisos misturados com a angustia da chegada a bordo.

O choque do cinzento militar com o acolhimento humano possível, faz esboçar traços de tranquilidade e desmilitariza a ação que pode e tem tudo para ser medonha no início. Sentem-se salvos, no fim, sentem-se salvos. É esta emoção que salta mais à vista depois de algumas horas a bordo.

Morrem enquanto este texto é escrito

A desconfiança inicial desvanece-se e começa a sentir-se um alívio naqueles olhares. São homens, mulheres e crianças que fogem dos seus países retalhados. São capazes de fazer qualquer coisa a fim de sobreviverem, até fazerem-se a um mar quase sempre calmo que engana a mais segura meteorologia no “quase”, porque assim que se levanta o vento, aquele que parecia adormecido, pode crescer em poucos minutos até aos oito metros, num ondular de morte que não deixa as estatísticas ver os que perecem nele, os que nunca chegam, e por isso, é como se nunca tivessem deixado terra. Mas deixaram e morreram sem ninguém saber. Morrem enquanto este texto é escrito e morrem enquanto alguém o lê.

Ninguém pode garantir o que será o futuro destas pessoas e ao que vêm quando chegam a países no antípodas da sua cultura. A lógica extremista que não aceita estes movimentos, teria muito que sentir ainda para ter como certo aquilo que defende; como os defensores de todos os direitos humanos deveriam tentar perceber melhor o que está realmente a surgir para minimizar esta crise que parece não ter fim. É nesta ambiguidade que eles navegam, a caminho da mentira maior que é a ilusão da liberdade.

Os homens e mulheres que os ajudam, são só homens e mulheres com a certeza de que mais do que qualquer ideologia, cultura ou política, são sempre as pessoas que contam, e enquanto a solução for para sempre insolúvel, a salvação é de todos e para todos. Desde o dia 9 de Outubro, até ao dia 9 de Novembro de 2017, o navio Patrulha Oceânico Viana do Castelo, da Marinha Portuguesa, foi empenhado na missão Triton da Agência Europeia de Fronteiras e Guarda Costeira - FRONTEX, para controlo, vigilância e combate ao crime transfronteiriço.

Durante um mês este navio militar patrulhou o mar Mediterrâneo. Foram mais de meio milhar de horas que demorou a percorrer as 5000 milhas náuticas na área de operações entre Lampedusa e a Tunísia, em busca destas pessoas que se fazem ao mar quase sempre de madrugada e navegam durante horas, se tiverem a ventura de acertar no rumo, ou dias, se perderem o norte.

Desde o início do ano de 2017, mais de 100 mil migrantes foram resgatados e entregues às autoridades europeias. A agência Frontex confirma um número de mortes que excede os 240, nesse ano.