Histórias de 28mm

"Sinto muitas saudades deles todos, e dos meus netos"

Rui Caria

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Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

"Hoje temos aqui duas princesas que fazem anos". Ecoa bem alto pela sala do Lar Dom Pedro V, na Praia da Vitória, o anúncio de festa, pela voz da Matilde, uma das trabalhadoras deste lar.

A festa, desta vez, faz-se à distância de uma varanda e através da transparência das janelas da sala de convívio.

A dona Maria Corvelo faz anos hoje, 79. A dona Filomena Martins, fez 97 há poucos dias. Sopraram as mesmas velas do mesmo bolo, e tiveram na rua, os familiares mais próximos para a cantiga da praxe.

Rui Caria

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"A última vez que a vi foi a 14 de Março, ainda lhe trouxe uns "rebuçadinhos" mas disseram que não podíamos deixar nada. Desta vez trouxemos alguns doces, mas hoje o lar aceitou por ser um dia especial". Diz a filha da dona Filomena, utente deste lar desde há cerca de um ano. Aos 97, reza o terço todos os dias e pede, agora, pelos que estão doentes com o novo vírus.

Rui Caria

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A pandemia fez com que este lar se vedasse ao exterior para minimizar o risco de infecções aos seus 75 utentes. Ninguém entra e ninguém sai, além dos funcionários que ainda vão a casa ao fim de cada dia de trabalho. Mas poderão deixar de ir.

A proteção destes utentes passa pela ativação de vários planos de emergência internos em caso de contaminação, e o isolamento poderá ser alargado ao pessoal que cuida directamente destas pessoas.

Rui Caria

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"Sinto muitas saudades deles todos, e dos meus netos". Diz emocionada a mais nova das duas. Mas hoje, ambas puderam amainar a falta dos afectos dos seus. E mesmo sem o abraço da família, elas estavam felizes.

Percebia-se, por entre os reflexos do vidro e entre sorrisos e lágrimas, a felicidade destas duas companheiras que ainda procuraram tocar neles, mas travou-lhes o movimento aquele fino vidro, como se fosse uma fronteira, transparente, mas capaz de adiar o toque e o abraço.

"Elas vão aguentar mais esta. A minha mãe viu passar a guerra e a tuberculose, há-de passar esta também, e para o ano estaremos lá dentro para a abraçar quando ela fizer os 98 anos". Diz a sorrir o filho da dona Filomena que costumava ir visitá-la todos os dias, antes da pandemia.

Rui Caria

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O dia de hoje marca o início de uma nova iniciativa da direcção deste lar da Ilha Terceira, que promete continuar todos os domingos, sempre que alguém faça anos nesse dia ou na semana que o precede.

Agora todos vão poder festejar, não como queriam, mas da única forma que pode ser por agora e enquanto o vírus obrigar.