Incêndio na Notre-Dame

Notre-Dame também é nossa

Graça Costa Pereira

Graça Costa Pereira

Editora de Cultura SIC

A catedral que não é só monumento, mas um momento de encontro.

A catedral da Île de la Cité é um símbolo de Paris. No dia que se seguiu ao incêndio os acessos estavam vedados e só podia avistar-se ao longe. Mesmo assim, plantada sobre o rio Sena vê-se de muitos lugares. Quem para ela olha, pode nem reparar que lhe caiu o telhado, onde também havia um pináculo - a flecha - e que boa parte do interior está destruída. Os prejuízos (reais e emocionais) estão longe de ser avaliados.

As duas portuguesas que não me dizem quem são acabam por dizer-me mais do que se se identificassem: “moro aqui perto e às vezes vinha para aqui rezar, pensar”, revela a primeira.

Prossegue a outra: “Eu estava nas vésperas (oração) quando deram o alarme. Estava lá dentro. Foi tudo muito ordeiro, eles têm uma série de guias e foi tudo muito organizado”. Nem chegou a ver chamas. Quando saiu e se encaminhou para casa só uma nuvem de fumo que se erguia no céu antecipava o que aí vinha. “A igreja estava cheinha. Está sempre”. Não houve pânico”.

A mulher que contém as lágrimas preferiu não me dizer o nome. É portuguesa. “Pode por lá tudo na sua reportagem, mas não quero que ponha a minha cara, nem o meu nome”. Vive em Paris há mais de 30 anos e diz que não engana ninguém: “Eles dizem que nós (os portugueses) temos cara de bolacha”.

Conta-me, emocionada, o que simboliza a Catedral, agora parcialmente destruída: “é uma coisa tão linda. Eu estou aqui a aguentar-me, mas você não imagina como me sinto por dentro”.

Junta-se a nós outra mulher. Vestida de negro, parisiense porque aqui vive, portuguesa de gema. O filho já nasceu cá e foi para ele que telefonou mal saiu da celebração desta segunda-feira. Não imaginava que a dimensão do fogo que lhe interrompeu as Vésperas seria a que viu, já em casa, pela televisão. “Ele disse-me logo: foi a primeira coisa que eu vi. Ele nasceu aqui perto da Notre-Dame”, explica, “mas não foi a primeira coisa que ele viu. Quando veio para casa ainda não via nada”.

As mulheres que nem se conheciam, falam agora entre si. Querem explicar-me o verdadeiro sentido do que se perdeu. “Eu vou ajudar. Já houve aí umas famílias muito ricas de cá que deram muito dinheiro”. Em menos de 24 horas foram acumulados mais de 700 milhões de donativos. “Eu também vou dar. É pouco, mas já ajuda”.

Deixo-as à conversa à beira da Notre-Dame. Hoje, cada uma ganhou uma amiga. Ou duas, se eu contar.