Olhar pela Saúde

“Estava desesperada, já fazia cocktails de comprimidos para dormir e nada funcionava”

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Photographer, Basak Gurbuz Derma

Durante quase 30 anos, Alexandra passou noites em branco. Aos poucos, as consequências de dormir pouco ou mal foram-se fazendo notar no dia-a-dia, primeiro de forma mais subtil, depois ao ponto de colapso. Procurou ajuda, mas várias vezes o problema foi desvalorizado pelos profissionais de saúde. Até que aos 35 anos encontrou a neurologista e especialista em sono Teresa Paiva. Falámos com as duas para perceber o verdadeiro problema que são as insónias.

Aos 12 anos, Alexandra Parrado deixou de conseguir dormir. Ia para a cama e não adormecia, passava horas às voltas. As noites em branco tornaram-se o seu momento de reflexão e fantasia, até que se instalou o sofrimento. Olhava para a cama como um local onde já não queria estar. Passar-se-iam mais de 20 anos até encontrar ajuda. Hoje, aos 41, diz que há uma “Alexandra antes e depois”.

Não começou como um problema. Ou pelo menos Alexandra não tinha noção da dimensão do que se estava a desenrolar à sua frente. Tinha 12 anos quando deixou de conseguir adormecer. As horas em branco eram passadas num “mundo paralelo”, eram momentos de “reflexão e fantasia”.

“Apesar de eu sofrer por não dormir, ao mesmo tempo era como se tivesse um mundo paralelo a acontecer”, contou em entrevista à SIC Notícias.

Quem estava à sua volta também não sabia o que se passava, até porque Alexandra não falava sobre isso. Não queria contar porque recusava-se a “assumir que era uma adolescente diferente dos outros”.

“Era muito nova e há sempre aquela ideia do não querer ser diferente, não querer ter um problema. Então não disse a ninguém. Vejo agora que passei a identificar-me como alguém que não dorme. Para mim eu era uma pessoa que não dormia e acabei por aceitar essa realidade, não tinha maturidade nem confiança para perceber que era um problema”, confessa.

O silêncio de não querer assumir que podia ser diferente refletiu-se no dia-a-dia. Em conversa com a SIC Notícias, conta como muitas vezes se levantava cedo para tomar o pequeno-almoço com os pais sem ainda ter dormido. As noites em branco não a tornaram “disfuncional”, mas os dias começaram a ser mais complicados de gerir.

Sempre fez o que era esperado pela sociedade: estudar, ir para a faculdade e, mais tarde, trabalhar. “Nunca me demiti das minhas responsabilidades, mas eram feitas com muito esforço. Era difícil”, assume. Para conseguir manter a parte profissional, a parte pessoal teve que sofrer.

“Deixava de fazer outras coisas, a parte da diversão e socialização sofreu muito porque eu não aguentava. Não dava para tudo. Sentia-me extremamente cansada”, conta.

“A médica disse-me para tomar banho de imersão e fazer ioga”

Tinha 20 anos quando pediu ajuda pela primeira vez. Alexandra já levava mais de 10 anos de noites mal dormidas quando decidiu assumir que tinha um problema. Procurou ajuda junto da médica de família, que lhe disse que ela era demasiado nova para tomar comprimidos.

Flashpop/GettyImages

“Fui à médica de família e ela disse-me para tomar banho de imersão, beber leite quente e praticar ioga, porque eu era muito nova para comprimidos. Fiquei absolutamente revoltada porque isto não era uma ajuda”.

Apesar da desvalorização do problema, Alexandra não desistiu, mas a ajuda parecia não chegar.

“A minha experiência com o Serviço Nacional de Saúde não foi muito boa. Pela minha experiência, não está preparado para ajudar pessoas com insónias, o que é grave. Não dormir é um problema de saúde muito grave. Não se nota, não se vê”, diz.

Os períodos de cansaço extremo acumulavam-se. Mais tarde, Alexandra chegava a casa e não conseguia fazer nada, “nem uma máquina de roupa”. A nível profissional, não consegue contar os dias em que não estava apta para trabalhar e se viu obrigada a fazer “o mínimo possível”.

Conta ainda como a tarefa simples de atravessar um dia era quase impossível. Existir, para Alexandra, era difícil.

“É um estado de sofrimento muito grande. O simples atravessar um dia com um cansaço extremo, mesmo que não tivesse que fazer nada, só o existir era difícil. Não é humanamente possível uma pessoa não dormir e conseguir funcionar eficazmente”.

Uma luz ao fundo do túnel?

Passariam mais 10 anos até Alexandra voltar a pedir ajuda. Viveu algum tempo no estrangeiro, mas não resignada, quando voltou a Portugal, aos 30 anos, voltou também ao médico, desta vez na área da psiquiatria. Foi aí que surgiu a primeira luz ao fundo do túnel, ainda que, mais tarde, se tenha voltado a deparar com adversidades.

“Fizeram-me experimentar vários comprimidos até encontrar um que funcionasse. Tomei comprimidos durante anos e ao início foi extraordinário”, conta.

Alexandra passou a conseguir dormir. Finalmente, ao fim de cerca de 20 anos de noites em branco, deitava-se e adormecia.

“Na altura fiquei felicíssima por dormir uma noite inteira, mas os comprimidos são um engano porque criam habituação, deixam de fazer efeito. Pela minha experiência, para insónias não funcionam”.

Mas da mesma forma como desapareceu, o pesadelo voltou.

“A minha viagem de comprimidos foi terrível. A certa altura estava desesperada porque já fazia cocktails de comprimidos e não funcionavam. Para além disso, os comprimidos não dão um sono natural, não estava a ter uma qualidade de vida muito melhorada”.

Depois da psiquiatria, Alexandra foi encaminhada para um especialista do sono. Não queria depender de comprimidos para dormir e podia estar ali a sua solução. Mas, novamente, a ajuda não chegou.

“Disse-me que tinha que viver assim, provavelmente tinha nascido assim. Estava relativamente estabilizada, conseguia manter-me com os comprimidos e ele achou que não havia mais nada a fazer”, revela à SIC Notícias.

O problema piorou. Alexandra dormia cada vez menos e mal. Durante essa altura, “olhava para a cama como um lugar onde já não queria estar”. No fundo, o quarto e a zona de dormir tornaram-se desagradáveis e essa associação trazia-lhe sofrimento. Era um ciclo vicioso.

O tempo passava e o quadro foi-se agravando. Alexandra chegou a estar perto do colapso.

“Cheguei a tirar dois dias de férias numa altura em que estava quase a colapsar. Não dormia, precisava de ajuda, não havia ajuda, mas não estava apta a trabalhar.”

Mas os dias de férias não lhe chegavam para fazer frente às noites sem dormir. “Não teria férias suficientes para isso”, diz, contando ainda que chegou a sofrer com a incompreensão dos pares. Por ser um problema invisível, difícil de medir, receava que achassem que podia estar a exagerar.

“Cheguei a ter pessoas que faziam comparações comigo: ‘mas quantas horas é que dormes? É que eu também durmo pouco’”, diziam-lhe.

“Olho para trás e apercebo-me que precisava que alguém me ajudasse. No geral desvaloriza-se a importância do sono. Estamos numa sociedade em que se valoriza a produtividade, portanto dormir pouco até é sinal de estatuto, o que é algo absurdo. Só quem passa por isto percebe realmente o que é ter privação do sono. Uma insónia ocasional não se compara a uma insónia crónica, há um efeito cumulativo. É natural que as pessoas não compreendam”, lamenta.

A Alexandra antes e depois

O caminho que percorreu levou-a, aos 35 anos, à neurologista Teresa Paiva, especialista em sono. “Comecei a ver, finalmente, a luz ao fundo do túnel”, confessa. Foi aí que a vida de Alexandra mudou radicalmente.

Diagnosticada com insónia crónica e depressão, dedicou-se à terapia cognitivo-comportamental, determinada a desconstruir as crenças em torno das insónias. Para isso, foi-lhe dito que não devia falar sobre o assunto. Quanto mais as atenções estivessem viradas para as insónias, pior seria.

“Às vezes chegava ao trabalho e perguntavam-me se tinha dormido bem ou a minha mãe ligava-me a perguntar se tinha sequer dormido. No fundo os holofotes estavam apontados para as minhas insónias e para o problema.”

Carol Yepes/GettyImages

Depois disso, e a regra de ouro, foi definir e cumprir com um horário regular de sono. Mesmo ao fim de semana, deitar e levantar sempre à mesma hora. Foi-lhe explicado ainda que “ficar às voltas na cama” é contraproducente. Por isso, se ao fim de 20 minutos ainda não adormeceu, levanta-se. Começou também a manter um diário do sono, onde aponta quantas horas dorme e se o sono foi reparador. O objetivo é perceber e analisar se está ou não a dormir bem e o que pode fazer para melhorar.

Aos poucos e poucos, Alexandra começou a dormir melhor. Passado um ano de ter começado a terapia cognitivo-comportamental, o seu padrão de sono já estava a melhorar, ainda que com altos e baixos.

“Há a minha vida antes e depois. A minha vida mudou radicalmente, sou outra pessoa. Mesmo tendo insónias, não as tenho a maior parte do tempo. Já consigo ter boas noites de sono a maior parte das vezes, apesar de ainda ter algumas crises prolongadas”, explica.

Aprendeu ainda que deve evitar a tecnologia à noite, razão pela qual não atende o telemóvel a partir de certa hora, já que essa é uma tarefa “muito estimulante, que requer muita energia”. Adotou o ioga e a meditação como práticas que acalmam o sistema nervoso e pratica exercício físico de manhã.

“O que fazemos durante o dia vai influenciar a noite, que vai influenciar o dia, que por sua vez vai influenciar a noite”.

As “caixa de ferramentas” que Alexandra desenvolveu, como lhe chama, permitiram-lhe ir aprendendo a minimizar as insónias. Hoje, o cansaço foi substituído por energia, a cama já não desperta emoções negativas e descobriu o prazer de viver.

“Neste momento estou a fazer uma transição de carreira, estou a estudar, a seguir as minhas paixões. Isso não seria possível há uns anos. Para além disso, descobri o prazer de viver. Poder divertir-me, estar com amigos e família, acordar todos os dias com vontade de viver mais um dia”.

Não há duas insónias iguais

O caso de Alexandra não é único. Em conversa com a SIC Notícias, a neurologista Teresa Paiva conta que recebe muitos pacientes “em fim de linha”. Não pediram ajuda durante anos ou, se pediram, o problema foi desvalorizado. Chegam ao consultório da especialista desesperados, mas é preciso perceber que as insónias não são todas iguais.

“Levo cerca de uma hora ou mais para fazer uma história clínica à maior parte dos doentes com insónia. Preciso disso para perceber o início da história. As insónias são coisas muito complexas e têm contributos que são multifactoriais”, explica.

As insónias podem estar associadas a doenças como a hipertensão, diabetes, cancro, doenças psiquiátricas, neurológicas ou tantas outras. Podem também surgir quando há um acontecimento importante ou súbito, um problema que não foi resolvido ou, em ultimo caso, que até tenha sido resolvido mas que continue a interferir na vida da pessoa.

“Uma mãe começa a não dormir por causa do filho recém-nascido. Depois, ao fim de um ano, o filho começa a dormir bem e a mãe continua com insónias. O problema resolveu-se mas houve uma agressão ao sistema sono/vigília que persiste mesmo quando o problema já está resolvido”, explica Teresa Paiva.

É apenas um dos exemplos que pode estar na origem das insónias. Os fatores que para ela contribuem são muitos e variados. Vão desde a saúde física, passando pela mental, até à emocional.

“O stress quotidiano, não parar, não ter tempo para respirar, andar todo o dia num sufoco - essas pessoas têm uma grande probabilidade de ter insónias”, afirma a neurologista.

Quando acontecem de forma prolongada - mais de três vezes por semana durante três meses - as insónias são consideradas crónicas e têm fortes implicações na nossa saúde. A longo prazo, a privação de sono favorece quadros de depressão e alterações emocionais, aumenta o risco de desenvolver doenças como hipertensão ou diabetes e, no limite, potencia o risco de mortalidade associado a eventos cardiovasculares e metabólicos.

A nível mental e emocional, as pessoas que dormem pouco têm mais transtornos afetivos, mais perturbações do humor, são mais propícias a desenvolverem depressão, ansiedade ou alterações psiquiátricas.

“Acorda-se mais mal disposto, com menos capacidade de tolerar as adversidades da vida. Os estudos mostram que pessoas que dormem mal e pouco têm mais tendência a valorizar coisas negativas do que positivas ou neutras. Vêm o mundo mais negro”, explica à SIC Notícias Miguel Meira e Cruz, diretor da Unidade de Sono do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa.

“A insónia não é apenas no dia seguinte ter sonolência, irritabilidade, dificuldade em tomar decisões. São também problemas cardiovasculares, maior ocorrência de enfarte e mortalidade precoce”, explicou Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono.

Reaprender a viver

Hoje, Alexandra não deixa que as insónias tomem conta da sua vida. Em todo o mundo, cerca de 10% da população adulta sofre de insónias. Por isso, é preciso olhar para este problema como uma condição médica. Dormir pouco e mal não é normal.

“Sinto uma missão de partilhar com os outros a minha história. Devia ensinar-se nas escolas uma boa higiene do sono”.

Aos 41 anos, depois de quase 30 a dormir mal, Alexandra insta a que se procure ajuda e que se olhe para as insónias como um problema que é possível resolver. Um caminho que não é fácil, mas que o tempo ajuda a percorrer.

“Sinto que ainda não cheguei ao lugar ideal, mas estou a caminhar para lá.”

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