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"Quando cheguei ao hospital estava a ter um enfarte"

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Anos a fio de uma alimentação à base de gorduras e excesso de sal, tabagismo e sedentarismo fizeram com que José Santos fosse parar a uma cama de hospital aos 48 anos. O diagnóstico: enfarte agudo do miocárdio provocado por colesterol elevado e hipertensão arterial. Vários hábitos tiveram de mudar e as idas ao médico passaram a ser mais frequentes.

José Santos tem 50 anos e trabalhou durante mais de 25 como socorrista, na Cruz Vermelha Portuguesa, e como Tripulante de Ambulância de Socorro, no INEM. Devido à profissão, tinha conhecimento do que uma vida de maus hábitos alimentares podia provocar a longo prazo. Mas, como contou à SIC Notícias, "quando vem para o nosso lado não queremos admitir".

"Não aceitamos que estamos a ter um enfarte"

No dia em que teve o enfarte agudo de miocárdio, em janeiro de 2019, foi trabalhar e a última pessoa que transportou para o hospital foi um senhor que tinha sofrido precisamente um enfarte agudo de miocárdio. Quando chegou ao hospital com o doente, disse para si mesmo: "Eu estou com os mesmos sintomas que ele". Ainda assim, em vez de ficar para ser visto por um médico, decidiu regressar para casa no fim do turno. Há três dias que José Santos estava com sintomas, mas ignorava.

Ray Smith

"Começamos por sentir uma dor no braço esquerdo, geralmente começa por aí, parece que temos um garrote no braço a fazer pressão por baixo da axila. E depois dá-nos dores, é aquela dor do vai e vem, mas depois a dor já se torna contínua. E depois há também o cansaço, ficamos cansados muito facilmente", conta.

Durante três dias, sempre que chegava a casa, deitava-se na cama por uns momentos para descansar e a dor passava. Mas, ao terceiro dia, a dor não passava e José não estava confortável em nenhuma posição. "Não conseguia estar de barriga para cima, nem para o lado, porque me incomodava", recorda-se.

Ao fim da noite pediu à mulher para o levar para o hospital e quando lá chegou sofreu um enfarte agudo de miocárdio.

José Santos conhecia os sintomas, estava a senti-los há três dias, mas recusava-se a acreditar no que estava a acontecer. "Não aceitamos que estamos a ter um enfarte".

O que desencadeou o enfarte agudo de miocárdio

Colesterol elevado e hipertensão arterial, ambos provocados por uma alimentação pouco cuidada. A estes fatores juntam-se também anos de tabagismo, sedentarismo e doses exageradas de café com açúcar.

Cada vez que estava a trabalhar e tinha de fazer um transporte para o hospital, no regresso, José passava por um restaurante de fast-food e o que comia era um hambúrguer, acompanhado de batatas fritas e uma bebida gaseificada. Contou que fazia isto todas as semanas. O pequeno-almoço, sempre fora de casa, era composto por uma bola de berlim e um café.

"Tinha uma alimentação muito à base de gorduras e processados e sou daquele tipo de pessoas que não liga muito a verduras. Mas hoje em dia já opto por acompanhar o peixe ou a carne com verduras em vez de batatas fritas", disse.

À má alimentação juntou-se o tabaco e o café sempre acompanhado de açúcar. Todos os dias, José Santos fumava dois maços de tabaco e bebia cerca de 20 cafés. No final de cada dia, as contas davam 40 cigarros e 20 pacotes de açúcar.

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"Pela quantidade de café com açúcar que bebia, qualquer dia estava diabético"

Devido às quantidade de café que bebia por dia, o médico de família aconselhou-o a reduzir a cafeína e a abandonar de forma definitiva o açúcar. Durante muitos anos, bebeu sempre café com açúcar, mas depois da conversa com o médico de família, aboliu totalmente o açúcar dos cafés. Diz que pelas quantidades de açúcar que ingeria em cada café, "qualquer dia estava diabético".

Após o enfarte, alguns hábitos tiveram de ser readaptados. Foi introduzida medicação, para controlar a hipertensão, a quantidade de cafés foi reduzida e a alimentação teve de sofrer alguns ajustes, ou seja, mais legumes, vegetais e frutas e menos comida processada e com gorduras.

O cardiologista que o acompanha aconselhou-o a deixar de fumar, mas José diz que esse passo ainda não conseguiu dar. Ainda assim, reduziu o número de cigarros que fuma por dia.

"O cardiologista e o médico de família andam sempre a fazer uma grande pressão para eu deixar de fumar. Quando saí do hospital, consegui estar 22 dias sem fumar, mas depois voltei. Desde então, o máximo que consegui foi uma semana. Cada vez que deixo de fumar é sempre de uma forma brusca, do dia para a noite, e não funciona".

José conta que descobriu que era hipertenso anos antes de sofrer o enfarte, numa consulta de rotina com o médico de família. "De manhã, antes de tomar o primeiro café, já a minha pressão sistólica era de 180 mmHg, ou 200 mmHg", afirmou.

No entanto, o assunto não voltou a ser falado com o médico, nem houve acompanhamento. Até ao dia em que sofreu o enfarte.

A vida depois do enfarte

Atualmente, José toma um medicamento por dia e é assim que consegue controlar a hipertensão arterial. As visitas ao médico de família passaram a realizar-se com mais frequência ao longo do ano, de dois em dois anos tem de fazer um eletrocardiograma com prova de esforço e uma vez por ano faz um check-up geral.

Mede também a pressão arterial com regularidade para o caso desta apresentar alguma alteração.

"A hipertensão não me inibe de fazer a minha vida. Tenho a doença controlada e por isso consigo fazer tudo como fazia antes".

Em entrevista à SIC Notícias, assume que o próximo passo é deixar de fumar definitivamente. "Se estiver em casa durante dois dias, sem sair, consigo reduzir e fumar aquilo que fumaria num dia. Quando vou trabalhar é que é mais complicado", contou.

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Causas da hipertensão arterial

Estima-se que mais de 2,5 milhões de portugueses têm hipertensão. É uma doença muitas vezes descrita como silenciosa visto que a maioria dos doentes não apresenta queixas nos primeiros anos. No entanto, há sinais a que deve estar atento, entre eles dores de cabeça; visão desfocada; tonturas; dor no peito ou sensação de falta de ar. É importante sublinhar que estes sintomas também estão associados a outras doenças.

A hipertensão arterial pode ser causada por:

  • stress;
  • excesso de peso;
  • ingestão excessiva de sal, açúcar ou álcool;
  • tabaco;
  • colesterol elevado.

No caso de José, foram três os fatores que contribuíram para que desenvolvesse a doença: colesterol elevado, ingestão excessiva de açúcar e o tabaco.

O sal e o açúcar em excesso, uma pedra no sapato de Portugal

O consumo excessivo de sal e açúcar é um dos problemas que a sociedade portuguesa enfrenta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo de 5 gramas de sal por dia para um adulto e 3 gramas para as crianças. Os portugueses consomem 10,7g de sal por dia, ou seja, mais do dobro do recomendado.

Em relação ao açúcar, a OMS aconselha que o consumo diário de açúcar adicionado aos alimentos não ultrapasse as seis colheres de chá, ou seja, 25g. Mas, em Portugal, as crianças consomem cinco vezes mais do que a dose recomendada.

O sal e o açúcar em excesso continuam, por isso, a representar um mau hábito na vida dos portugueses.

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