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Janela fértil: porque deve duvidar das previsões das aplicações

Janela fértil: porque deve duvidar das previsões das aplicações
O novo Apple Watch diz ser capaz de seguir os ciclos menstruais. É um dos mais recentes dispositivos a prometer fazer previsões sobre a ovulação e o período fértil. Mas, à semelhança de outras aplicações, estas previsões podem errar. Explicamos porquê e como o “método de perceção de fertilidade” pode ser uma ajuda.

São cada vez mais as aplicações e dispositivos que prometem prever as várias fases do ciclo menstrual, incluindo a janela fértil. Mas quão fiáveis são estes métodos para quem quer evitar uma gravidez? Falámos com a enfermeira e instrutora de fertilidade Inês Martins Almeida para perceber qual a utilidade destas novas tecnologias e se podem ou não ser utilizadas como método contracetivo.

“Está na hora de entender melhor o seu ciclo”. Foi assim que a Apple apresentou uma das mais recentes novidades do Apple Watch, que traz agora um sensor que regista a temperatura do corpo durante o sono. E para que serve? Monitorizar o ciclo menstrual e estimar a data da ovulação. Mas são os próprios, no site, a avisar que o seguimento do ciclo feito pela aplicação “não deve ser usado como método contracetivo”.

Mas, afinal, é ou não possível prever a janela fértil de uma mulher?

A resposta é simples e curta: “é um mito, não conseguimos prever a janela fértil”, afirmou à SIC Notícias a instrutora de fertilidade Inês Martins Almeida.

Apesar de estarmos na era da tecnologia, a verdade é que esta “tem limitações”, explicou, e estes dispositivos e aplicações utilizam algoritmos baseados em ciclos passados para fazer previsões de quando a mulher vai ovular. Mas não passam disso, “cálculos feitos de forma limitada”, disse.

“É muito perigoso basearmo-nos em ciclos passados para calcular a janela fértil”, diz a instrutora de fertilidade.

Então, se as previsões destes dispositivos não são fiáveis, para que servem?

A temperatura basal - aquela que é medida imediatamente após acordar - dá indicações de quando a mulher terá ovulado, isto é, de quando fechou a janela fértil.

A temperatura só muda depois da ovulação, por isso, quando o relógio indicar uma diferença de temperatura, quer dizer que já ovulou, ou seja, que a janela fértil já passou. Se tiver mantido relações sexuais nesta fase sem a utilização de um método contracetivo, corre o risco de engravidar.

Sim, este tipo de dispositivos que mede a temperatura só permite identificar a ovulação depois de ela ter ocorrido. Razão pela qual não podem nem devem ser usados como método contracetivo. Ainda assim, a temperatura pode dar indicações sobre quando se vai menstruar, explica Inês Martins Almeida.

“Assim que a ovulação aconteça, vamos sempre menstruar cerca de duas semanas depois, se não houver gravidez. Muitas mulheres dizem que as aplicações acertam na menstruação. Nesse sentido, podem ser úteis para saber quando se vai menstruar e planear a vida conforme”.

Para além disso, a enfermeira acredita que este tipo de medições será útil se os dados puderem ser extraídos do dispositivo. Ou seja, utilizar o relógio como termómetro, mas usar os registos de temperatura “para fazer as nossas próprias interpretações”.

“Se [o dispositivo] fizer apenas a gestão dos dados, não confio nesse tipo de previsões”, explicou Inês.


Há outras formas de monitorizar o ciclo menstrual?

Inês Martins Almeida é instrutora de fertilidade e, por isso, ensina as mulheres a ler os sinais do seu próprio corpo de forma a evitar gravidezes ou, pelo contrário, a engravidar. Chama-se “método de percepção de fertilidade” e “tem mais de 99% de eficácia”.

“Consiste em ler e interpretar os sinais do nosso corpo diariamente”. Só assim, explica, é possível que uma mulher identifique que está no período fértil. Este método também não permite prever a janela fértil do mês seguinte, por exemplo, mas ajuda a identificar o início e o fim da janela do ciclo atual.

Como? Em conjunto com a temperatura basal, que indica o fim da ovulação, deve ser feita a análise do muco cervical. Inês explica que o muco “é o único indicador que vai abrir a nossa janela fértil”. Assim, certas alterações no muco cervical indicam que o período fértil começou.

“Depois de menstruarmos, os nossos níveis de estrogénio vão subindo e isso vai-se refletir no muco fértil. Cabe-nos interpretar e avaliar esse muco - há regras para o fazer - para percebermos que a nossa janela fértil abriu”, explica.

Para além destes dois indicadores (muco e temperatura), há outros a que se deve estar atento para avaliar em que fase do ciclo menstrual se encontra.

“Alguma dor na altura da ovulação, sensibilidade mamária. São sinais mais para referência, mas não os usamos para avaliar a fertilidade. Também há testes que detetam a ovulação 24 a 36 horas antes de acontecer. O importante é olharmos para os indicadores todos juntos, mas pelo menos temos de usar dois: de preferência o muco e a temperatura”, explicou a enfermeira.

A importância de conhecer o próprio corpo

Apesar da utilidade que os dispositivos e aplicações para seguir o ciclo podem ter, não deve confiar neles cegamente, já que “todas as mulheres são diferentes” e os cálculos genéricos que estas tecnologias fazem não se aplicam a todos os corpos.

“Somos responsáveis por avaliarmos os nossos dados, conhecermos melhor o nosso corpo. É importante que as pessoas se informem e não acreditem em tudo o que veem e leem”, afirma Inês.

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