Orçamento do Estado

OE 2022: "Desta vez é mais perigoso e a dramatização é real"

Opinião

Bernardo Ferrão comenta o impasse nas negociações para o Orçamento do Estado para 2022 e antevê um cenário complicado para António Costa.

Num momento em que as negociações para o Orçamento do Estado para 2022 parecem estar num impasse e sem fim à vista, com um chumbo cada vez mais no pensamento dos partidos políticos portugueses, Bernardo Ferrão lança vários cenários possíveis, com diferentes resultados para o PS, a Esquerda e a Direita.

O comentador da SIC começa por referir que "há várias peças e vários cenários em cima da mesa", e diz que podem existir desenvolvimentos nas negociações.

"Há alguns avanços, da parte do PCP e da conversa que teve com o primeiro-ministro e o Governo. Parece-me que as conversas correram ligeiramente melhor, as últimas. Mas ainda não há qualquer sinal de luz verde e ainda há resistência por parte do Governo", refere.

Contudo, alerta para o facto de "António Costa não [poder] ceder aquilo que o PCP quer que António Costa ceda".

"O PCP, desta vez, mudou a forma de negociar, e quer algo muito claro. O PCP precisa de algo mais forte para mostrar aos seus eleitores, e essa coisa mais forte implica mexer nas leis laborais, só que mexer nas leis laborais é uma linha que António Costa não quer passar", devido a influências europeias vindas de Bruxelas e do tempo da Troika, alerta o comentador.

"É um jogo que a qualquer momento pode quebrar"

Desta vez, o cenário de crise política poderá ser verdadeiramente sério, conforme indica Bernardo Ferrão.

"Acho que desta vez é mais perigosa, desta vez essa dramatização é mais real, e o PCP talvez pense que o melhor é romper de uma vez por todas, se não tiver algo muito forte para mostrar."

Bernardo Ferrão considera que se começa a verificar um "mostrar de garras" do PCP, nomeadamente, com o início de greves em diversos setores, com o intuito de "mostrar a António Costa que pode saltar de uma frigideira para outra frigideira".

"António Costa, se aprovar o Orçamento com o PCP, sabe que muito dificilmente o próximo Orçamento, para o ano, é aprovado. O ano [2022] será infernal para António Costa", prevê o diretor-adjunto de Informação da SIC.

Aponta ainda para um certo "ambiente anti-PS que se notou nas autárquicas" e prevê que as alterações na liderança dos partidos à Direita, em especial, com a possível eleição de Paulo Rangel para número um do PSD, poderão ter efeitos no universo político português.

"Com a vitória de Paulo Rangel, a Direita, apresentando-se com um novo rosto, pode-se apresentar com um novo fôlego, e muitas vezes isso é suficiente para que as coisas mudem."

De acordo com Bernardo Ferrão, "António Costa pode ter alguma tentação de ir para eleições, sabendo que dificilmente o PS terá maioria absoluta e sabendo que sofrerá uma penalização dos eleitores de Esquerda".

"São cenários difíceis, tanto para António Costa, como para a Esquerda. Poderia não ser tão mau para o PCP porque poderia permitir-lhe livrar-se desta amarra com o Governo e voltar às ruas, reorganizar-se. Quem sabe, criar um ambiente para a Direita subir ao poder, e isto pode parecer estranho, mas, muitas vezes, é importante que a Direita esteja no poder, porque isso fortalece a Esquerda, porque pode voltar às ruas", explica o comentador da SIC.

No entanto, na sua opinião, "O PCP fará tudo para chegar a acordo", e não tem dúvidas que, efetivamente, o PCP "quer chegar a acordo".

Mas se o cenário atual se afigura complicado, perspetivas de futuro existem que poderão ser de ainda maior instabilidade política.

"Podemos é chegar a uma situação muito complicada em que, no limite, temos duas eleições sucessivas. Imagina que vamos a eleições e António Costa ganha sem maioria. Nem consegue negociar à Esquerda, nem consegue negociar à Direita. Esse Governo será de curta duração. Numas segundas eleições, em que o Governo de Costa caia novamente, terá que entrar uma nova figura, e parece-me que poderá ser Pedro Nuno Santos. As eleições poderão não ser tão benéficas para o PS a longo prazo", termina Bernardo Ferrão.

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