Saúde Mental

Depressão e ansiedade: "Quem é que aguenta viver assim?"

Exclusivo SIC

Perturbações mentais

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Humberto Candeias

Humberto Candeias

Repórter de Imagem

Natália Guilherme sofre de ansiedade, uma doença que a acompanha todos os dias. Já passou por momentos muito maus que a levaram a pensar em acabar com a própria vida. Mas não passaram de pensamentos. É no triatlo que vê a boia de salvação. A SIC conversou com a triatleta amadora sobre a sua experiência e o impacto da ansiedade do dia-a-dia da mesma.

"Sempre me considerei hiperativa, e pensava que era isso"

Aos 27 anos, Natália Guilherme pediu ajuda pela primeira vez para tratar aquilo que considerava ser "hiperatividade". Pelo menos na altura era isso que acreditava tratar-se até que o diagnóstico médico quebrou as suas crenças e apontou para o transtorno de ansiedade.

Nunca pensou consultar um profissional de saúde até ao dia em que foi alertada por uma amiga, quando ainda vivia no Brasil.

"Ela via em mim um pouco do comportamento da irmã e alertou-me de uma forma super natural. Aconselhou-me a conversar com um psiquiatra para me sentir melhor. Eu sempre me considerei hiperativa, e pensava que era isso, mas não. A minha amiga acompanhou-me até ao médico e foi quando fui diagnosticada. Comecei com terapia, ansiolítico, até hoje."

Em entrevista à SIC, conta que, olhando para trás, reconhece que alguns sinais da ansiedade já existiam em criança. Dá até um exemplo:

"Quando uma amiguinha me convidava para eu ir à casa dela, eu ficava pronta muito cedo; ou se desmarcavam comigo à última hora, eu ficava muito triste. Quando alguém combinava alguma coisa comigo em criança, eu ficava super ansiosa".

"Não devíamos ficar na ignorância"

Natália considera que a melhor forma de as pessoas ajudarem quem sofre de ansiedade, depressão, ou outro transtorno mental, é não ficar na ignorância, estudar a doença, fazer pesquisa, e mostrar interesse.

"Nós estamos sempre nas redes sociais e hoje em dia é muito fácil ter acesso a informação. Se eu disser que fiz determinada coisa porque estou a ter uma crise de depressão ou estou com muita ansiedade, soa a desculpa. 'Ah estás a usar isso como desculpa. Lá vens tu com a desculpa da ansiedade e da depressão'. É mau, eu já me vi nessa situação", conta.

Acredita que é muito complicado para quem convive com pessoas com transtornos mentais, difícil mesmo. Diz que são poucas as pessoas que têm essa capacidade, mas volta a reforçar que depende sempre do interesse de ambas as partes em comunicarem e entreajudarem-se.

"Não somos aceites socialmente"

Natália lamenta que a sociedade ainda não encare com naturalidade os doentes com perturbações mentais. "As pessoas não entendem. Perguntam: 'Porque é que você é assim?'", explica.

"Eu não sou assim porque quero. As pessoas pensam que pode ser falta de vontade, ou preguiça e dizem: 'Para de pensar nisso, abstrai, relaxa'. Eu estou relaxada, mas a minha cabeça não para. Eu posso estar num espaço zen e a minha cabeça não para, é um inferno", confessa.

O papel do triatlo no controlo da ansiedade

Natália é triatleta amadora. Leva um estilo de vida saudável conjugado com muito exercício físico. Nesta entrevista, contou à SIC que encontrou no triatlo a ajuda que precisava para combater a ansiedade. Enquanto treina, ou está numa competição, não pensa em mais nada a não ser naquela tarefa que está a executar.

"O triatlo ajuda-me muito, diminui um pouco a minha ansiedade. Mas eu estou sempre em luta", sublinha.

Por praticar tanto desporto, é abordada várias vezes por pessoas que acabam de saber que sofre de ansiedade. "A sério? Mas porquê? És tão bonita", são os comentários que mais ouve.

"Pensei: Não vale a pena, eu não quero viver mais"

A pior fase pela qual já passou foi quando morou no Equador. Natália nasceu no Brasil, vive atualmente em Portugal, mas já viveu no Equador.

Conta à SIC que quando abandonou o Brasil tinha começado um tratamento que acabou por não cumprir no Equador. Não se sentia integrada no novo país e o primeiro ano foi o mais difícil. "Eu não estava inserida em nada, em nenhuma comunidade desportiva, foi muito complicado. Nessa altura procurei ajuda profissional", sustenta.

"Eu choro muito. Nos momentos maus eu tenho vontade de ficar em casa, de não fazer nada, mas faço. Por exemplo, treino. Mas já tive os meus momentos negros, horríveis, de pensar coisas muito más. De querer que os meus pensamentos parassem. Pensei: 'Não vale a pena, eu não quero mais viver'".

Quando tem os pensamentos acima descritos, explica que o quer na realidade é acabar com a dor. "O ser cobarde fez-me continuar", começa por dizer.

A triatleta considera que é preciso muita coragem para acabar com a vida. "Eu penso nas pessoas que ficam. Não é só, eu vou acabar com a minha dor. Mas e a dor que eu vou deixar?" questiona.

Hoje percebe que a doença tem fases e que, apesar de ter dias maus, também tem dias bons. Quer conviver com a ansiedade tendo consciência de que "amanhã pode sempre ser um dia melhor".

"O dia passa e eu não sofri"

Se a mente está ocupada, já é meio caminho andado para Natália estar bem. Quer esteja a trabalhar, a treinar ou a competir, não pensa em mais nada. "É maravilhoso, ajuda-me imenso. O dia passa e eu não sofri", afirma.

No entanto, é quando está sozinha, sem nada para fazer, que a situação se complica. Natália descreve como "bastante desgastante" quando passa por momentos em que está consigo mesma.

Conta à SIC que, por outo lado, estar numa festa ou num jantar com muitas pessoas, não quer necessariamente dizer que está tudo bem. É difícil controlar a mente e os pensamentos em determinados momentos.

"Não é por estarmos rodeados de pessoas que quer dizer que estamos felizes. Pelo contrário, podemos estar com um vazio enorme sem saber porquê se está tudo a correr bem", refere.

"O confinamento foi o momento em que eu pude literalmente cuidar de mim"

No primeiro confinamento, em 2020, muitas pessoas não conseguiram lidar com o facto de ficarem fechadas em casa, sem poder sair ou estar com outras pessoas. Muitas confessam que se sentiram mais deprimidas e mais ansiosas.

Mas, com Natália, o confinamento teve o efeito oposto. Em entrevista à SIC, garante que esse foi o momento em que pode cuidar de si, "de dentro para fora".

"Às vezes eu pensava: 'O mundo podia parar um segundo'. Parou meses e eu pude cuidar de mim. Muitas vezes diziam-me: 'Vai dar uma volta, vai ver o mar' e eu preferia olhar para a parede de casa. Com o confinamento, ninguém me incomodava, eu não me pressionava a fazer coisas o tempo todo e foi o momento em que eu pude literalmente cuidar de mim, de dentro para fora. Infelizmente ninguém pode comemorar numa situação destas, mas o confinamento para mim foi um momento bom, pessoal, para cuidar de mim", afirma.

"A medicação não acaba com a minha dor, mas equilibra as hormonas"

A triatleta amadora diz que os transtornos mentais ainda são um tabu muito grande e lamenta que assim seja. Natália sublinha que ansiedade é uma doença como outra qualquer e como tal também merece ser tratada.

"Já dei exemplos, se eu tivesse um cancro tinha de tratar, ou então morria. Depressão, ansiedade, é a mesma coisa, temos de tratar. Quem é que aguenta viver assim? Não dá, incapacita, há pessoas que não conseguem trabalhar." refere.

Natália começou a tomar antidepressivos e ansiolíticos há cinco anos. Tentou parar durante um ano, mas a situação tornou-se muito difícil, "ao nível hardcore", lembra. A medicação não acaba com as dores, mas ajuda a equilibrar as hormonas para se sentir bem.

Conta ainda que a doença tem maior impacto na vida pessoal. "Hoje em dia ninguém tem pachorra para tolerar", conclui.

Como perspetiva o futuro

Natália não faz muitos planos para o futuro. Entende que a ansiedade é uma doença com altos e baixos e que faz com que não seja possível usufruir de uma vida estável. "Mas também ninguém tem uma vida totalmente linear", afirma.

A triatleta amadora de 36 anos espera conseguir gerir a ansiedade quando estiver a atravessar momentos menos bons.

Às pessoas que poderão estar a passar por situações semelhantes, deixa um conselho. "Falem com alguém de confiança, digam que estão a sentir-se estranhos e comecem com uma conversa informal. É importante tentar perceber se pode ser alguma coisa e se necessário, pedir ajuda profissional".

Os números da saúde mental em Portugal

Estima-se que uma em cada cinco pessoas em Portugal tenha uma doença mental. A depressão é a que mais afeta os portugueses. As "doenças invisíveis" são muitas vezes a razão pela qual as pessoas são vítimas de olhares e comentários discriminatórios de colegas, amigos e familiares.

Ao longo dos anos, a saúde mental de um indivíduo pode sofrer várias alterações que são influenciadas por acontecimentos, relações, experiências, fatores biológicos, entre outras coisas. É por isso importante manter-se alerta, cuidar do corpo e da mente, não ter medo de pedir ajuda a profissionais qualificados se necessitar e não ter vergonha de abordar o assunto. Porque sem saúde mental, surgem as perturbações mentais.