Saúde Mental

"Peguei na minha filha pela primeira vez quando ela tinha 3 semanas porque tinha medo do diabo"

Exclusivo SIC

José Estevez

SIC

Humberto Candeias

Humberto Candeias

Repórter de Imagem

José sofre de Perturbação Obsessivo-Compulsiva, mas até descobrir a doença passou por momentos muito difíceis: foi despromovido no local de trabalho; passou por "incompetente"; foi vítima de bullying; não pegou na filha ao colo quando ela nasceu; considerava-se um extraterrestre; e não tinha qualidade de sono por causa dos rituais que cumpria todas as manhãs.

José Estevez viveu 30 anos sem perceber o que se passava, a tomar medicamentos receitados por médicos e a ser alvo de críticas e olhares reprovadores por parte de colegas de trabalho.

A figura do diabo e tudo o que estivesse relacionado com o pecado e o inferno deixava-o ansioso a um nível extremo que tinha muita influência na vida pessoal e profissional.

José tem 60 anos e é técnico de informática. Além disso, também tem POC (Perturbação Obsessivo-Compulsiva). Mas até descobrir a doença, passou por momentos muito difíceis: foi despromovido no local de trabalho; passou por "incompetente"; foi vítima de bullying; não pegou na filha ao colo quando ela nasceu; considerava-se um extraterrestre; e não tinha qualidade de sono por causa dos rituais que cumpria todas as manhãs.

"Tudo o que estivesse relacionado com o diabo assustava-me de uma forma maior do que era suposto"

Aos 18 anos percebeu que algo não estava bem. José tinha pensamentos negativos e eram sempre relacionados com o mesmo: o diabo. A dada altura, os pensamentos começaram a surgir com muita frequência e o que José fazia para tentar ultrapassar a situação era realizar a ação que estava a fazer no momento e pensar em coisas positivas. Entendeu que se usasse este truque, a "ansiedade diminuía".

"Toda a gente tem pensamentos dos quais não gosta. Só que as pessoas conseguem desvalorizar e eu não conseguia. No meu caso concreto era o medo do diabo, talvez pela formação religiosa que tive, tudo o que tivesse a ver com diabo, com pecado, com inferno, assustava-me de uma forma maior do que era suposto", conta.

"Peguei na minha filha pela primeira vez quando ela tinha três semanas porque tinha medo do diabo"

Hoje, aos 60 anos, José recorda alguns rituais que fazia nos anos em que ainda não sabia que tinha POC.

"Estava a pôr loção depois da barba, vinha-me um pensamento desses e eu, em vez de meter loção uma vez, metia quatro ou cinco. Estava a pegar num copo, e o copo andava para trás e para a frente", lembra.

Em entrevista à SIC, diz que uma das piores fases da vida foi quando a mulher engravidou. "A ansiedade disparava constantemente".

"Lembro-me que peguei na minha filha pela primeira vez quando ela tinha três semanas porque tinha medo que acontecesse alguma coisa, que o diabo entrasse".

José evitava determinadas situações por receio que os pensamos se materializassem. Acreditava que se não repetisse o que estava a fazer com um pensamento contrário, aquilo ia mesmo acontecer.

"Não há malucos, há pessoas doentes que precisam de ajuda"

Ao longo de muitos anos, confessa que fez um esforço enorme para que as outras pessoas não percebessem que estava a repetir determinadas ações. Se estivesse no local de trabalho, refugiava-se na casa de banho para fazer a repetição. Conta que com os familiares não disfarçava tanto como com estranhos.

"A compreensão que tinham para comigo também fazia com que desvalorizassem de alguma forma. Com amigos meus, eles diziam coisas como: 'Epá, o Zé tem algumas coisas de parvinho, mas pronto'. Como quem diz, como somos amigos e gostamos todos de ti, isto passa", recorda.

José Estevez lamenta que a etiqueta do "maluco" seja utilizada em casos como o dele e principalmente por pessoas com falta de conhecimento e que não sabem o que está a acontecer com o outro.

"É fácil dizer: 'Aquele é maluco, portanto vamos dar-lhe desconto'. Não é nada disto, não há malucos, há pessoas doentes, há pessoas que sofrem e acima de tudo há pessoas que precisam de ajuda e que precisam, além de compreensão, alguém que faça alguma coisa por elas", sublinha.

"Até há algum tempo atrás, a sociedade rotulava muito as pessoas e fazia com que os doentes também se fechassem em si próprios, até para se defenderem", lamenta.

"Eu achava que era um ET, uma coisa de outro planeta"

José pensava ser caso único. Não conhecia ninguém igual a si e por isso considerava-se um género de extraterrestre na Terra. Após anos de consultas em médicos, psicólogos e psiquiatras, José encontrou a DOMUS MATER - Associação de Apoio ao Familiar e Doente com Perturbação Obsessivo-Compulsiva - e a vida mudou. Há cerca de seis anos, descobriu que não está sozinho e que, afinal, há outras pessoas iguais a si.

"Perceber que não estava sozinho nisto, fez a diferença da noite para o dia", afirma.

A DOMUS ajudou-o a ter uma perspetiva totalmente diferente da doença, a conhecer a realidade da POC e ensinou-o, a ele, e à família, a lidar com a doença e, principalmente, a conviver com ela.

"Passei a dormir mais 40 minutos do que dormia antes"

Imagine ter de acordar mais cedo porque demorava muito tempo a apertar e desapertar os botões de uma camisa. Esta era a realidade diária de José. Todas as manhãs, tinha de repetir o processo e isso fazia com que chegasse muitas vezes atrasado a compromissos como o trabalho.

Hoje, esse ritual já não existe e graças a isso passou a dormir mais e melhor, como conta à SIC. "Passei a dormir mais 40 minutos do que dormia antes. A minha qualidade de vida num pormenor tão simples que é o descansar e o dormir, alterou-se".

Durante 30 anos, José demorou uma hora para se vestir, hoje, demora no máximo 10 minutos.

"A minha mulher é o pilar"

Na entrevista à SIC, José fez questão de falar no papel da mulher durante todo o processo pelo qual passou, desde a altura em que não sabia o que se passava, quando descobriu o que tinha e até aos dias de hoje. A POC estará sempre presente na sua vida e o José, como outros doentes, têm de aprender a viver com ela.

Sílvia Estevez, com quem está casado há 35 anos, foi a primeira pessoa a saber da existência da POC. "Ela tem sido tudo, é o pilar. Foi a pessoa que sempre me ajudou, às vezes até numa altura em que financeiramente não tínhamos muitas posses. Ela sempre disse, soube de um psicólogo, vamos lá. Mesmo com alguma dificuldade para lá chegarmos".

"Foram muitos anos de sofrimento"


Sílvia começou a perceber que se passava algo com o marido dois anos depois de terem casado. Quando engravidou percebeu que o marido "estava com uma perturbação grave". Inicialmente atribuiu os comportamentos e as atitudes a um esgotamento derivado do cansaço físico, mas não sabia ao certo do que se tratava.

"A gravidez despoletou nele um grande estado de ansiedade, ansiedade essa que ele não estava a conseguir controlar e que, de alguma maneira, depois começou a passar para mim também", conta.

Diz que "foram muitos anos de sofrimento" e chegou a sentir várias vezes que estava a atingir o limite. Era no trabalho que se refugiava para esquecer os problemas com que tinha de lidar em casa. Sempre se considerou uma pessoa alegre e bem-disposta, mas confessa que passou por momentos muito difíceis quando não sabia o que se passava com o marido.

"Estava no trabalho e quando chegava a hora de ir embora eu começava a ficar angustiada. Eu sentia-me mais feliz no meu local de trabalho do que me sentia em casa. Porque sabia que chegava a casa e ia encontrá-lo no mesmo sítio onde o tinha deixado às 06:00 da manhã, sabia que o prato da comida ia estar em cima da bancada".

Toda a situação causava a Sílvia muito sofrimento. "Os dias pareciam todos cinzentos", conta.

A mulher de José notava que a medicação não fazia grande efeito e, com o tempo, foi apercebendo-se dos mesmos rituais.

"Eu perguntava se ele estava melhor e notava nele um vazio. Olhava-o nos olhos e era aquela tristeza, o olhar morto, a apatia".

"A depressão, a POC e a ansiedade não são visíveis aos olhos das outras pessoas"

Sílvia, tal como José, lamenta que a sociedade não compreende as doenças mentais da mesma forma que compreende outras doenças.

Quando era questionada sobre a razão pela qual andava mais triste, respondia que era porque o marido estava doente. Uma vez, disse que o marido tinha uma depressão nervosa e a resposta que ouviu do outro lado foi: "Isso passa".

"Se o meu marido tivesse uma perna partida, se fosse operado, as pessoas compreendiam", afirma.

"A depressão, a POC, o estado de ansiedade, não são visíveis aos olhos das outras pessoas. Eu posso estar a sorrir e o meu coração está a chorar por dentro, isso causa um sofrimento enorme. Nós não queremos passar uma realidade para evitarmos as perguntas e os comentários menos oportunos".

Diz que hoje ainda é possível que haja um tabu sobre a doença mental, mas já existe mais sensibilização e as pessoas já começam a falar mais sobre o assunto. "Se calhar deixou de ser o bichinho papão da medicina e as pessoas deixaram de ter tanta vergonha de abordar do tema", remata.

"Passei a ajudá-lo confrontando-o e contrariando-o"

Na DOMUS, Sílvia conheceu a doença e adquiriu ferramentas que a possibilitam ajudar o marido todos os dias. É a confrontá-lo com as situações e a contrariá-lo que o ajuda.

"Ele ia pegar num prato, ia pôr na bancada, depois vinha com o prato para trás e eu dizia: 'Não, desculpa, vais pôr o prato lá e não tiras'. Ele ficava a transpirar e numa grande ansiedade", exemplifica.

Sílvia conta que tinha de se despir do "estado fraternal" e adotava uma postura mais dura e mais fria. Apesar de lhe custar, acreditava que estava a fazer o correto e que era o melhor para ambas as partes.

Atualmente, José continua a ter pensamentos, mas aprendeu a lidar com eles e mais importante, a desvalorizá-los, algo que não acontecia antigamente.

Às pessoas que se encontram em situações semelhantes, José deixa uma mensagem:

"Procurem ajuda, procurem quem sabe do assunto porque há solução. Eu, ao fim de 30 e tal anos, atingi uma qualidade de vida que me fez perder 1/3 desses 30 e tal anos. Andava a repetir, inúmeras vezes, aquilo que já estava feito desnecessariamente. É um desgaste enorme. E hoje tenho a qualidade de vida que há 10 anos não imaginava ser possível", conclui.

OS NÚMEROS DA SAÚDE MENTAL EM PORTUGAL

Estima-se que uma em cada cinco pessoas em Portugal tenha uma doença mental. A depressão é a que mais afeta os portugueses. As "doenças invisíveis" são muitas vezes a razão pela qual as pessoas são vítimas de olhares e comentários discriminatórios de colegas, amigos e familiares.

Ao longo dos anos, a saúde mental de um indivíduo pode sofrer várias alterações que são influenciadas por acontecimentos, relações, experiências, fatores biológicos, entre outras coisas. É por isso importante manter-se alerta, cuidar do corpo e da mente, não ter medo de pedir ajuda a profissionais qualificados se necessitar e não ter vergonha de abordar o assunto. Porque sem saúde mental, surgem as perturbações mentais.

A Reportagem Especial da SIC, "Todos somos estranhos até percebemos que é normal", leva-o a conhecer a como é viver com medos, ansiedades e angústias, mesmo antes da pandemia aparecer. Pode vê-la aqui.