Saúde Mental

Uma em cada 10 pessoas que sofre de perturbação borderline suicida-se ainda jovem

OLIVIER DOULIERY

Psiquiatra alerta para uma doença que constitui um grave problema de saúde pública, mas que é incompreendida, mal diagnosticada e maltratada.

Uma em cada 10 pessoas que sofre de perturbação da personalidade borderline suicida-se ainda jovem, uma doença que constitui um grave problema de saúde pública, mas que é incompreendida, mal diagnosticada e maltratada, alerta o psiquiatra João Carlos Melo.

Foi para dar voz a estas pessoas que se encontram “perdidas numa terra de ninguém” e alertar para esta doença que João Carlos Melo escreveu o livro “Reféns das próprias emoções - Um retrato íntimo das pessoas com personalidade ‘borderline’”.

“Notei que fazia falta um livro com estas características, nomeadamente em Portugal, dedicado sobretudo ao grande público, embora todas as pessoas da área da saúde mental certamente que ficarão mais bem informadas”, diz o psiquiatra em entrevista à agência Lusa.

Desde a publicação do livro em maio que João Carlos Melo tem recebido “muitas reações extraordinariamente positivas” de reconhecimento e de agradecimento.

“Muitas pessoas que eu não conheço têm mostrado que o livro tem ajudado a divulgar este problema e sentem-se reconhecidas, sentem-se retratadas e sentem que é um bom serviço que é prestado dando a conhecer este problema”, revela o psiquiatra, que pretende também com o livro ajudar doentes e familiares.

No livro, o psiquiatra pergunta o que é que Marilyn Monroe, Janis Joplin e Amy Winehouse tinham em comum. “A fama? Sem dúvida que sim. O talento e o brilho? Também”, mas havia “um outro lado”.

“Eram excessivas, intensas. Viviam sempre no limite. As relações que estabeleciam eram dramáticas e tumultuosas. Tinham atitudes autodestrutivas. Agrediam-se a si próprias de formas variadas” e “eram demasiado jovens quando morreram” e eram doentes ‘borderline’, escreve o diretor do Hospital de Dia de Psiquiatria do Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra).

À Lusa, João Carlos Melo explica que a maior parte das pessoas não precisa de fazer um grande esforço para regular as suas emoções, podendo ficar indignadas, zangadas, magoadas com muitas situações, mas estas pessoas “ficam muito mais” porque são “hipersensíveis”.

“Não conseguem controlar as emoções por várias razões que têm a ver com o temperamento, com o funcionamento biológico, com as histórias de vida e a própria impulsividade”, explica.

Segundo João Carlos Melo, são doentes que “sofrem e fazem sofrer os outros” e são “incompreendidos” como é a doença.

“Mesmo dentro da psiquiatria, esta doença é mal compreendida, mal diagnosticada e maltratada. Como o têm sido as pessoas que dela sofre”, afirma.

Doença atinge mais de 2% da população

Estimativas apontam que esta doença atinja mais de 2% da população, o dobro da doença bipolar, da esquizofrenia e da doença de Alzheimer, mas podem ser mais, porque muitas vezes o diagnóstico tende a ser feito para outra patologia, como a depressão ou bipolaridade, ansiedade.

Também há doentes que só procuram ajuda em situações de crise nas urgências dos hospitais, acabando por desaparecer e não ficar nas estatísticas.

A ideia da morte está quase sempre presente nestes doentes e 10% morrem de suicídio, o que "é muito", e cerca de 75% fazem tentativas de suicídio.

“Isto pode ser entendido e pode ser sentido como uma manipulação, mas na verdade a pessoa está a ter um comportamento desesperado de sobrevivência”.

Já os comportamentos autolesivos tem outro significado que é provocar uma dor física para aliviar a dor psicológica que os doentes descrevem como sendo “dolorosa” e “insuportável”.

Estudos epidemiológicos mostram que mesmo sem tratamentos específicos os doentes vão melhorando com o avançar da idade “nestes comportamentos mais exuberantes, de impulsividade, agressividade”.

Mas há outros aspetos que são mais difíceis de melhorar como o vazio interior, a baixa autoestima, a dificuldades nas relações com as pessoas e angústias de separação e abandono.

Psiquiatra defende tratamentos para todos os doentes borderline

O psiquiatra João Carlos Melo defende que a psiquiatria “tem o dever” de arranjar formas de tratar todas os doentes com perturbação de personalidade ‘borderline’ porque há tratamento para a doença e as pessoas podem melhorar.

“É possível ajudar estas pessoas numa dimensão muito maior, muito mais numerosa do que tem sido até agora”, afirma em entrevista à agência Lusa o autor do livro “Reféns das próprias emoções - Um retrato íntimo das pessoas com personalidade ‘borderline’”.

João Carlos Melo diz que é importante transmitir uma “palavra de esperança” a estes doentes de que podem melhorar e, por isso, “é importante que haja tratamento para todas estas pessoas”.

Para o psiquiatra, é “inaceitável” que exista “uma doença tão mal conhecida, tão mal diagnosticada e tão maltratada”.

“Um dos maiores desafios que a psiquiatria terá de abraçar é o de encarar de frente e com coragem o grande problema que constitui a perturbação ‘borderline’”, afirma no livro o diretor do Hospital de Dia de Psiquiatria do Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra).

Tal passa por identificar melhor a doença e as pessoas afetadas por ela.

“Fazendo estimativas por baixo, podemos admitir que existam em Portugal 200 mil pessoas com a doença. E se considerarmos que ela acaba por afetar todas aquelas com quem a pessoa se relaciona em privado, podemos aceitar que, direta e indiretamente, são afetados quase um milhão de portugueses. É muito”.

Por outro lado, apontou João Carlos Melo, não há muitos profissionais a dedicarem-se a estes doentes, o que faz com que sejam poucos os doentes que têm acesso a tratamentos tanto nos hospitais privados como públicos.

Até agora, os tratamentos disponíveis têm-se restringido aos poucos doentes que têm tido “a sorte” de poder ter acesso aos escassos programas terapêuticos que existem.

Poucos psiquiatras com formação específica nesta área

Mas há um problema que se prende com o facto de haver poucos psiquiatras com formação específica nesta área.

Para ultrapassar esta situação, João Carlos Melo defende a criação de programas específicos que pudessem ser postos em prática “por técnicos que, embora competentes e dedicados, não tivessem de ter uma formação diferenciada, dispendiosa e pouco acessível”.

“O comportamento e o quadro clínico é muito variável de pessoa para pessoa e há muitas pessoas que foram diagnosticadas com outras doenças como depressão, doença bipolar, déficit de atenção com hiperatividade, toxicodependência, alcoolismo etc”, diz à Lusa.

Também são diagnosticadas com crises de pânico, de ansiedade, ansiedade social, ansiedade generalizada e o diagnóstico médico fica por aí, lamenta.

Há também muitos doentes que são diagnosticadas pela opinião pública como tendo “mau feitio” e há outras situações que estão nas classificações oficiais e que se designam por ‘quiet borderline’.

“São pessoas que não exteriorizam o sofrimento, mas sofrem muito em silêncio e há pessoas que têm comportamentos autolesivos, crises de grande desespero e de grande raiva, mas viram isso tudo para dentro, de tal modo, que as pessoas próximas nem se apercebem disso”, descreveu.

João Carlos Melo salienta a importância de ter “uma atitude de compreensão” para com estas pessoas.

“Isto já é um ponto muito importante porque aquilo provoca muitas vezes reações, mais negativas, é as pessoas se sentirem incompreendidas”, rematou.

Como há poucos psiquiatras com formação psicoterapêutica limitam-se muitas vezes a prescrever medicamentos, uma situação que pode ser sentida pelo doente como uma rejeição.

“Este médico não me quer ouvir, o que quer é despachar-me com medicamentos e isto aumenta a irritação da pessoa e, portanto, há todas estas razões que levam a que haja ideias preconceituosas, mal-entendidos e estigma dos próprios técnicos de saúde mental em relação a estas pessoas”, salientou o médico.

VEJA TAMBÉM:

  • 1:31