Saúde Mental

Quando o cérebro inventa memórias: a ciência por trás do fenómeno do déjà vu

Déjà vu significa literalmente “já visto” em francês. É aquela sensação súbita, rápida e estranhamente familiar de estar a repetir uma experiência que, na verdade, está a acontecer pela primeira vez. Sabemos racionalmente que nunca estivemos ali nem vivemos aquele momento antes - mas sentimos como se já tivesse acontecido. Maria Moreno, médica psiquiatra, explica o que se passa no nosso cérebro quando experimentamos esta sensação.

Quando o cérebro inventa memórias: a ciência por trás do fenómeno do déjà vu
Science Photo Library - PASIEKA

Já aconteceu consigo. Está num lugar onde nunca esteve, a fazer algo que nunca fez, com pessoas que nunca viu — e, de repente, sente que aquilo já aconteceu antes. O coração não dispara, não entra em pânico. Parece só que a cena se repete. O corpo continua quieto, os outros nem se apercebem, mas a mente faz um clique silencioso: “Eu já vivi isto.”. Mas será que viveu? Foi uma memória? Foi coincidência? Algum sinal especial? Ou será que o cérebro, esse maravilhoso ilusionista, acabou de lhe pregar uma partida?

Se já passou por isto, não está sozinho — quase toda a gente já sentiu um déjà vu pelo menos uma vez. Mas a pergunta que ninguém faz é a mais importante: o que é que o cérebro está realmente a fazer quando sentimos um déjà vu? Está a avisar? A falhar? A proteger-nos? A enganar-nos?

Vamos ao início. O que é afinal o déjà vu?

Déjà vu significa literalmente “já visto” em francês. É aquela sensação súbita, rápida e estranhamente familiar de estar a repetir uma experiência que, na verdade, está a acontecer pela primeira vez. Sabemos racionalmente que nunca estivemos ali nem vivemos aquele momento antes - mas sentimos como se já tivesse acontecido.

Não é uma memória verdadeira. Também não é uma premonição ou nada de paranormal. O déjà vu é uma ilusão. Uma ilusão fabricada pelo próprio cérebro. Um erro ou falha no sistema. Ou, numa palavra pomposa (porque a ciência está sempre cheia delas) uma paramnésia, que é uma palavra usada pelos psiquiatras para descrever algo muito simples: quando o cérebro se engana sobre aquilo que reconhece. E o déjà vu é apenas uma das formas desse engano.

O nosso cérebro é uma máquina extraordinária, mas não trabalha em tempo real como uma câmara de filmar. Ele não regista tudo o que vivemos; ele interpreta, compara, arquiva, julga, apaga, simplifica. Não armazena o mundo, armazena versões dele. E porque faz isso tão depressa, às vezes tropeça. O déjà vu é exatamente isso: um tropeço — benigno na maioria dos casos — num dos sistemas mais fascinantes do cérebro: o da memória e da familiaridade.

Mas o déjà vu não é a única “partida” que a mente nos prega. O déjà vu é só o episódio mais famoso de uma família de fenómenos - as paramnésias (a palavra pomposa aparece de novo). Já existe também o jamais vu, que é o oposto do déjà vu: algo completamente familiar que, de repente, parece estranho, como se o cérebro tivesse apagado o reconhecimento. Imagine olhar para uma palavra que você usa todos os dias — “janela", por exemplo — e de repente ela parecer-lhe uma palavra inventada, sem sentido. Isso é o jamais vu. Há também o déjà entendu, quando o cérebro acha que já ouvimos algo antes, e o déjà pensé, quando sentimos que já pensámos exatamente aquela ideia. E há formas mais raras e mais graves, como os falsos reconhecimentos intensos ou confusões de identidade, que surgem sobretudo em doenças psiquiátricas ou neurológicas. É como se o cérebro, em vez de ser um arquivo ordenado, fosse às vezes uma gaveta desarrumada de memórias e sensações, onde tudo pode cair no sítio errado.

Se quisermos simplificar, o déjà vu acontece quando o cérebro dispara a sensação de familiaridade antes de confirmar se aquilo já aconteceu. Ou seja: a sensação vem antes da verificação. Devia ser ao contrário. Primeiro o cérebro analisa, depois reconhece. Mas aqui, por um instante, atropela-se. Em vez de processar o presente como novo, trata-o como repetido. É uma espécie de curto-circuito entre a perceção e a memória, e acontece sobretudo no lobo temporal, a região onde guardamos e comparamos experiências passadas.

Então porque é que acontece mais em certas pessoas e em determinados momentos? O déjà vu é muito mais comum em jovens adultos, especialmente entre os 15 e os 30 anos. Depois diminui com a idade. E isto faz sentido: o cérebro jovem tem maior velocidade de processamento, mais plasticidade, mais exposição a estímulos novos. Quanto mais novidade o cérebro processa, maior o risco de confundir novidade com memória. Pessoas que viajam muito, dormem pouco, vivem com muito stress, consomem muitos estímulos sensoriais ou têm uma grande imaginação e criatividade tendem a ter mais déjà vu. Em especial quando estão cansadas, distraídas ou sobrecarregadas. O cérebro, nessas alturas, pode ficar demasiado rápido a “prever” e demasiado lento a “verificar” — e é nesse intervalo que o déjà vu nasce.

Carol Yepes

Até aqui, estamos a falar do déjà vu normal, benigno, comum. Mas como em tudo na medicina, há uma linha que separa o fenómeno curioso do fenómeno clínico. E essa linha, no caso do déjà vu, é simples: no déjà vu normal, a pessoa sente que aquilo foi estranho, mas sabe que é só uma sensação. No déjà vu patológico, a sensação é tão intensa, repetitiva ou confusa que já não é só uma curiosidade — torna-se um sintoma.

O déjà vu patológico é muito mais frequente, pode vir em sequência, pode deixar a pessoa desorientada, confusa, desligada ou com sensação de “irrealidade”. E aqui, já não estamos a falar de um erro de memória ocasional, mas de uma alteração neurológica. A principal condição associada a este tipo de déjà vu é a epilepsia do lobo temporal. Nestes casos, o déjà vu pode ser o primeiro sinal de uma crise epilética. Uma descarga elétrica anormal começa nessa área do cérebro e a primeira coisa que a pessoa sente é um déjà vu muito forte, acompanhado por sintomas físicos: mal-estar súbito, sensação de calor, alteração da consciência, movimentos automáticos ou mesmo apagões. O déjà vu deixa de ser uma experiência momentânea e passa a ser um aviso. Também pode surgir em demências, lesões cerebrais ou em perturbações dissociativas graves. Ou seja: é raro ser sinal de doença mas pode ser.

E isto leva-nos a outra distinção muito importante: a diferença entre o déjà vu patológico e os fenómenos psicóticos. À superfície parecem parecidos, mas são o oposto. No déjà vu, mesmo o patológico, a pessoa estranha a experiência e mantém consciência crítica: “Isto parece real, mas eu sei que não é”. Já no delírio — o sintoma central da psicose — a pessoa não fica só com a sensação. Fica com a certeza. Passa de “parece que já vivi isto” para “eu vivi isto e isso significa alguma coisa importante”. A sensação torna-se convicção. A dúvida desaparece. A interpretação ganha poder. A mente deixa de assinalar o erro e passa a construir uma história à volta dele. E é aqui que compreendemos a diferença essencial: no déjà vu, o cérebro falha; na psicose, a realidade é substituída.

Resumindo e baralhando: o déjà vu normal é o cérebro a tropeçar; o déjà vu patológico é o cérebro a dar sinais de que algo não está bem. O déjà vu psicótico não é déjà vu — é um delírio com a sensação de reconhecimento. A diferença está na crítica. No déjà vu, a pessoa diz: “que estranho”. Na psicose, a pessoa diz: “isto é verdade”. Não é a sensação que define o problema. É a relação com ela.

Então quando é que vale a pena procurar ajuda? A regra é simples: um déjà vu ocasional, raro, rápido, que não deixa confusão nem sintomas associados, é totalmente normal. Um déjà vu frequente, intenso, repetitivo, associado a desorientação, alterações da consciência, perda de memória, movimentos involuntários ou sensação de desconexão com a realidade — esse merece avaliação médica. Porque o déjà vu isolado é inofensivo, mas um déjà vu que vem colado a sintomas neurológicos pode ser a ponta do icebergue.

E agora, a parte que mais interessa ao leitor: o déjà vu é perigoso? Na esmagadora maioria das pessoas, não. É apenas um erro elegante do cérebro. Um bug. Um curto-circuito amigável. Uma ilusão que dura segundos e desaparece sozinha. Não é um aviso espiritual, não é o cérebro “recordar vidas passadas”, não é uma janela secreta do universo. É apenas o cérebro humano a fazer aquilo que sempre fez: tentar prever o mundo antes de o entender e, às vezes, a falhar no processo.

Se já sentiu um déjà vu, não está a enlouquecer. Está apenas a experimentar um dos mecanismos mais intrigantes do cérebro. E se algum dia voltar a acontecer, pode sorrir mentalmente e pensar: “Pronto, o meu cérebro enganou-se outra vez – tonto!”.


Artigo da autoria de Maria Moreno, médica psiquiatra.

@mariamoreno.medicapsiquiatra