Saúde Mental

Quando o perigo passa, mas o alarme fica ligado: compreender a Perturbação de Stress Pós-Traumático

Depois da depressão Kristin, o país começa a regressar à normalidade, mas nem todos os alarmes internos se desligam ao mesmo tempo. A psiquiatra Maria Moreno explica que para algumas pessoas o medo persiste sem causa aparente, num mecanismo de sobrevivência que falha e mantém o cérebro em alerta permanente, um dos traços centrais da Perturbação de Stress Pós-Traumático.

Pessoa a circular no Parque Municipal Tenente Coronel Jaime Filipe da Fonseca, mais conhecido como Parque do Avião, no dia seguinte à passagem da depressão Kristin
Pessoa a circular no Parque Municipal Tenente Coronel Jaime Filipe da Fonseca, mais conhecido como Parque do Avião, no dia seguinte à passagem da depressão Kristin
PAULO CUNHA/ LUSA

Portugal parou para olhar para as imagens da Depressão Kristin. Agora, com uma outra depressão a caminho (mais leve, garantem os entendidos) tudo parece indicar que o perigo passou. É hora de reconstruir. Mas para algumas pessoas, aquele momento não passa: repete-se. Sem razão aparente.

Depois de um evento potencialmente traumático — uma catástrofe natural, um acidente grave, uma agressão, uma guerra, a morte súbita de alguém — o cérebro entra em modo de sobrevivência.

Podemos estar lá, em corpo presente ou só ouvir relatos vívidos sobre o que aconteceu. É esperado. É adaptativo. O coração acelera, o sono altera-se, o corpo fica em alerta. Durante dias ou semanas, isto é normal.

O problema surge quando este alarme interno não desliga.

A Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD) não é uma reação exagerada. É uma falha no sistema que deveria ensinar o cérebro que o perigo acabou. O evento passa, mas fica mal arquivado. A memória não é integrada como algo passado — e permanece como presente.

Na prática clínica, explico muitas vezes assim: é como viver com um detetor de fumo avariado. Não há fogo, mas o alarme dispara todos os dias.

E o cérebro faz o que sabe fazer melhor perante qualquer ameaça. A amígdala — a estrutura que comando o medo — continua ativa. O corpo reage como se estivesse constantemente em risco. E a pessoa vive num estado de alerta permanente, mesmo estando em perfeita segurança.

Os sintomas são conhecidos (já todos ouvimos falar em PTSD) mas muitas vezes são mal interpretados. Importa dizer isto com clareza: nem todas as pessoas que vivem um trauma vão desenvolver PTSD. E nem todos os sintomas nos primeiros dias ou semanas significam doença. O cérebro precisa de tempo para processar. E nós, precisamos de ser pacientes e dar tempo ao tempo. Não queremos apressar conclusões mas também não queremos cair noutro erro igualmente grave: minimizar.

Na fase inicial após um trauma, muitas reações assustadoras são normais. Ansiedade, medo, imagens recorrentes, hipervigilância. O corpo ainda está a aprender que já não há perigo.

Não. Não queremos sedar a pessoa para “não sentir”, silenciá-la, dizer que tem de ser forte ou que “já passou”. Tudo isto pode interferir com o processamento natural da memória traumática. O cérebro precisa de integrar o que aconteceu – apagar à força não é boa ideia.

O tratamento imediato mais eficaz não é o comprimido mágico. É estar lá e dizer: “Isto que está a sentir é normal e pode acontecer depois de um choque grande. Não está a enlouquecer. Estamos juntos cá para perceber como é que isto vai evoluir.”

Se os sintomas persistirem para além de quatro semanas, se o medo continuar a controlar a vida, se a pessoa deixar de conseguir funcionar, então sim — falamos de PTSD. E aí entramos com estratégias claras, baseadas na evidência: psicoterapia e, sempre que necessário, medicação adequada.

A Perturbação de Stress Pós-Traumático não é sobre fraqueza. É sobre um botão de sobrevivência que encravou.

O perigo passou. Mas o cérebro continua lá.

E o nosso foco não pode ser desligar o alarme à força — mas ensinar aquela pessoa, com tempo e com segurança, que pode finalmente respirar fundo – o perigo passou.

Artigo da autoria da médica psiquiatra Maria Moreno