Tasqueando Por Aí

Coimbra tem mais encanto na hora da comida: um guia de tascas na cidade dos estudantes

Os ossos mais famosos da cidade. Um barracão onde não se encontra nada acima dos 10 euros. A taberna que está há 67 anos nas mãos da mesma família. O “Tasqueando Por Aí” visita Coimbra para mostrar que a cidade dos estudantes também tem encanto na hora da comida. De bónus, fica a sugestão de um cantinho especial em Oliveira do Hospital.

Taberna Casa Costa
Taberna Casa Costa
Daniel Pascoal

Depois de Lisboa e Porto, o "Tasqueando Por Aí" senta-se à mesa em Coimbra. O resultado é um guia com cinco tascas na cidade dos estudantes e uma em Oliveira do Hospital.

Taberna Casa Costa

Adoramos o Costa. Quem prova sempre gosta!”

Vivi três anos ao lado da Casa Costa. Ter demorado quase um ano a lá entrar é provavelmente o maior erro da minha vida universitária. O segundo é que tinha a mania de que não gostava de chanfana e, por isso, só agora provei a estrela maior desta taberna. Deste local de culto, referência de gerações, que está há 67 anos nas mãos da mesma família.

Não se demora a perceber que há qualquer coisa maior do que um restaurante aqui. A decoração é a materialização da paixão de quem bebeu e comeu nesta casa. Quadros, camisolas, canções e até orações, tudo dedicado aos Costa. E muitos autocolantes - de tunas, corporações de bombeiros e associações dos mais variados tipos - provenientes de todo o lado: Aveiro, Óbidos, Mealhada, Tábua, Leiria, Lisboa e por aí vai. Também os guardas prisionais e outras forças de segurança são presença regular no Costa, edificado mesmo atrás do Estabelecimento Prisional de Coimbra. Como diz uma das muitas letras emolduradas nas paredes, “quem prova sempre gosta”.

O serviço num dia de casa cheia - que são todos os dias, mesmo que seja domingo e esteja a chover - não vacila. A chanfana chegou em cinco minutos, a jarra de vinho tinto em cinco segundos. A caçoila da chanfana mais parecia um pote de ouro, onde se mexe e remexe a colher à procura de qualquer resto que possa ter escapado, mesmo que já só haja gordura. Quando se aceita que acabou, aproveita-se o molho para o pão. Não sobra nada daqui, só a saudade.

Morada: R. Augusto Filipe Simões 3
Número: 239 717 739
Preço médio: 10-15€

Zé Manel dos Ossos

Os mais famosos de Coimbra mudaram de mãos

Na primeira vez que fui ao Manel dos Ossos, em março, decidi não inclui-lo no Tasqueando Por Aí. Não porque não tivesse qualidade. Aquela casa serviu-me os melhores ossos que alguma vez comi. Mas já tinha demasiado estatuto, fama e procura. Fundada em 1959, é uma espécie de ex-líbris das tascas de Coimbra, reconhecida pelos locais e desejada pelos turistas. Foi percursora e impulsionadora dos ossos como petisco e prato principal. O que me fez voltar - e desta vez escrever - foi a mudança na gerência. Desde o início de junho que a mítica tasca está nas mãos de Ricardo Benedito, natural de Coimbra e chef do Eliseu dos Leitões, em Lisboa. "Nada vai mudar, vai ficar tudo na mesma", prometeu na altura.

À porta do número 12 do Beco do Forno, vejo que, em termos decorativos, está tudo na mesma. Mal era se não estivesse. Aqueles incontáveis papéis, nas mais diversas línguas, escritos por quem se apaixonou naquelas mesas, são parte fundamental desta pequena e aconchegante "universidade" gastronómica. A fila também está igual. Este não é um sítio para impacientes. Assim como aprender um instrumento ou construir um corpo 'fit', ir ao Manel dos Ossos exige tempo para se chegar à parte boa.

Ainda na fila, um funcionário oferece-me uma solução caricata para entrar mais rápido: que eu e a pessoa a seguir, até então desconhecidos, jantássemos juntos. Um à vontade, que é também um desenrascar, tão típico de um lugar como este. E foi assim que eu jantei com o australiano Steve.

Pode ser a nostalgia a falar, mas os ossos não me souberam tão bem como da primeira vez, embora ainda estejam excelentes. O preço subiu ligeiramente na maioria dos pratos. A clássica sobremesa da casa, o Vomitado, continua impecável. O Steve, que tinha acabado de chegar a Coimbra, mas já estivera no Porto, ainda não tinha comido tão bem em Portugal. "Vou dizer a dois amigos alemães para virem cá", confidenciou-me o meu novo amigo, que apostou na chanfana com batata cozida. No fim, disse-lhe, em inglês: "Steve, tens de ir ao Cantinho dos Reis amanhã." E é para lá que nós também seguimos.

Morada: Beco do Forno 12
Número: 239 823 790
Preço médio: 15-20€

Cantinho dos Reis

“Oh, I had a nice lunch. Thanks for the great recommendation”

Eu achava que conhecia o Cantinho dos Reis, onde jantei muitas vezes durante a faculdade. Achava até lá ir com quem realmente conhece.

Sentei-me e em poucos segundos já tinha pão e sopa na mesa. Portugal. Pedimos todos a mesma coisa - arroz de entrecosto em vinha de alhos - e comemos todos do mesmo sítio: uma enorme travessa de barro em cima de outra de inox. Portugal.

A decoração transborda o orgulho de quem é ou escolheu ser de Coimbra. Camisolas da Académica, diplomas de estudantes, quadros da cidade por todo o lado. Não fosse Coimbra feita das pessoas, o Cantinho esbanja incontáveis fotografias dos seus clientes. Desde António Costa e Rui Rio ao Francisco, o meu amigo que fez de guia neste almoço.

O Francisco lamenta que tem ido pouco ao Cantinho… só duas vezes por semana. Ele tem razão. É muito pouco.

Morada: Terreiro Erva
Número: 2239 824 116
Preço médio: 10-15€

Barracão - O Cantinho dos Ossos

Onde nada chega aos dois dígitos

Eis uma raridade: um restaurante onde não há um único item no menu que custe mais de 10 euros. O mais caro é a diária (que contempla entrada, prato, bebida e café) a 9,5. Nem os vinhos chegam aos dois dígitos. Estranhei, tendo em conta a fama e a tradição que carrega este local. Estamos no Barracão, também conhecido como o Cantinho dos Ossos, herdeiro do antigo Quim dos Ossos, uma das mais emblemáticas tascas de Coimbra. Na minha humilde sondagem, entre amigos e conhecidos, foi, disparadamente, o restaurante mais citado.

Este espaço, antes da chegada da equipa do Quim dos Ossos, em meados de 2022, já era um barracão onde muitos clientes se juntavam para beber uns copos e jogar petanca. "É mais velho do que eu", garante o enigmático Sr. Manuel, atrás do balcão. Quando questiono se é ele o dono do restaurante, responde-me com um sorriso de canto de boca: "Mais ou menos". Modéstia? Provavelmente respeito pela dona Clara, a mulher, com quem divide a gestão do Barracão.

Quem aqui vem não chega por acaso. O restaurante localiza-se fora do centro da cidade, junto à circular norte, na saída de São Romão e Vale de Linhares. Apesar da fama de outros pratos - feijoada, cozido, bifanas - a especialidade é o que dá nome ao local. A carne é tão tenra que ao mínimo toque se desmancha do osso de espinhaço de porco, com a particularidade de ser mais picante do que em outras casas.

Joaquim Cabral, o Quim dos Ossos, morreu em fevereiro aos 78 anos. Apesar de ter trespassado há mais de uma década o negócio que criou com a mulher, Maria de Lurdes, o seu nome continua a ser lembrado por muitos que frequentam o Barracão.

  • Morada: R. Vale de Linhares
  • Número: 239 823 146
  • Preço médio: 5-10€

A Mariazinha

Um tesouro escondido numa viela da Baixa

Anoto, religiosamente, antes de cada edição, algumas dezenas de nomes de restaurantes. "Mariazinha" era um que não constava no meu caderno velho. Era difícil encontrá-la sem ser por acaso. No Google, surge como "Taberna da Mariazinha" e tem apenas 18 reviews - mas uma média incomum de 4.8/5. Não há redes sociais, site ou número de telefone. Há restaurante, dos bons.

Escondida numa viela estreita na Baixa de Coimbra, esta pequena casa tem espaço para cinco mesas e 14 cadeiras. Tudo ocupado. "Não te preocupes que eu já vou sair. Mas olhe que ainda não paguei. A conta fica para o próximo", diz um senhor bem humorado. Outro cliente quase salta para o balcão para mostrar aos donos um vídeo no telemóvel. Aqui, são quase todos da casa, provavelmente com uma só exceção - a minha.

A cozinha fica à vista de todos, como quem não tem nada a esconder. Os pratos principais são do mais simples que há. Para a mesa mandamos vir jardineira e bitoque de porco. Antes, como manda a tradição da boa tasca portuguesa, sopa. "Parece a da minha avó. Até massa tem", diz o meu amigo Francisco. Os pratos obrigam-nos a elogiar os anfitriões.

É tudo obra da Maria, que cozinha, limpa, serve e gere o espaço que leva o seu nome no diminutivo. Tem a ajuda do Jacinto, o marido, e mais ninguém. Não sabe dizer há quanto tempo existe o restaurante, mas está aqui há 37 anos. Primeiro, como funcionária. Depois, com a saída dos donos, viria a comprar o estabelecimento. As décadas de trabalho não lhe tiram a simpatia do rosto.

Planear costuma dar resultado em quase tudo na vida, mas há poucas sensações melhores do que encontrar, por acaso, sorte ou destino, um tesouro como a Mariazinha.

  • Morada: R. do Almoxarife 25
  • Preço médio: 5-10€

Bónus: O Cantinho (Oliveira do Hospital)

Um clássico que vive há 30 anos no centro da cidade

"Volto já. Obrigado". O papel afixado à entrada, em plena hora de almoço, poderia afastar o cliente mais distraído. Mas em Oliveira do Hospital, toda a gente conhece o Cantinho e sabe que está aberto. A decoração desta tasca começa logo pela porta, com autocolantes da Seleção, do Euro 2004 e do Pai Natal a desejar Boas Festas, mesmo que ainda seja meio de outubro.

Lá dentro, a primeira impressão é a de quem entra num pequeno bar. Há um balcão, três mesas e incontáveis cachecóis e camisolas de futebol. A maioria é do Benfica. E se ainda restarem dúvidas sobre o clube da casa, Jorge dissipa-as com a t-shirt que leva no corpo, do 38.° campeonato vencido pelas águias. "Mas são todos bem-vindos aqui", garante o dono, que mostra artefactos dos rivais espalhados pelas paredes.

Só este espaço já dava uma tasca, mas não chegava para saciar toda a clientela. Quem vem almoçar ou jantar é encaminhado para uma segunda sala, consideravelmente maior, onde está a outra estrela do Cantinho. Bela, a cozinheira a quem todos conhecem o nome, serve a alheira - saborosa e de baixo custo. Jorge traz a cerveja. Cada um com o seu departamento no Cantinho, que vive há 30 anos no centro de Oliveira do Hospital.

No fim, peço o café. A Bela pergunta-me se quero bebê-lo na outra sala, com o Jorge. Percebo imediatamente a involuntária armadilha e caio de propósito. Durante largos minutos ficaria a debater as eleições do Benfica e a situação política do país. Nunca é só um café.

Depois da aguardente oferecida pela casa, um cliente despede-se. O Jorge responde "até amanhã". Se calhar, aquela mensagem à entrada não é um recado do dono, mas antes uma confissão dos clientes.

Morada: R. Conselheiro José Lobo 3
Número: 962 735 560
Preço médio: 10-15€

O "Tasqueando Por Aí" nasce com o objetivo de conhecer Portugal através da cultura que vive em cada mesa. Não é apenas sobre avaliar um bitoque ou uma patanisca. O ambiente conta, porque uma tasca é feita de memórias, tradições e, sobretudo, de pessoas, as que servem e as que comem. Até à próxima viagem.