Violência em Moçambique

As relações entre a Rússia e Moçambique: dos acordos à luta contra o terrorismo

Exclusivo SIC Notícias

A entrevista do embaixador russo em Maputo, Alexander Súrikov, a Nuno Rogeiro, comentador da SIC.

O embaixador russo em Maputo diz que o terrorismo em Cabo Delgado é importado. Numa entrevista que acedeu dar ao comentador da SIC Nuno Rogeiro, Alexander Súrikov fala da cooperação entre os dois países, garante que não há militares russos a lutar contra o terrorismo em Moçambique e recusa comentar as notícias de que empresas russas do setor de segurança o estejam a fazer.

Alexander Súrikov chegou ao cargo de embaixador da Rússia em Moçambique em 2017, pouco antes de começarem os ataques em Cabo Delgado. "Naquela altura, as forças e capacidades dos extremistas eram bem limitadas", reconhece, dizendo que "foi difícil" ligar os ataques na região ao terrorismo islâmico. "As bandeiras pretas (do Daesh) apareceram mais tarde."

"Quando cheguei, eram só bandidos armados."

A situação hoje é mais clara. Afirma que as forças de segurança conseguem fazer frente aos terroristas, mas que a ameaça extremista ainda está longe de desaparecer na região.

Sobre as possíveis causas do conflito, o embaixador diz que ninguém tem "total certeza". No entanto, reconhece que os terroristas se aproveitaram da falta de desenvolvimento de Cabo Delgado e da situação socioeconómica do país. Diz ainda que é um terrorismo importado.

"Este fenómeno islâmico do terrorismo foi importado do exterior. Não cresceu de dentro."

A cooperação entre a Rússia e Moçambique

Alexander Súrikov admite que a relação da Rússia com África nem sempre foi a melhor. Apesar de nas últimas décadas, a cooperação ter diminuído, o embaixador salienta que, nos últimos 5 anos, a situação alterou-se e a Rússia conseguiu uma "aceleração bastante notável" das relações com todo o continente.

Fala na primeira Cimeira Rússia-África, em 2019, que reuniu cerca de 30 líderes africanos, incluindo os de Angola, Moçambique e Cabo Verde, e na visita de Filipe Nyusi, Presidente moçambicano, a Moscovo, no mesmo ano. Esta foi a primeira visita de um líder de Moçambique à Rússia em 30 anos.

"Com toda a firmeza, posso dizer que nós estamos numa nova etapa de aceleração das nossas relações com Moçambique."

Questionado sobre os acordos entre os dois países, o embaixador prefere falar em "acordo de cooperação".

"Não é um protocolo, é um acordo de cooperação. Um papel jurídico de força maior."

Lembra que o país contribuiu para a formação das forças armadas de Moçambique, na década de 90. Desde então, a cooperação entre a Rússia e Moçambique continuou. "As formas e intensidade variam. Mas até hoje, realiza-se muita cooperação."

Na visita de Nyusi a Moscovo, o embaixador garante que o único acordo celebrado foi um de cooperação entre os Ministérios do Interior dos dois países. "Um acordo de cooperação das funções normais dos Ministérios. Nada tinha a ver com a situação em Cabo Delgado", assegura.

Quanto ao acordo de proteção de dados confidenciais da Defesa, assume também a sua assinatura, mas fala num "documento mais técnico do que operacional".

Entre a Rússia e Moçambique, existe também um acordo de cooperação naval, que permite aos navios russos entrarem nos portos moçambicanos com protocolos simplificados.

Em outubro de 2018, o navio de guerra russo Severomorsk esteve em Pemba. Mas, segundo Alexander Súrikov, esta não foi uma missão antiterrorista, mas sim uma "manifestação dos tradicionais laços de cooperação" entre os dois países. Uma visita de amizade, garante o embaixador na entrevista.

Rússia na luta contra o terrorismo em Moçambique?

O embaixador é categórico na sua resposta.

Apesar de não poder comentar os detalhes da cooperação militar entre os dois países, garante que a Rússia não está, de todo, presente na luta contra o terrorismo em Moçambique. O embaixador assegura que não há efetivos russos em Cabo Delgado.

"A Rússia nunca foi chamada a participar na situação do problema de Cabo Delgado."

Sobre a presença do general Victor Suldin (chefe dos peritos militares) em Moçambique, o embaixador começa por negar. Explica que há sim um "pequeno grupo" de peritos em Moçambique, que tem como principal tarefa promover a implementação do acordo de cooperação.

"Talvez haja alguma confusão, o general-maior Victor Suldin nunca esteve em África".

Mas a verdade é que o general Victor Suldin esteve em Moçambique, em 2020, para entregar uma medalha pelos feitos na II Guerra Mundial a um veterano, juntamente com o embaixador.

Uma fonte moçambicana revelou que os elementos russos enviados para Moçambique, no passado, como conselheiros eram "demasiado jovens e mal equipados". Mas esta é uma crítica que o embaixador russo recusa. "Nunca ouvi tal facto e duvido que corresponda à verdade."

"Toda a gente conhece perfeitamente a experiência dos nossos especialistas na luta contra o terrorismo e o nível profissional deles (…) É uma avaliação muito subjetiva e incorreta."

Após negar várias vezes a presença de militares russos na luta contra o terrorismo no norte de África, Alexander Súrikov é questionado sobre a possível existência de empresas russas do setor privado na região.

No final de 2019, a CNN avançou que o Governo de Moçambique teria contratado mercenários russos para combater os terroristas no norte do país. A intervenção russa, no entanto, não terá começado bem. Dois dos mercenários terão morrido durante os confrontos.

Confrontado com a possível presença de mercenários russos em Moçambique, o embaixador recusa comentar.

"Não é do meu conhecimento. Não posso comentar isso, não conheço."

Sobre as alegadas mortes de cidadãos russos em solo moçambicano, não confirma. "Não posso confirmar. Não tenho conhecimento destes casos."

O apoio russo a Moçambique

Alexander Súrikov afirma que a Rússia não pode fornecer mais material militar a Moçambique por causa das sanções "injustas e artificiais" de que é alvo e por pressões sobre o Governo de Maputo. "Há ainda muitos esforços pelo mundo para rejeitar qualquer armamento da Rússia." Diz mesmo que a Rússia tem as "mãos atadas".

Ainda assim, confessa que, se o Governo de Maputo solicitar assistência, a Rússia prontifica-se a ajudar.

O embaixador fala em possíveis formas de ajuda através das empresas russas que têm interesse em investir no país africano. Sobre a possibilidade de empresas russas de energia entraram na área do gás, substituindo a Total e outras, é para já uma questão que não se coloca.

Afirma-se como um otimista e diz que está seguro que, num futuro próximo, a situação se normalize, sem que as empresas internacionais tenham de sair de Cabo Delgado.

O embaixador diz que há outros pontos do país que são vistos com interesse por parte de empresas russas.

"Há empresas russas que estão prontas a vir cá para Moçambique e, de maneira conjunta com as empresas moçambicanas, desenvolver a economia do país."

Sobre a cooperação militar entre Moçambique, Portugal e os Estados Unidos da América, na situação em Cabo Delgado, o embaixador confirma que a Rússia está disposta a ajudar nessa luta. No entanto, defende que a cooperação internacional se devia fazer no quadro da SADC – Comunidade de Desenvolvimento da África Austral – e das nações africanas.

"Nós aderimos ao princípio: soluções africanas para problemas africanos."

Ou seja, para o diplomata russo, cabe aos países de África encontrar soluções para os seus problemas, "com o mínimo de intervenção internacional".

"Mas são precisamente as forças de Moçambique que têm de enfrentar este mal e preservar a soberania do país. Talvez consigam com apoio e coordenação."

Recorda que as forças armadas e de segurança de Moçambique não receberam durante décadas os conhecimentos e recursos necessários para manter o nível exigido a um país de "muitas riquezas". "Foram impostas limitações ao seu desenvolvimento."

"Agora a colheita é esta. Quando chega o inimigo de verdade, o exército tem uma capacidade bastante limitada."

A violência em Moçambique

A violência desencadeada há mais de três anos na província de Cabo Delgado ganhou uma nova dimensão este ano, quando grupos armados atacaram pela primeira vez a vila de Palma, que está a cerca de seis quilómetros dos multimilionários projetos de gás natural.

Os ataques provocaram dezenas de mortos e obrigaram à fuga de milhares de residentes de Palma, agravando uma crise humanitária que atinge cerca de 700 mil pessoas na província, desde o início do conflito, de acordo com dados das Nações Unidas.

O Daesh reivindicou o controlo da vila de Palma, junto à fronteira com a Tanzânia, mas as Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas reassumiram completamente o controlo da vila, anunciou o porta-voz do Teatro Operacional Norte, Chongo Vidigal, uma informação reiterada esta quarta-feira pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi.

Vários países têm oferecido apoio militar no terreno a Maputo para combater estes insurgentes, mas, até ao momento, ainda não existiu abertura para isso, embora haja relatos e testemunhos que apontam para a existência de empresas de segurança e de mercenários na zona.

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