Artes

14.04.2021

Ópera na prisão: ultrapassar muros e preconceitos

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Equipado com a mais moderna tecnologia de realidade virtual aumentada, o “Pavilhão Mozart” vai mudar a vida dos jovens reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria e a sua relação com a comunidade local

Inaugurado nas instalações da cadeia, o “Pavilhão Mozart” é um espaço que pretende funcionar como Centro e Artes Performativas para a comunidade, dentro e fora da prisão. Vem permitir a realização de espetáculos em que, por exemplo, familiares e amigos dos reclusos podem participar à distância.

O projeto traduz o reconhecimento e a valorização do trabalho artístico desenvolvido nessa relação entra a população prisional e a comunidade local.

Apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, os espetáculos de ópera, realizados na cadeia há vários anos, ganham assim outra dimensão.

De resto, foi na sequência da realização de dois projetos apoiados pela iniciativa PARTIS – “Ópera na Prisão: D. Giovanni 1003-Leporello 2015” e “Pavilhão Mozart – Só Zerlina ou Cosi fan tutte?”, que envolveram reclusos, familiares e a comunidade prisional, que foi identificada a necessidade de criar um espaço de artes performativas nas instalações da cadeia de Leiria.

Da montagem dos cenários aos figurinos, os projetos de recriação têm envolvido presos, funcionários e colaboradores externos.

Como sublinha Paulo Lameiro, diretor artístico do projeto Ópera na Prisão, para os reclusos é muito importante saírem fora da prisão para apresentar o seu espetáculo num palco profissional, mas para a comunidade é tão ou mais importante ir à prisão assistir.

Ultrapassar muros e preconceitos

Paulo Lameiro sintetiza como principais aprendizagens “o poder transformador da ópera”, a importância de envolver não só as famílias dos reclusos mas também toda a comunidade parceira nos projetos (guardas, psicólogos, políticos, vereadores, presidentes de comissões e de fundações, encenadores, músicos e artistas) e a “ousadia dos serviços prisionais”.

“Nada disto faria sentido se o estabelecimento prisional não tivesse aceitado de braços abertos a possibilidade de existir este pavilhão, não de saúde nem de cursos profissionais, mas para capacitar profissionais de palco”, explica o diretor artístico. “Isto revela bem também o caminho que se fez até aqui e a cumplicidade: somos uma equipa e trabalhamos em conjunto para fazer alguma coisa transformadora para todos”.

Atualmente decorre o projeto Traction, financiado pelo programa HORIZONTE 2020, em parceria com o Gran Teatre del Liceu, de Barcelona e a Irish National Opera, estando previsto um espetáculo na Gulbenkian em junho.

Procurar ultrapassar os muros de betão e as grades físicas, mas também “os muros humanos e preconceitos entre o fora e o dentro da prisão” – é, afinal, o principal objetivo deste projeto, que acaba de ser valorizado com a inauguração do “Pavilhão Mozart”.

Na prática, ganha a comunidade diretamente envolvida nos projetos e ganha a própria cidade de Leiria, ao contar com este espaço de performance, que, por acaso, está dentro de uma prisão.

Amostra do projeto "Traction"

O programa de inserção social pelas artes “Ópera na Prisão” apresenta, em 2 e 3 de junho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, uma amostra do novo projeto “Traction”, juntando, através da tecnologia, solistas profissionais e reclusos, anunciou a organização.

No Auditório 2 da Gulbenkian vão encontrar-se, presencial e virtualmente, Carla Simões (soprano), Cátia Moreso (meio-soprano) e André Henriques (baixo-barítono), reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria - Jovens (EPLJ) e seus familiares a partir de casa, além de intervenientes noutros pontos do mundo.

Segundo a Sociedade Artística Musical dos Pousos (SAMP), de Leiria, esse encontro será possível recorrendo às ferramentas desenvolvidas para “Traction”: utilizando as valências do Pavilhão Mozart, criado na antiga tanoaria da prisão, com “as mais avançadas tecnologias de realidade virtual aumentada”, é possível “aliar a ópera à tecnologia digital”.

A ópera completa será apresentada apenas em junho de 2022, recebendo agora a Gulbenkian a cena “Nós. Vocês. Toda a gente”, uma parte do trabalho já realizado. Trata-se de uma ópera original, assinada pelos compositores Francisco Fontes, Nuno da Rocha e Pedro Lima, com ‘libreto’ do escritor Paulo Kellerman, desenvolvida a partir de encontros com a comunidade do EPLJ. A 2 e 3 de junho, será exibida uma amostra desse, na Gulbenkian, constituindo um “primeiro momento de partilha do processo criativo” em que “todos [são] convidados a cantar, sugerir ideias, comentar”, avança a SAMP. A intenção é fomentar o “diálogo com os jovens reclusos e suas famílias”, para “tecer a ópera final de 2022”.

Este novo desafio de “Ópera na Prisão” promove a democratização da ópera usando a tecnologia como meio para chegar a novos públicos, fornecendo novas ferramentas para a arte participativa.

O consórcio internacional criado para concretizar “Traction” é liderado pela empresa tecnológica Vicomtech, do País Basco, Espanha, e envolve a SAMP em Portugal. Participam, ainda, o Gran Teatre del Liceu de Barcelona e a Irish Nacional Opera, na Irlanda, entre outros parceiros internacionais.