Educação

01.04.2021

Aprender em Portugal a ajudar São Tomé

Aos 17 anos, Carlos Miguel Aguiar da Glória deixou São Tomé e Príncipe com uma bolsa da Gulbenkian para vir estudar em Portugal. O seu sonho era ser médico, mas a falta de equivalências “empurrou-o” para o curso de Contabilidade e Auditoria. Terminou a licenciatura como o melhor aluno de 2018. Avançou para mestrado e hoje, aos 23 anos, frequenta o doutoramento em Finanças no ISCTE-IUL, em Lisboa

Há seis anos, em outubro de 2015, Carlos Miguel Aguiar da Glória chegou a Portugal com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, para fazer a licenciatura em Contabilidade e Auditoria da Coimbra Business School.

Para trás, deixava São Tomé, a cidade de Batepá, no distrito de Mé-zóchi, onde nasceu e sempre viveu na companhia da mãe e de cinco irmãos (três rapazes e duas raparigas).

A sua vida não era fácil. A mãe trabalhava como assistente numa mercearia localizada na cidade da Trindade, a três quilómetros de Batepá. Desde pequeno que a ouvia contar “várias histórias da sua vida, mencionando sempre as dificuldades que passara e aconselhando-nos sempre a estudar, de modo a poder ter uma vida melhor do que a dela”, diz Carlos Miguel.

Esse foi o principal incentivo para que o jovem ganhasse gosto pelo estudo. A mãe “sempre se esforçou muito para que nada faltasse a mim e aos meus irmãos. Acho que isto foi um dos principais fatores que me fez ser uma pessoa bastante estudiosa. Sempre tive esse desejo de no futuro vir a ser capaz de orgulhar a minha mãe e de proporcionar-lhe todos os cuidados que ela merece. Mas também acho que sempre tive jeito para a coisa”.

Carlos Miguel nunca precisou de sair do distrito de Mé-zóchi para estudar, o que lhe foi “bastante útil”, já que lhe permitiu poupar nos gastos. Entre os três e os seis anos frequentou o jardim de infância Olof Palme, na cidade da Trindade, a escola primária em Batepá e o ensino secundário no Liceu Maria Manuela Margarido que ficava aproximadamente a 1.5 km de casa. Interessado, manifestando “maior inclinação para a matemática”, era uma criança tranquila que gostava de jogar futebol nas horas livres.

Havia colegas que iam para a escola onde eu estudava só para me conhecer.

Tornou-se conhecido na escola pelas notas altas que conseguia. “Havia colegas que iam para a sala onde eu estudava só para me conhecer.” E quando terminou o 12º ano, em 2015, recebeu a notícia que melhor recompensava o seu esforço: a Direção Geral de Ensino de São Tomé selecionara-o para a atribuição de uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian por ter terminado aquele ciclo de estudos como um dos melhores alunos do país.

Melhor aluno de Contabilidade e Auditoria

O sonho de Carlos Miguel era estudar medicina e a novidade deixou-o “muito feliz.” Queria especializar-se em cirurgia reconstrutiva e ao longo do seu percurso académico em São Tomé procurara “aprender muito sobre esta área de modo a facilitar” a transição para a universidade, conta.

Tinha a noção de que, apesar das notas altas, “estudar medicina ainda não era uma certeza porque a minha mãe, por mais que quisesse, não tinha como ajudar-me na altura.”

Mas à alegria de saber que recebera a bolsa da Gulbenkian, juntou-se a desilusão da notícia de que não poderia tornar-se médico. “De acordo com a Direção Geral de Ensino de Portugal, em São Tomé, estudava-se matemática B e apenas duas das três disciplinas exigidas para o curso de medicina”, explica Carlos Miguel, que acabou por ser colocado no curso de Contabilidade e Auditoria na Coimbra Business School.

“Apesar de não ter sido o que tinha planeado, decidi avançar mesmo assim e aproveitar essa oportunidade”, conta. Terminou a licenciatura, como o melhor aluno do curso, em 2018. “Participei em jogos de simulação com mais de 700 participantes da Península Ibérica e América Latina, onde o desafio caracterizava-se por gerir uma empresa de forma mais eficiente possível, e alcancei a 5ª posição. Participei num desafio de entrevista a empresários, onde tive oportunidade de entrevistar um, tendo sido finalista nesse desafio”, recorda.

Desenvolvera entretanto o gosto por auditoria e fiscalidade e decidiu que queria tornar-se Revisor Oficial de Contas, seguindo para o mestrado em Análise Financeira (ainda com a Bolsa Gulbenkian) que terminou com média de 18 valores.

A sua dissertação final foi transformada em artigo e aceite naquela que é considerada a melhor conferência internacional de finanças em Portugal, a Portuguese Finance Network.

Só um doutoramento em finanças poderia ajudar-me a diminuir a minha ignorância.

Ganhara, entretanto, um gosto especial pela área das Finanças, bem como por investigação, o que o entusiasmou para avançar para o doutoramento. “Tinha muitas questões em mente e, por isso, só um doutoramento em Finanças poderia ajudar-me a diminuir a minha ignorância. Tenho expectativas bastante altas relativamente a este doutoramento e o mais me entusiasma é o fato de vir a ser capaz de criar conhecimento e descobrir coisas de que ninguém ainda descobriu ou percebeu. Isso deixa-me bastante animado!”, diz.

Saudades de São Tomé

Sente-se já “bastante adaptado” em Portugal mas, apesar disso, tem saudades de “praticamente tudo” em São Tomé. “Sinto falta das nossas frutas (jaca, safú, etc.), das nossas praias, das nossas comidas mas, principalmente, sinto falta da minha mãe, dos meus irmãos e dos meus amigos.”

Planos para o futuro Não lhe faltam. “Após terminar o doutoramento, gostaria de trabalhar como analista quantitativo (avaliando produtos derivados, aplicando modelos matemáticos para prever o comportamento do mercado, etc.) e como investigador.”

A ideia é “aplicar os conhecimentos adquiridos cá de modo a impulsionar o sistema financeiro em São Tomé e Príncipe.”

Tenciona também tornar-se um empreendedor e criar empresas em São Tomé “de modo a empregar mais pessoas e ajudar o país a desenvolver-se.”

Um dos seus principais desejos é “ver São Tomé com uma bolsa de valores”. Um desafio que considera difícil, “tendo em conta o atual tecido empresarial e toda a situação económica e política do país” mas que quer ganhar com competência e trabalho.