Depois da passagem devastadora da depressão Kristin, que ontem provocou pelo menos cinco mortos e um rasto de destruição em várias regiões do país, Portugal prepara-se para uma curta melhoria do estado do tempo. A estabilização será apenas temporária e antecede uma nova semana marcada por chuva persistente, vento e risco acrescido de inundações.
O mau tempo provocou cortes de eletricidade a milhares de pessoas, arrancou árvores e telhados e obrigou ao encerramento de escolas. Leiria, Coimbra, Santarém e Lisboa estiveram entre os distritos mais afetados por um fenómeno que colocou o país em alerta máximo e mobilizou os serviços de emergência.
Apesar de o pior já ter passado, a instabilidade mantém-se nas próximas horas. Segundo o climatologista Mário Marques, ouvido pela SIC Notícias, a chuva continuará a marcar presença esta quinta-feira, sobretudo a norte, podendo também atingir a região centro.
"A previsão é de chuva persistente, sobretudo a norte, mas durante a manhã poderá também atingir de forma persistente a região do centro", explicou o climatologista, acrescentando, no entanto, que a partir "do final da manhã e início da tarde" é esperado um alívio.
"Até ao dia 7 haverá precipitação todos os dias"
Tendo em conta os estragos provocados pela depressão Kristin, os próximos dias serão decisivos para os trabalhos de limpeza, reposição de infraestruturas e avaliação de prejuízos. No entanto, Mário Marques alerta que a margem de manobra é limitada, já que o período de trégua esperado será "curto".
De acordo com o climatologista, o estado do tempo irá melhorar na sexta-feira e, sobretudo, no sábado, altura em que "não é esperada precipitação". Contudo, mesmo este alívio será passageiro e insuficiente para dissipar totalmente os efeitos da tempestade.
A partir de domingo, dia 1, o cenário meteorológico volta a agravar-se.
"Teremos uma semana consecutiva, todos os dias com chuva, e inclusive de domingo para segunda-feira poderá ser por vezes forte, sobretudo no litoral oeste", alertou Mário Marques.
Segundo o especialista, "até ao dia 7, sensivelmente, haverá precipitação todos os dias", num quadro que classificou como "uma semana extremamente chuvosa".
O vento será outro fator de preocupação.
"De dia 1 para dia 2 haverá vento, que poderá ser moderado ou forte, e no dia 4 também", acrescentou, alertando para o impacto combinado da chuva e do vento em estruturas fragilizadas.
"Muitas bacias hidrográficas poderão já não aguentar"
Com os solos já completamente saturados, o climatologista alertou para o risco de cheias.
"Vamos ter um problema de eventuais inundações de caudal, uma vez que os solos estão completamente saturados e muitas bacias hidrográficas poderão já não conseguir aguentar", avisou o especialista.
Questionado sobre a excecionalidade do fenómeno registado ontem, Mário Marques explicou que Portugal já enfrentou episódios semelhantes, embora este se destaque pela violência localizada.
"Já tivemos outros episódios. O problema é que desta vez foi muito localizada em termos de estrago severo ou mesmo catastrófico", afirmou.
Referindo que a região oeste é "frequentemente a mais fustigada", o climatologista apontou a geografia do país como fator determinante.
"Portugal estende-se muito de norte para sul e o centro acaba por ficar num limiar onde existe uma maior frequência de encontros entre massas de ar frio e quente", condições que favorecem a formação de instabilidade atmosférica, explicou.
Com uma nova semana de chuva intensa no horizonte, o climatologista reforçou o apelo à população para acompanhar as previsões meteorológicas e seguir as recomendações da Proteção Civil, num cenário em que a breve trégua poderá ser decisiva, mas insuficiente para afastar o risco.