Quase uma semana depois da passagem da tempestade Kristin, os agentes de Proteção Civil continuam no terreno a tentar repor a normalidade, num contexto ainda marcado por infraestruturas danificadas, populações sem eletricidade e nova precipitação prevista.
“No terreno estamos na fase de recuperação do ciclo da emergência, em que se tenta repor uma normalidade mínima”, explica André Moraes. Estão em curso trabalhos de desobstrução de vias, consolidação de infraestruturas e apoio às populações, com o envolvimento de bombeiros, militares, PSP e GNR.
O especialista sublinha que a recuperação total vai demorar, "temos muitas infraestruturas afetadas, do domínio público e privado”.
"O envolvimento comunitário é muito importante, porque o número de pessoas disponíveis para o número de casos era bastante diminuto, agora isso faz-nos pensar que, na verdade, situações de catástrofe natural como nós vivemos, obriga a um trabalho de proximidade e de interligação entre todas as estruturas".
Mais chuva, cheias e risco de efeito cascata
Enquanto decorrem os trabalhos de recuperação, o país enfrenta nova precipitação, cheias urbanas e até neve em zonas mais elevadas, com a chegada da depressão Leonardo.
“Temos os afluentes completamente cheios. É o efeito cascata: vão surgir mais ocorrências ao mesmo tempo que ainda estamos a recuperar”.
O impacto da tempestade fez-se sentir em vários concelhos da zona centro, como Leiria, Alvaiázere, Figueiró dos Vinhos e Pombal.
A situação agrava-se com o aviso laranja para galgamento costeiro e agitação marítima.
Porque não foi acionado o mecanismo europeu
Segundo André Moraes, não faz sentido acionar o mecanismo europeu de Proteção Civil enquanto a capacidade nacional não estiver esgotada.
“Se a Autoridade Nacional diz que ainda não chegámos ao limite, não faz sentido pedir ajuda, por exemplo, para telhas e lonas.”
Ainda assim, admite que o cenário pode mudar. Além disso, lembra que Portugal dispõe de protocolos bilaterais com outros países.
“Se houver incapacidade para garantir geradores e normalizar o abastecimento de energia, o mecanismo europeu pode ser acionado.”
A prioridade, defende, é assegurar serviços essenciais, ao fim de seis dias, considera preocupante que ainda haja populações sem luz.
Alertar não chega, é preciso capacitar
Para André Moraes, os alertas são importantes, mas insuficientes. Defende maior envolvimento comunitário, com planeamento, formação e coordenação entre instituições.
“Uma SMS gera informação, não gera capacitação. O cidadão tem de ser envolvido ao longo do ano, não apenas em dias de catástrofe”.