Meteorologia

Entrevista SIC Notícias

"Falta humildade ao sistema de Proteção Civil para reconhecer as suas insuficiências"

Em entrevista à SIC Notícias, Duarte Caldeira alertou para as fragilidades do sistema de Proteção Civil, defendendo que a proteção dos cidadãos exige planeamento, especialização técnica e uma atitude de maior humildade perante o risco.

Loading...

A passagem da depressão Kristin por Portugal deixou um rasto de destruição que voltou a colocar em causa a capacidade do país para prevenir e gerir riscos extremos.

Leiria, Coimbra e Santarém concentram os maiores estragos, num cenário que, segundo especialistas, não pode ser tratado como excecional.

Para Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil, o problema é estrutural e antigo e agravado por uma cultura institucional pouco aberta à autocrítica.

Em entrevista à SIC Notícias, Duarte Caldeira sublinhou a importância da previsão meteorológica produzida pelo IPMA, que considerou "precisa" e "determinante para o planeamento". Ainda assim, defendeu que o essencial não é apenas reagir, mas compreender as causas profundas dos danos.

"É muito importante responder ao porquê das coisas", afirmou.

Segundo o especialista, cerca de "25% dos municípios do país foram afetados pela tempestade", revelando uma vulnerabilidade generalizada.

"Verificamos uma debilidade enorme das nossas infraestruturas. Chega a ser caricato que um avião F-16 esteja num hangar com uma cobertura tão frágil que acaba danificada por um evento desta natureza", exemplificou, lembrando o impacto estratégico e económico desse tipo de prejuízo.

A maioria dos danos, acrescenta, resulta do colapso de telhados e coberturas. Uma realidade que contraria o conhecimento técnico disponível.

"A engenharia diz-nos que as coberturas devem estar preparadas para suportar ventos entre os 140 e os 160 quilómetros por hora. Era suposto que as nossas infraestruturas estivessem preparadas para lidar com ventos desta natureza", alertou.

Para Duarte Caldeira, as fragilidades não se limitam aos edifícios. O estado do território e das redes essenciais agrava o risco.

"Temos um território completamente desordenado, fragilidades ao nível das infraestruturas rodoviárias e uma dependência extraordinária da rede elétrica, que está associada ao fornecimento de água, às comunicações e aos transportes", explicou.

"Somos todos coletivamente responsáveis"

O presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil rejeita a ideia de que o país esteja a enfrentar este tipo de crise pela primeira vez.

"Não é verdade. Em 2001 tivemos a queda da ponte Hintze Ribeiro. Em 2003, 2005 e 2017, grandes incêndios florestais. A pandemia da covid-19 foi outro grande momento de reflexão", recordou. Em todos esses episódios, defende, houve promessas de mudança que acabaram por se diluir com o tempo.

Apesar de se assumir otimista, Duarte Caldeira considera que o problema mais grave está na aversão ao planeamento.

"Este sistema tem vulnerabilidades que têm de ser vistas com desprendimento", disse, acrescentando que "o mais grave tem a ver com a nossa triste condição de aversão ao planeamento".

O especialista rejeita a lógica de encontrar culpados imediatos, defendendo uma responsabilidade coletiva.

"É tempo de não funalizarmos responsabilidades. Somos todos coletivamente responsáveis", afirmou.

No entanto, deixa um alerta claro: sem mudança de abordagem, o ciclo repete-se.

"Quando passar esta tragédia, voltamos todos à nossa vida e deixamos de nos preocupar com isto", disse alertando que é importante que isso não aconteça.

No centro das críticas está o funcionamento do próprio sistema de Proteção Civil. Duarte Caldeira sublinha que a proteção dos cidadãos não se resume à resposta operacional.

"A proteção civil não são apenas os bombeiros. É planeamento, organização, coordenação, diálogo, estudo e investigação", afirmou, lamentando que o sistema não esteja "vocacionado para a humildade".
"Cada um, no exercício da sua função, defende-se, mas já não é possível, com o quadro de risco em que vivemos, não ter a humildade suficiente para perceber que temos muitas insuficiências", criticou.

"É preciso credibilizar o sistema de Proteção Civil"

Para o especialista, a gestão de emergências complexas exige competências técnicas elevadas.

"Não pode ser baseada apenas no saber da experiência ou em currículos muito recheados."

Duarte Caldeira defende ainda a necessidade de investir numa verdadeira cultura de risco e questiona o incumprimento sistemático da lei.

"Porque é que temos infraestruturas tão frágeis? Porque é que não cumprimos as próprias leis que o Estado de direito produz? Porque é que não investimos numa cultura de risco para os cidadãos?", questionou.

O especialista destacou também o movimento espontâneo de solidariedade que surgiu após a tempestade, considerando-o um sinal de potencial desaproveitado.

"Este extraordinário movimento de voluntariado revela um potencial que ainda não soubemos aproveitar", afirmou, lembrando que praticamente não existe voluntariado estruturado em proteção civil fora dos bombeiros, um setor que, segundo diz, está também a fragilizar-se.

Para recuperar a confiança dos cidadãos, Duarte Caldeira defende decisões estruturais e sustentadas no tempo.

"É preciso credibilizar o sistema de Proteção Civil com decisões racionais, que resolvam problemas na sua extensão e ao longo do tempo, e não estar permanentemente a repetir as mesmas coisas", concluiu.