Populares regressam a casa sem medo do vulcão da ilha do Fogo
Vários moradores de Portela, a maior localidade de Chã das Caldeiras, no "coração" da ilha cabo-verdiana do Fogo e assolada desde domingo por erupções vulcânicas, estão a regressar com os pertences às casas que haviam abandonado.
(Lusa)
Na pequena povoação, onde a Lusa chegou cerca das 05:30 locais (06:30 em Lisboa), vários jovens estão a subir e descer a encosta, contrariando a ordem de abandonar a localidade, garantindo que as lavas do vulcão já não irão atingir Portela, que, hoje de manhã, era uma vila fantasmagórica, já sem os seus pouco mais de 1.000 habitantes.
Povoada agora em permanência apenas por cerca de 40 militares e polícias, a maior localidade de Chã das Caldeiras foi hoje invadida pelo nevoeiro, o que permitiu abrigar alguns jovens que haviam guardado, ao longo das últimas três noites e dias, os seus pertences na encosta montanhosa contígua às suas casas.
Determinados, os jovens carregaram primeiro portas e janelas para compor as três residências e, após restaurarem as casas, começaram num sobe e desce frenético da encosta transportando camas, colchões, mesas, enfim, todo o recheio das degradadas moradias em que residem.
"A lava já está a parar. Agora queremos continuar nas nossas casas. Já não as vamos abandonar. Vamos ficar aqui. Há muitas pessoas que querem proteger a casa deles e depois, se tudo correr bem, vão regressar. Se acontecer outra vez (o regresso da lava), apanhamos tudo outra vez coisas e pomo-las no mesmo sítio", justificou à agência Lusa, Manu Teixeira, um agricultor de 24 anos, natural de Mosteiros (norte do Fogo).
À simplicidade da justificação acrescenta-se a temeridade, pois salientou, tal como os seus amigos, não tem medo do vulcão nem da lava, que continua a brotar em abundância a partir da cratera entretanto unificada.
Por seu lado, David Gomes Monteiro, presidente da Cooperativa de Chã das Caldeiras, onde se produz o popular vinho do Fogo, também se mostrou aliviado com a acalmia nas erupções vulcânicas, salientando que, mesmo depois da crise de quinta-feira à noite, em que as sete bocas eruptivas se unificaram, a lava não atingiu Portela.
"Estivemos muito aflitos nos primeiros dias. E ontem (quinta-feira) também. Mas hoje estamos contentes porque a lava não atingiu Portela", referiu à Lusa o homem mais conhecido por "Neves", declarando-se satisfeito por, para já, nada ter sido perdido - parte da produção de 2013 e a totalidade da deste ano, num total de 200 mil litros.
O presidente da Agrocoop, a Cooperativa de Viticultores de Chã das Caldeiras, que conta com 102 produtores e emprega quase toda a comunidade local, mostrou-se otimista, mesmo depois de admitir que o prejuízo mais grave está ligado à perda de parte das vinhas e à agricultura de subsistência nas zonas mais baixas do planalto.
"(Quinta-feira) foi um dia complicado, mas conseguiram resolver o problema do acesso (rodoviário, com a terceira estrada de terra, depois de as duas primeiras terem sido absorvidas pela lava) e quase todos conseguiram levar as suas coisas para outras localidades da ilha", afirmou David Monteiro.
"Muitos dos que ainda ficaram (cerca de 40, a guardar os pertences na encosta da Bordeira, que marca os limites da grande cratera de Chã das Caldeiras) dizem que as coisas estão a melhorar e que o vulcão já abrandou", sustentou "Neves", admitindo, todavia, que a situação está ainda longe de ser ultrapassada.
Uma das últimas moradoras a abandonar Portela, onde, deitada na encosta adjacente, guarda os seus bens e espera pelo camião que os leve para fora dali, está Maria Teixeira, 42 anos, quatro filhos, já longe de Portela e divididos por casas de familiares em São Filipe, Mosteiros e Relva.
"Estou muito triste. Perdi tudo. A casa está de pé", lamenta, ao falar num crioulo profundo, mas que, ajudada por gestos, consegue explicar, e o jornalista entender, que o vulcão "não é amigo" das populações de Chã das Caldeiras, sobretudo dos que dependem da terra para a sua subsistência.
A pequena parcela de terreno que detém (ou detinha) foi devorada pela lava que, depois da forte erupção de quinta-feira, subiu, em média, de cinco para sete metros de altura, em toda a sua vasta extensão, com cerca de um quilómetro de largura por quase cinco de extensão.
Lusa
