Mundo

"Fake news", "Rocket Man", muro anti-imigração e outras pérolas de Trump, um ano após a eleição

Kevin Lamarque

Um ano depois da sua eleição, a 8 de novembro de 2016, Donald Trump quebrou regras da Presidência, de convivência com críticos, media, aliados ou mesmo outros órgãos de soberania norte-americanos. Num clima de permanente conflito, alguns dos episódios, expressões e decisões que marcaram o primeiro ano da era Trump.

Factos Alternativos

No discurso de tomada de posse que leu nos degraus do Capitólio - a 20 de janeiro de 2016 - Trump optou por pintar os Estados Unidos como um país em pleno desastre económico, a braços com ondas de crime nas cidades, gangues nas ruas e sob o ataque constante dos políticos dentro e fora da administração, oportunistas sem escrúpulos que se aproveitavam do sistema à custa do cidadão comum. Trump prometeu travar "esta carnificina americana".

No dia seguinte, o então porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer [que em julho se demitiu por discordar com Trump], apresentou-se diante da imprensa e insistiu - contra todas as provas fotográficas - que o número de pessoas a assistir ao discurso tinha sido maior do que quando Barack Obama tomou posse para o seu primeiro mandato, em 2008. Disse que a imprensa era parcial contra Trump e que, por isso mesmo, tinha noticiado de forma errada o que aconteceu. A presidência Trump tinha apenas um dia e já estava envolvida em intensa polémica, por causa da forma como tratava os factos. Estava declarada a guerra à comunicação social.

As multidões presentes nas tomadas de posse de Donald Trump (à esquerda) e de Barack Obama (2009), à direita.

As multidões presentes nas tomadas de posse de Donald Trump (à esquerda) e de Barack Obama (2009), à direita.

© Reuters Staff / Reuters

Empreendimento de Trump produz "fake news"... sobre Trump

CNN recusa passar anúncio de Trump por conter falsidades

"1984" de George Orwell no topo de vendas devido a Trump

Decreto anti-imigração

Sete dias depois de tomar posse, a 27 de janeiro, Donald Trump assinou um decreto presidencial - que apanhou o mundo de surpresa - no qual impunha um bloqueio de 90 dias à entrada de viajantes de sete países de maioria muçulmana e um bloqueio de 120 dias à entrada de todos os refugiados.

A medida lançou o caos em muitos aeroportos internacionais dos Estados Unidos, com detenções a alguns viajantes e com os agentes de segurança a mostrarem dúvidas quanto à forma como poderiam aplicar o bloqueio. Os norte-americanos organizaram protestos um pouco por todo o país, contestando uma medida considerada discriminatória contra os muçulmanos e atentatória contra os valores norte-americanos de acolhimento de migrantes. Trump disse que o decreto visava impedir a entrada de terroristas nos Estados Unidos.

O decreto foi rapidamente bloqueado em tribunal, tal como uma versão modificada apresentada em março, que retirava o Iraque da anterior lista de países.

Uma terceira versão do bloqueio, que acrescentava à lista os cidadãos da Coreia do Norte e alguns elementos ligados ao governo venezuelano, deveria ter entrado em vigor em meados do mês passado. Mais uma vez os tribunais bloquearam a medida: a entrada de refugiados é retomada, exceto para 11 países de "alto risco", a maior parte dos quais de maioria muçulmana.

Havai deixa entrar avós e netos desafiando decreto anti-imigração de Trump

Juiz federal suspende ordem de Trump que proíbe entrada de imigrantes

Muro entre os EUA e o México

A 25 de janeiro, Trump assina a ordem para a construção do muro na fronteira entre os EUA e o México para impedir a entrada de imigrantes ilegais.

Perante a recuso do México em pagar a construção, Trump planeia financiar o muro impondo um imposto de 20% sobre todos os bens provenientes do México.

Em pouco mais de uma semana no cargo, o Presidente norte-americano assinou vários documentos polémicos. Desde a construção do muro ao decreto anti-imigração, Donald Trump tem sido rápido a mudar as leis.

Trump despede o diretor do FBI James Comey

Uma das mais controversas e criticadas decisões da presidência Trump foi o afastamento repentino do diretor do FBI James Comey, a 9 de maio. Comey liderava a investigação sobre um alegado conluio entre elementos da campanha de Trump (assessores de topo e mesmo familiares do candidato) e diplomatas e agentes ligados ao governo da Rússia, num esforço conjunto para derrotar a favorita à vitória nas presidenciais, a democrata Hillary Clinton.

Primeiro, Trump afirmou que não tinha ficado contente com a forma como Comey geriu a investigação feita a Hillary Clinton meses antes, por esta ter usado um servidor privado de e-mail enquanto era Secretária de Estado, na administração Obama.

No entanto, o Presidente reconheceu posteriormente que estava a pensar na investigação à interferência da Rússia quando despediu o chefe do FBI.

O afastamento de Comey acabaria por abrir caminho a que o Departamento de Justiça nomeasse Robert Mueller, um Procurador Especial com poderes acrescidos, para liderar a investigação sobre o alegado conluio entre a Rússia e a campanha Trump.

O Presidente continuou a qualificar todo o tema como "fake news". A 30 de outubro, a investigação de Mueller resultou nas primeiras acusações, entre as quais contra o antigo diretor de campanha de Trump, Paul Manafort, acusado de lavagem de dinheiro e conspiração contra os EUA.

"Pittsburgh, e não Paris"

Donald Trump anunciou a 1 de junho que iria retirar os Estados Unidos dos Acordos de Paris sobre as Alterações Climáticas, rejeitando argumentos e pedidos dos grupos ambientalistas, líderes mundiais, representantes da indústria e até da sua própria filha, Ivanka, no sentido de respeitar o acordo assinado por 195 nações para travar o aquecimento global.

O Presidente disse que o acordo era mau para a economia norte-americana e para os trabalhadores norte-americanos, porque dava uma vantagem injusta a outros países. A sua decisão, disse, enquadrava-se na política "A América Primeiro".

"Fui eleito para representar os cidadãos de Pittsburgh, e não Paris", declarou Trump. "Vamos sair. (...) Vamos começar a renegociar e veremos se há um acordo melhor. Se conseguirmos, ótimo. Se não conseguirmos, tudo bem".

Conferência da ONU sobre alterações climáticas: 2017 no top 3 dos anos mais quentes

Trump abandonou o acordo de Paris mas os americanos estão a cumpri-lo, diz Kerry

EUA só podem concretizar saída do Acordo de Paris em 2020:

A decisão dos Estados Unidos de saírem do Acordo de Paris levanta incertezas em relação à luta contra as alterações climáticas a nível mundial. A comunidade internacional condena a posição de Donald Trump, mas, segundo o acordo, a saída dos Estados Unidos só poderá concretizar-se em novembro de 2020.

Revogar e substituir o ObamaCare? Nem por isso...

Durante a campanha e após tomar posse, Trump insistiu numa promessa: acabar com a reforma da saúde pública de Barack Obama, uma das marcas da administração do Presidente democrata e que ficou conhecida como ObamaCare.

A lei de Obama dá cobertura de assistência médica a milhões de pessoas, num país sem um sistema nacional de saúde universal como existe na Europa ou no Canadá. Trump considerou o sistema um desastre, argumentando, por exemplo, que aumentava dramaticamente os prémios dos seguros de saúde.

Mas rapidamente se apercebeu de que falar em comícios é uma coisa e anular uma reforma nos meandros do Congresso é outra, já que o "seu" partido, o Partido Republicano, não se conseguiu unir para apoiar nenhum dos dois planos que a administração apresentou para revogar ou alterar o Obamacare.

Em finais de julho surgiu o momento mais dramático, quando o senador republicano John McCain, um dos maiores críticos de Trump, disse "não" à proposta republicana, sinalizando o seu voto com um polegar para baixo.

Por enquanto, o Obamacare continua em vigor nos Estados Unidos.

"Rocket Man", a nova alcunha de Kim Jong-un

No seu primeiro discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, Trump indicou - em pouco mais de 40 minutos - que estava pronto para "rasgar" o acordo nuclear com um "regime assassino" no Irão e prometeu destruir a Coreia do Norte, caso o regime em Pyongyang se armasse com mísseis nucleares intercontinentais capazes de ameaçar os Estados Unidos ou os seus aliados. Pelo meio ainda se gabou do poder militar dos Estados Unidos.

Resolveu ridicularizar o líder norte-coreano, Kim Jong-un, dando-lhe uma alcunha - "Rocket Man" - e disse que este estava numa "missão suicida". Um observador internacional descreveu o discurso como "uma tempestade de tweets com 42 minutos".

No espaço onde as nações de todo o mundo se reúnem para debater, discutir e negociar pacificamente as suas desavenças, as palavras de Trump representaram exatamente o contrário, contribuindo para a escalada de violência verbal que se seguiu com o líder norte-coreano.

Irão condena "discurso de ódio" de Trump na ONU

"Os cães ladram, a caravana passa", Pyongyang reage ao discurso de Trump na ONU

Guterres diz que ameaça nuclear está no "nível mais alto desde a Guerra Fria"

"O Rocket Man está numa missão suicida":

"Twitter in-chief" e outros momentos caricatos

Trump escreve mensagens quase diariamente na sua conta de Twitter, algumas delas bastante polémicas, como quando sugeriu que o seu antecessor, Barack Obama, espiou as suas comunicações, ou quando ameaçou o ex-diretor do FBI James Comey de ter gravado as reuniões com ele.

A Casa Branca chegou a ponderar colocar nas mãos de advogados a supervisão prévia das mensagens que o Presidente dos Estados Unidos publica na sua conta de Twitter.

Sabe onde fica a Nambia? Algures em África, segundo Trump

"Ela é maluca, tem um QI baixo e o colega é um psicopata"

O atentado na Suécia inventado por Donald Trump

Trump usa Twitter presidencial para criticar loja que deixou de vender roupas da filha

Trump publica vídeo em que simula agredir a CNN

  • Os sucessos de Trump, segundo o próprio
    0:46

    Mundo

    De visita à Coreia do Sul, Donald Trump fez um balanço do seu trabalho na Presidência dos Estados Unidos desde que foi eleito, há um ano. Trump afirmou que a economia norte-americana está muito bem, que a taxa de desemprego é a mais baixa dos últimos 17 anos e que os norte-americanos estão muito felizes. O próximo desafio, segundo o Presidente, está na redução de taxas para os norte-americanos, mas mostra-se confiante.

  • Trump na Coreia do Sul com atenções viradas para Norte
    2:21

    Mundo

    O Presidente dos EUA já está na Coreia do Sul, na segunda paragem da visita oficial de 12 dias à Ásia, depois do Japão. Em Seul, Donald Trump foi recebido com protestos pró e contra a estratégia que está aser seguida para lidar com o Norte da península coreana. Na visita à maior base militar norte-americana fora dos EUA, Donald Trump garantiu que os EUA vão "tratar da situação da Coreia do Norte com os principais generais e, em última instância, tudo se resolverá".

  • As polémicas conversas telefónicas de Trump
    2:23

    Mundo

    O procurador especial americano, Robert Mueller, destacado para investigar a alegada intervenção da Rússia nas eleições presidenciais dos EUA, convocou um grande júri para decidir se devem ser formalmente acusados os suspeitos de concluio. Este é mais um revés para Donald Trump que tem também de gerir revelações de conversas telefónicas com o Presidente do México no final de janeiro.

  • Diretor de comunicação da Casa Branca demitido 10 dias depois de entrar em funções
    1:48

    Mundo

    O diretor de comunicação da Casa Branca foi demitido, 10 dias depois de entrar em funções. Na semana passada, Anthony Scaramucci deu uma polémica entrevista na qual insultou vários colaboradores da presidência de Donald Trump. A Casa Branca justificou a saída de Scaramucci para que John Kelly, o novo secretário-geral, empossado horas antes, possa "começar do zero".

  • O Milagre de Jesus
    25:48