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Viúvas de Srebrenica saúdam sentença contra Karadzic

Dado Ruvic

Karadzic foi condenado a prisão perpétua por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

Na região de Srebrenica, leste da Bósnia, a leitura do veredicto contra Karadzic, condenado a prisão perpétua por um tribunal internacional, foi recebida com aplausos e rezas por algumas viúvas de Srebrenica, referiu a agência noticiosa AFP.

"Alá, obrigado por isto, porque outro veredicto ter-nos-ia matado", reagiu Bida Osmanovic. O seu filho de 22 anos, Faruk, incluía-se entre os milhares de homens e rapazes em idade de combater que foram mortos em julho de 1995 na sequência do assalto militar dos sérvios bósnios a Srebrenica, e do qual Karadzic também foi responsabilizado.

As cerca de 20 mulheres que esta quarta-feira se reuniram junto das campas dos seus familiares em Srebrenica apenas aguardavam a confirmação que o ex-líder político dos sérvios bósnios, com 73 anos, nunca mais encontrasse a liberdade, acrescentou a AFP.

A reação surgiu após o Mecanismo para os tribunais penais internacionais (MICT, na sigla em inglês) ter elevado de 40 anos para prisão perpétua a condenação de Karadzic pela sua responsabilidade nos crimes cometidos no decurso da guerra civil na Bósnia (1992-95).

Numa perspetiva contrária, o primeiro-ministro da Republika Srpska (RS, a entidade sérvia da Bósnia) criticou o tribunal da ONU por ter agravado a sentença de Karadzic para prisão perpétua.

Radovan Viskovic, primeiro-ministro da RS, definiu o tribunal de Haia como um tribunal político, ao referir em declarações ao canal televisivo RTRS TV que "ninguém foi responsabilizado pelos crimes contra os sérvios".

Muitos sérvios consideram o tribunal de Haia como "anti-sérvio" nos seus julgamentos de diversos casos ocorridos no decurso da guerra civil na Bósnia.

Karadzic foi esta quarta-feira condenado a prisão perpétua após ter sido inicialmente condenado a 40 anos de prisão sob a acusação de genocídio de crimes de guerra.

O veredicto em apelo foi pronunciado pelo MICT, que assumiu as funções do Tribunal Penal internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ), encerrado em 2017.

Os juízes do tribunal da ONU -- onde se incluí o português Ivo Rosa, instrutor em Portugal da Operação Marquês, cujo principal arguido é o ex-primeiro-ministro José Sócrates -- rejeitaram o apelo de Karadzic contra uma anterior decisão do TPIJ em 2016, por crimes cometidos no decurso da guerra civil na Bósnia-Herzegovina (1992-1995), incluindo o assalto ao enclave de Srebrenica (leste) em junho de 1995, declarou o juiz Vagn Joensen.

A decisão pronunciada pelo MPTI sobre o destino de Karadzic, 73 anos, será das últimas no âmbito das guerras que sucederam à desintegração da Jugoslávia em 1991, após as independências unilaterais da Eslovénia e Croácia.

Após a morte, no decurso do processo que enfrentava, do antigo presidente sérvio Slobodan Milosevic, o ex-líder político dos sérvios bósnios é o mais alto responsável em julgamento pelo conflito na ex-república jugoslava entre os exércitos muçulmano, sérvio e croata, com um balanço de mais de 100.000 mortos e 2,2 milhões de refugiados.

Lusa