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"Os EUA são o demónio - não vão lá"

Aly Song / Reuters

China aumenta a retórica anti-EUA

A última mensagem da China: Os EUA são o demónio - não vão lá.

Nos últimos dias, o governo lançou dois novos alertas de viagem para os cidadãos chineses de partida para os EUA, em simultâneo os media nacionais aumentaram a retórica anti-Americana.

Esta é a mais recente prova de que Pequim está a entrar numa longa guerra comercial com os Estados Unidos.

A 10 de maio o Governo de Donald Trump aumentou as tarifas de 10% para 25% em bens chineses avaliados em 200 biliões de dólares e mais tarde ameaçou em banir, possivelmente, a exportação da gigante tecnológica Huawei.

Como resposta, a China aumentou as tarifas de bens que valiam 60 biliões de dólares no último sábado e prometeu aplicar outras contramedidas necessárias.

Segundo a CNN, na terça-feira, o ministro do Turismo e da Cultura chinês avisou os cidadãos do risco de viajar para os EUA através de um alerta em que citava casos frequentes de "tiroteios, roubos e furtos"

No mesmo dia, o ministro dos Negócios Estrangeiros, em conjunto com a embaixada e consulado chinês nos Estados Unidos, lançou um alerta de segurança aos cidadãos chineses, alegando "constante assédio" das forças oficiais de segurança dos EUA aos cidadãos de nacionalidade chinesa.

Ambos os avisos aconselham os cidadãos chineses a "terem cuidados de segurança" nos EUA.

Pouco depois chegou também um aviso do Ministro da Educação a alertar os estudantes chineses, que desejam estudar nos EUA, para os crescentes problemas que tem havido com os vistos.

"O Inimigo do mundo"

Os novos alertas de viagens não vieram sozinhos.

O Partido Comunista da China lançou uma campanha de propaganda de guerra comercial, feita através dos media estatais, focando-se no "bullying comercial" e na "hegemonia".

Num artigo publicado, na terça-feira, no Diário do Povo (órgão oficial do Partido Comunista da China), os EUA são rotulados de "o Inimigo do Mundo"

Enquanto desenhavam uma campanha anti-EUA citaram Emmanuel Macron, presidente da França, e o filósofo do século XVIII, Adam Smith.

Chegaram assim a uma referência bastante específica e sangrenta, a Guerra da Coreia, em que a China e os EUA se enfrentaram.

A, pouco conhecida, batalha de Triangle Hill foi, durante décadas, glorificada pela China como um ponto de viragem na guerra devido à resistência e sacrifício dos soldados chineses, que levou à "derrota" dos invasores americanos.

Apesar das casualidades sofridas de ambos os lados, a China sempre se identificou como os indiscutíveis vencedores.

"Os Estados Unidos pagaram um preço tão alto... Que a batalha de Triangle Hill se tornou a sua 'Heartbreak Hill' (Colina do coração partido)" lê-se num comentário publicado numa rede social chinesa proveniente de uma conta que se encontra sob a autoridade do ciberespaço do país, "E foi nesse momento que o mundo reconheceu (a força) da China e do seu exército."

Alegando que um filme, já com décadas de idade, sobre a batalha estava a tornar-se novamente popular, a publicação online continha um vídeo com uma entrevista a um veterano que combateu na batalha chamando-a de "espinha dorsal da Nova China".

A emissora estatal CCTV (Televisão Central da China) também colocou no ar uma série documental antiga chamada "A Grande Guerra para Resistir aos EUA e Ajudar a Coreia do Norte," completando-a com fotografias históricas e uma narrativa patriótica.

Num comentário publicado, na quarta feira, pela Study Times (revista oficial do Partido) o autor fez uma revisão entre as negociações entre os EUA e a China durante a Guerra da Coreia, deixando poucas duvidas sobre qual era a sua intenção com o artigo.

"Mais de dois anos de negociações foram o suficiente para mostrar ao mundo o seguinte: O que o governo estadunidense não conseguiu na mesa de negociações, também não conseguiu através do uso de aviões de guerra e canhões" disse o autor do comentário.

Fica calmo e racional

Alguns observadores do atual conflito estão céticos em relação ao resultado positivo da estratégia utilizada, através dos media, por Pequim.

Bil Bishop, que escreve para o jornal online chinês Sinocism, escreveu para os seus leitores: "Será que a China pensa que pode utilizar propaganda, cada vez mais vulgar, para 'uso doméstico' sem que isso enfureça o Governo de Trump e reduza ainda mais as probabilidades de retorno às negociações a curto prazo?"

Mesmo antes de Pequim lançar o alerta de viagens, as estatísticas lançadas pelo governo norte-americano mostravam uma queda de mais de 5% nos visitantes chineses, passando, em 2018, para apenas 2.99 milhões de visitantes.

Esta foi a primeira queda anual de visitantes chineses aos EUA em 15 anos, resultado da guerra comercial iniciada há um ano entre as duas potências.

Segundo a Associação de Educação Internacional (NAFSA) de todos os estudantes internacionais nas universidades americanas, que contribuem com 39 biliões de dólares para a economia dos EUA no ano letivo de 2017/18, mais de um terço são estudantes provenientes da China.

Com o recente aviso do Ministro da Educação chinês, alguns analistas prevêem uma queda neste número, já outros dizem que este aviso serve apenas para criar pânico e ansiedade e que estes é exagerado.

Tom Rothschild, co-fundador da Escola de Elite da China e consultor de educação em Pequim, que ajuda cerca de 150 estudantes chineses anualmente a ir estudar para fora, disse "Não posso especular sobre o que cada governo está a pensar ou sobre o que deve fazer, mas eu não vejo nenhum problema de vistos com as nossas centenas de estudantes,"

Acrescenta ainda que " apenas digo aos pais que basta ficarem calmos e racionais"

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