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EUA enviam mais mil militares para o Médio Oriente em ambiente tenso com o Irão

Imagem divulgada pelos EUA afirmando serem provas de que o Irão está por trás do ataque a dois petroleiros no mar de Omã

US DEPARTMENT OF DEFENSE HANDOUT

China pede contenção aos EUA e Irão; UE considera que Irão cumpre acordo nuclear até ser provado o contrário.

Washington anuncia o envio de mais 1.000 soldados para o Médio Oriente; Teerão acusa os EUA de serem uma "grave ameça à estabilidade" da região ao mesmo tempo que avança que, a 27 de junho, ultrapassará o limite de produção de urânio enriquecido estipulado no acordo nuclear. ONU, UE e China apelam à contenção de todas as partes; Rússia pede que "não se tirem conclusões precipitadas"; a Arábia Saudita alerta o Irão que "não hesitará" reagir a qualquer ameaça.

"Pedimos a todas as partes que mantenham a cabeça fria (...) e que não abram uma caixa de Pandora", apelou hoje o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi.

"Os Estados Unidos, em particular, devem mudar a sua estratégia de pressão máxima (...) isso não só não resolverá o problema, como agravará a crise", afirmou.

No caso do Irão, Wang pediu ao país que seja cauteloso e não desista "levianamente" do acordo nuclear, assinado em 2015.

EUA enviam mais mil militares "com fins defensivos"

Washington vai enviar mais mil soldados para o Médio Oriente, anunciou na segunda-feira o chefe do Pentágono, Patrick Shanahan, garantindo que a medida se destina a "garantir a segurança e a saúde dos militares destacados na região e a proteger os interesses nacionais" norte-americanos, enquanto se garantiu, ao mesmo tempo, que "os EUA não procuram entrar em guerra com o Irão"

O anúncio foi feito logo após o Ministério da Defesa dos EUA divulgar novos documentos que acusam o Irão de atacar dois petroleiros no Mar de Omã, na semana passada.

Em comunicado, Shanahan afirmou que "os recentes ataques iranianos validam informações viáveis e credíveis recebidas sobre o comportamento hostil das forças iranianas e dos grupos que apoiam, o que representa uma ameaça para os cidadãos e os interesses norte-americanos no conjunto da região".

Em resposta a um pedido do Comando Central dos EUA (Centcom, na sigla em inglês), que pediu reforços, de acordo com o chefe de Estado-Maior e após consultas com a Casa Branca, Shanahan informou que autorizou "o envio de mil tropas suplementares com fins defensivos para responder a ameaças aéreas, navais e terrestres no Médio Oriente", sem detalhar a repartição do efetivo.

O Pentágono já tinha enviado em meados de maio para o Golfo um navio de guerra, com veículos, designadamente anfíbios, e uma bateria de mísseis Patriot, acrescentando-se à deslocação para a região de um porta-aviões, perante a ameaça de ataques "iminentes" que os EUA atribuíam aos Irão.

No final de maio, os EUA já tinham anunciado a transferência para o Médio Oriente de 1.500 soldados suplementares, invocando "ameaças persistentes" contra as suas forças provenientes "do mais alto nível" do Governo iraniano. Aparelhos de reconhecimento e vigilância e um esquadrão de 12 aviões de combate reforçaram o dispositivo.

Irão nega responsabilidade e acusa EUA de "coerção, intimidação e comportamento maligno"

Teerão "rejeita categoricamente" a alegação dos Estados Unidos de que foi responsável pelos ataques de quinta-feira contra petroleiros no mar de Omã, incidentes que condena "com a maior veemência possível".

"O Irão está pronto para desempenhar um papel ativo e construtivo em garantir a segurança das passagens marítimas estratégicas, bem como promover a paz, a estabilidade e a segurança na região", declarou o Governo iraniano.

A mesma nota alerta para a "coerção, intimidação e comportamento maligno" de Washington, em resposta à declaração do embaixador em exercício dos EUA na ONU, Jonathan Cohen, após uma reunião à porta fechada do Conselho de Segurança para analisar os ataques.

Acordo de Viena sobre programa nuclear iraniano

Assinado pelo Irão e pelo Grupo dos Seis (Alemanha, China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia), o acordo de 2015, concluído em Viena, visa limitar drasticamente o programa nuclear de Teerão, em troca do levantamento das sanções económicas internacionais.

Mas Washington retirou-se unilateralmente do pacto, em maio de 2018, e restabeleceu pesadas sanções contra Teerão, que tem pressionado os outros signatários e parceiros internacionais para que ajudem a mitigar os efeitos das sanções.

Até à data, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) certificou que o Irão está a agir de acordo com os compromissos assumidos em Viena.

Mas Teerão anunciou que, a partir de 27 de junho, as suas reservas de urânio enriquecido aumentarão acima do nível assumido no acordo, face à pressão de Washington.

França, Alemanha e o Reino Unido, apesar de impotentes face às sanções unilaterais de Washington, têm apelado também a Teerão que continue a respeitar o acordo. A ONU fez um apelo semelhante.

UE considera que Irão cumpre acordo nuclear até ser provado o contrário

A União Europeia assegurou que vai considerar que o Irão está a cumprir com as suas obrigações decorrentes do acordo nuclear até que apareçam provas científicas de que está a desrespeitá-los.

A chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, afirmou que está em curso um processo de criação de "um mecanismo que autorize os iranianos e beneficiarem das transações económicas que se podem fazer legitimamente". Mas não especulou sobre o que pode acontecer se o Irão se afastar dos termos do acordo.

"Até agora, o Irão tem sido cumpridor com os seus compromissos, como esperávamos que fosse", declarou Mogherini, que insistiu que iria aguardar pelo próximo relatório da agência da Organização das Nações Unidas para os assuntos nucleares, a Agência Internacional de Energia Atómica.