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Foto de pai e filha afogados mostra drama na fronteira México-EUA e gera indignação

Imagem está a chocar a opinião pública, tanto no México como nos Estados Unidos.

A imagem dos corpos de um pai e da sua filha, que morreram afogados quando tentavam atravessar clandestinamente a fronteira México-Estados Unidos (EUA), suscitou esta quarta-feira a indignação internacional ao mostrar o drama migratório vivido naquela região.

A fotografia divulgada hoje, e reproduzida por vários 'media' internacionais, mostra os cadáveres de Oscar Martinez Ramirez, um cozinheiro de 25 anos de El Salvador, e da sua filha de 23 meses, posicionados de barriga para baixo a flutuar na margem do rio Bravo (ou rio Grande na terminologia norte-americana).

Acompanhado pela mulher de 21 anos e pela filha, Oscar Martinez Ramirez tinha chegado a Matamoros, no Estado mexicano de Tamaulipas, na semana passada, depois de ter atravessado o México, como tantos outros milhares de migrantes oriundos de países da América Central que têm tentado nos últimos meses entrar nos EUA, segundo indicou um relatório da justiça mexicana a que a agência francesa France Presse (AFP) teve acesso.

Pai e filha morrem afogados

A família, acompanhada por um amigo, decidiu no domingo à tarde tentar atravessar a nado o rio Bravo. O pai levava a filha às costas, mas os dois não conseguiram atravessar o rio por causa das fortes correntes e morreram afogados, segundo relatou às autoridades locais a mulher de Oscar Martinez Ramirez, que conseguiu sobreviver e voltar a nadar até à margem mexicana do rio Bravo.

Os dois corpos seriam encontrados na segunda-feira, de acordo com o mesmo relatório judicial.

Os corpos de Oscar Alberto Martínez Ramírez e da filha de dois anos, Valeria, que morreram afogados quando tentavam chegar a nado aos Estados Unidos.

Os corpos de Oscar Alberto Martínez Ramírez e da filha de dois anos, Valeria, que morreram afogados quando tentavam chegar a nado aos Estados Unidos.

Julia Le Duc

Uma imagem que choca a opinião pública

A imagem está a chocar a opinião pública, tanto no México como nos Estados Unidos, e a suscitar reações, como foi o caso do Papa Francisco que afirmou ter ficado "profundamente triste" com estas mortes e de que iria "rezar por todos os migrantes que morreram ao tentar fugir da guerra e da miséria".

No México, o Governo tem estado sob fortes críticas nos últimos dias por causa da sua atitude em relação aos migrantes. Durante o fim de semana, uma fotografia da AFP que mostrava duas mulheres e uma menor detidas por elementos fortemente armados da Guarda Nacional mexicana quando estas tentavam atravessar o rio Bravo suscitou críticas contra o Governo do Presidente mexicano, Andres Manuel Lopez Obrador (esquerda), no poder desde dezembro.

Na terça-feira, Obrador viu-se obrigado a esclarecer que os militares mexicanos não têm ordem para deter migrantes irregulares no âmbito de um recente acordo assinado com Washington.

Após exigências e ameaças do Presidente norte-americano, Donald Trump, nomeadamente a imposição de taxas aduaneiras sobre todos os produtos mexicanos importados para os Estados Unidos caso o México não travasse a vaga de migrantes da América Central, os dois países firmaram um acordo a 07 de junho.

O México anunciava há poucos dias o destacamento de 15.000 elementos na fronteira sul (com os EUA) e de outros 6.500 na fronteira com a Guatemala, na zona sul do país.

Do lado norte-americano, os riscos enfrentados pelos migrantes e as condições precárias em que são acolhidos, em particular as crianças e os jovens, também estão a suscitar polémica e indignação.

Human Rights Watch denuncia condições em que 300 jovens migrantes vivem nos EUA

A organização não-governamental (ONG) Human Rights Watch denunciou recentemente que cerca de 300 jovens migrantes viviam em condições classificadas como desumanas num centro de detenção perto da cidade fronteiriça de El Passo, no Texas.O

centro em questão foi encerrado na segunda-feira e o caso levou à demissão do diretor interino da polícia fronteiriça norte-americana, John Sanders.

Trump, que fez da luta contra a imigração ilegal uma das suas prioridades políticas, disse estar, na terça-feira, "muito preocupado" com as condições de detenção dos imigrantes ilegais, pedindo então ao Congresso norte-americano que alcançasse um acordo sobre o financiamento urgente para as operações fronteiriças.

Uma verba de 4,5 mil milhões de dólares (3,9 mil milhões de euros) em ajuda humanitária para as pessoas detidas na fronteira EUA-México foi aprovada na terça-feira à noite na Câmara dos Representantes, a câmara baixa do Congresso atualmente controlada pelos democratas.

No entanto, os Republicanos, maioritários no Senado (câmara alta), já ameaçaram contestar o diploma de financiamento nos próximos dias caso parte da verba não seja canalizada para a segurança fronteiriça.

Em declarações à agência Associated Press (AP), a presidente da Câmara dos Representantes, a Democrata Nancy Pelosi, disse hoje esperar que a imagem dos corpos de Oscar Martinez Ramirez e da sua filha desafie a consciência da administração republicana de Trump.

Os EUA estão a ignorar as suas "obrigações para com a humanidade", referiu ainda Pelosi.

Lusa

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