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Holofotes no G20 apontados a Trump e Xi no 1.º aniversário da guerra comercial

O Presidente da China Xi Jinping à chegada da Osaka para a cimeira do G20 onde vai reunir com o homólogo norte-americano Donald Trump no 1.º aniversário da guerra comercial

JIJI PRESS

encontro bilateral entre os líderes da China e Estados Unidos marcará a cimeira das 20 maiores economias do mundo a decorrer no Japão

LUÍS FORRA

O encontro bilateral entre os líderes da China e Estados Unidos marcará a cimeira do G20, numa altura em que se cumpre um ano desde o início de disputas comerciais que ameaçam a economia mundial.

Xi Jinping e Donald Trump vão reunir em Osaka, no Japão, para tentar pôr fim à guerra comercial, num momento de impasse, após as negociações terem sido subitamente interrompidas, em maio passado, quando após 11 rondas de diálogo o Presidente norte-americano subiu as taxas sobre cerca de 200.000 milhões de produtos importados da China.

Washington acusou então Pequim de retroceder em compromissos anteriormente alcançados, enquanto a China acusou a delegação norte-americana de não respeitar a soberania e a dignidade do país e de fazer exigências inaceitáveis.

Desde o verão passado, os Governos das duas maiores economias do mundo impuseram já taxas alfandegárias sobre centenas de milhares de milhões de dólares de bens importados um do outro.

Esta semana, o vice-ministro do Comércio chinês, Wang Shouwen, recordou que a China exige "respeito mútuo" e pelas regras da Organização Mundial do Comércio, nas negociações com Washington.

"O compromisso deve ser dos dois lados", realçou.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, garantiu que um acordo comercial entre a China e os Estados Unidos está "90% concluído".

"A mensagem que queremos ouvir é que eles querem voltar à mesa e continuar a negociar, porque acho que há um bom resultado para a economia chinesa e a economia dos EUA, com um comércio equilibrado e a continuar a construir esse relacionamento", afirmou, citado pela imprensa norte-americana.

Em causa estão os planos de Pequim para o setor tecnológico, que visam transformar as firmas estatais do país em importantes atores globais em setores de alto valor agregado, como inteligência artificial, energia renovável, robótica e carros elétricos.

Os EUA consideraram que aquele plano, impulsionado pelo Estado chinês, viola os compromissos da China em abrir o mercado, nomeadamente ao forçar empresas estrangeiras a transferirem tecnologia e ao atribuir subsídios às empresas domésticas, enquanto as protege da competição externa.

Washington impôs já taxas alfandegárias de 25% sobre 250 mil milhões de dólares de bens importados da China e ameaça taxar mais 300 mil milhões.

Trump colocou ainda a gigante chinesa das telecomunicações Huawei numa "lista negra", que restringe as empresas dos EUA de fornecer chips, semicondutores, software e outros componentes, sem a aprovação do Governo.
Pequim ameaçou suspender a exportação para os EUA de terras raras, os minerais essenciais para o fabrico de produtos eletrónicos.

Analistas preveem que, apesar da possibilidade de um acordo, a rivalidade entre a China e os Estados Unidos será duradoura, numa altura em que Xi legitima o seu novo estatuto como Presidente vitalício com a projeção do país além-fronteiras.

Xi anunciou já o início de uma "nova era" e reforçou o poder interno ao abolir o limite de mandatos para o seu cargo, com o objetivo final de firmar a posição da China como grande potência, até meados deste século.

Washington passou a considerar o país asiático como a sua "principal ameaça", apostando numa estratégia de contenção das ambições chinesas, que ameaça bipolarizar o cenário internacional.

Yu Yongding, economista-chefe da Academia Chinesa de Ciências Sociais, uma influente unidade de investigação próxima do Governo chinês, lembrou hoje que a rivalidade terminará apenas quando um novo equilíbrio for alcançado.

"Eu talvez não veja o dia [Notes:em que essa rivalidade termine] , pois já tenho 70 anos", afirmou Yu, citado pela imprensa chinesa.

À guerra comercial poderá seguir-se uma "guerra de investimentos", uma "guerra financeira" ou uma "guerra cambial", e até mesmo "medidas de guerra quase quente", como embargo de petróleo e o congelamento de ativos chineses, previu Yu.

A marinha norte-americana tem reforçado as patrulhas no Mar do Sul da China, reclamado quase na totalidade por Pequim, apesar dos protestos dos países vizinhos, enquanto Washington tem reforçado os laços com Taiwan, que se assume como uma entidade política soberana, contra a vontade de Pequim, que ameaça "usar a força" caso a ilha declare independência.

Referências a uma nova Guerra Fria são agora comuns entre funcionários chineses e norte-americanos.

"Podemos certamente pensar em várias frentes de batalha: no comércio, informática, defesa (Mar do Sul da China) ou tecnologia (5G). Mas isto é uma guerra entre uma superpotência mundial em declínio (os EUA) e uma em ascensão (a China)", considerou Timothy Ash, estrategista na BlueBay, empresa gestora de ativos.

Com Lusa