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Chuva chega a zonas ardidas, mas não basta para apagar fogos na Austrália

JAMES GOURLEY

Os relatos de António Sampaio, jornalista da Lusa, após as chuvas torrenciais que caíram na Austrália.

Os mil metros que se sobe, ao longo de 50 quilómetros de curvas, da costa a sul de Sydney ao Parque Nacional Monga, mostram porque é que a Kings Highway esteve fechada desde o início do ano.

Dos dois lados da estrada, praticamente só se vê árvores queimadas, marcas de um fogo que galgou aceleradamente os altos e baixos dos montes do que é um dos maiores parques desta região.

"O fogo varreu 15 quilómetros em 25 minutos", conta a funcionária de um café em Braidwood, uma pequena vila histórica, já depois dos montes, onde o parque nacional deu lugar a planície e o fogo não chegou.

"É uma tragédia", diz, enquanto serve 'cappuccinos' e 'lattes' a clientes, a maioria residentes. São poucos os turistas no que é a época alta do ano por estas bandas.

Praticamente deserta - a Kings Highway reabriu na terça-feira, mas só hoje começou a ter mais trânsito -, a principal via de ligação entre a capital australiana e a costa, é um símbolo da devastação dos fogos australianos.

Aqui e ali alguns habitantes - as casas foram poupadas às chamas que queimaram quase tudo à sua volta - estavam hoje em limpezas, empilhando troncos carbonizados e restos de árvores

Uma limpeza antes da chuva que hoje chegou à região, infelizmente tarde para os fogos e insuficiente para evitar novos incêndios se o tempo seco voltar.

Várias estradas rurais continuam com sinais de proibição de passagem e algumas equipas de funcionários autárquicos, com camiões e retroescavadoras, removem restos de árvores mais próximo da estrada.

Esta zona, e especialmente mais para sudeste daqui, ao longo de toda a costa do estado de Nova Gales do Sul e da vizinha Victoria, foi das mais afetadas pelos incêndios.

E quase parece ironia que seja dias depois de alguns dos grandes focos de incêndio terem sido apagados, num intenso combate de bombeiros e residentes, que a chuva finalmente chega: tempestades fortes e muita chuva, em alguns locais, durante a madrugada.

A chuva que hoje chegou à zona leste da Austrália encheu a imprensa e as redes sociais de imagens de celebração.

A ABC Rádio Rural entrevistou Nick Andrews, um tosquiador de lã numa propriedade em Broken Hill, no interior de Nova Gales do Sul (NSW), que tinha prometido deixar crescer a barba até que chovesse mais de um milímetro num dia.

Entre ontem e hoje a propriedade recebeu 35 milímetros: o homem cortou a barba, que a seca tinha obrigado a deixar crescer 21 meses.

Noutra imagem que se tornou viral, o vídeo de um menino de 18 meses, Sunny McKenzie, que vive numa propriedade em Scone, a 280 quilómetros noroeste de Sydney, e que nunca tinha visto chuva na vida.

"O Sunny tem 18 meses e nunca tinha sentido chuva. Ele adorou", conta a mãe, Fannie, enquanto mostra aos jornalistas o vídeo do miúdo a brincar à chuva.

Em zonas como Coonamble, onde também choveu a sério pela primeira vez em longos meses, crianças e adultos vieram para a rua apanhar chuva.

Água com cinza arrastada pelas chuvas pode ter impacto nas bacias hidrográficas

Mas nem tudo foram boas notícias. A chuva levantou preocupações sobre o impacto que a água com cinzas arrastadas pode ter nas bacias hidrográficas.

Em algumas zonas, a chuva só serviu para tirar o pó a áreas onde o solo estava, em alguns casos, gretado pela seca. Seriam precisos muitos dias consecutivos de chuva assim.

Na fronteira entre NSW e Victoria, por exemplo, onde ainda ardem dezenas de fogos de maior dimensão, a chuva chegou, mas não foi suficiente.

Fontes dos serviços de emergência confirmaram à Lusa que em Victoria ardem 18 fogos e 80 em NSW e que no Parque Nacional de Grande Otway (Victoria) a trovoada provocou dois novos fogos.

Isto mostra que a época de fogos, responsável por 28 mortos e a destruição de 10 milhões de hectares, ainda não acabou.

Em Melbourne, que esta semana esteve entre as cidades mais poluídas do mundo, a chuva foi tanta que até houve pequenas cheias em alguns locais.

E há receios de que as tempestades previstas no fim de semana possam voltar a trazer problemas adicionais para os serviços de emergência, que ainda têm um longo trabalho pela frente em muitos locais do país.