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Talibãs e autoridades afegãs reúnem-se pela primeira vez em 18 anos

Presidente afegão Ashraf Ghani.

Rahmat Gul / AP

Para discutir uma troca de prisioneiros.

Pela primeira vez em 18 anos, uma delegação dos talibãs encontrou-se na terça-feira em Cabul com representantes do Governo afegão para abordar uma troca de prisioneiros, anunciaram hoje as autoridades afegãs.

As duas partes discutiram "frente a frente" na capital afegã, "progrediram em aspetos técnicos e vão ainda encontrar-se amanhã [quinta-feira] para mais negociações", indicou no Twitter o Conselho de segurança nacional afegão, um órgão governamental.

Estes contactos destinam-se a criar condições para futuras negociações sobre o futuro do país.

Esta foi a primeira vez que os talibãs, afastados do poder em 2001 na sequência de invasão militar liderada pelos Estados Unidos, se reuniram oficialmente na capital afegã com representantes do Governo afegão.

Os insurgentes sempre recusaram reconhecer Cabul e consideram as autoridades afegãs "marionetas" dos Estados Unidos.

Os talibãs confirmaram o encontro numa mensagem em que indicam que uma "equipa técnica" esteve presente em Cabul para "identificar os prisioneiros" que deverão ser libertados, segundo o seu porta-voz Zabihullah Mujahid.

"Mas é uma negociação. Não haverá aqui qualquer discussão política", acrescentou o porta-voz dos talibãs.

Estas discussões inéditas foram atrasadas devido a desacordos, em particular entre os responsáveis governamentais afegãos, sobre a questão crucial da libertação dos prisioneiros.

Com vários meses de atraso, Cabul divulgou na sexta-feira uma lista de 21 negociadores, que inclui cinco mulheres, que deverão participar num inédito diálogo inter-afegão.

No entanto, no dia seguinte, os talibãs recusaram os nomes propostos ao referirem que Cabul não conseguiu formar uma equipa "inclusiva", enquanto prosseguiram diversos ataques contra as forças de segurança.

"Apenas participaremos nas negociações com uma equipa negocial em conformidade com os nossos acordos", indicaram os talibãs em comunicado.

"Para garantir uma paz verdadeira e durável, a equipa em questão deve ser aprovada por todos os principais partidos afegãos", precisaram os rebeldes, acrescentando, sem citar nomes, que a maioria dos envolvidos nas futuras discussões rejeitaram a lista.

5 mil prisioneiros talibãs já deveriam ter sido libertados

Na segunda-feira, o Governo afegão voltou a adiar o início da libertação de 5.000 prisioneiros talibãs que deveriam sair das prisões na manhã de terça-feira após um acordo entre Cabul e os insurgentes no âmbito do processo de paz.

Na passada quarta-feira, as duas partes tinham concordado durante uma videoconferência que a libertação dos prisioneiros seria iniciada na terça-feira, na sequência do contacto entre as duas partes destinado a pôr termo a duas décadas de guerra no Afeganistão na sequência da invasão dos Estados Unidos em outubro de 2001 em resposta aos atentados do 11 de setembro.

Os talibãs propuseram o envio de uma delegação à prisão afegã de Bagram, onde se encontra a maioria dos detidos, para identificar os prisioneiros que devem ser libertados, de acordo com uma lista que elaboraram previamente.

EUA e talibãs assinam acordo de paz histórico

Na sequência de num acordo assinado em 29 de fevereiro com os Estados Unidos em Doha, os talibãs comprometeram-se a iniciar conversações de paz com o Governo afegão e discutir um eventual cessar-fogo global que prevê uma retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão num prazo de 14 meses em troca de garantias por parte da rebelião.

As discussões, com início previsto para 10 de março, foram atrasadas devido à lentidão de Cabul na designação dos seus negociadores. Surgiu ainda um diferendo sobre a libertação de um máximo de 5.000 prisioneiros talibãs em troca de 1.000 membros das forças de segurança afegãs detidos pelos rebeldes, uma medida incluída no acordo de Doha mas não ratificada por Cabul.

O Governo afegão recusou-se a iniciar a liberação dos presos antes do início das conversações inter-afegãs, e mais tarde sugeriu como alternativa a libertação escalonada de 1.500 insurgentes, uma proposta recusada pelos talibãs.

O acordo de Doha propõe que o contingente norte-americano no Afeganistão seja reduzido dos atuais 12.000 a 13.000 soldados para 8.600 até meados de julho. As Forças Armadas dos EUA já iniciaram a retirada de duas bases, incluindo uma situada na província de Helmand (sul), em grande parte controlada pelos talibãs.

O início da desmobilização das forças norte-americanas poderá permitir aos talibãs o reforço do seu controlo no terreno e na sequência de um conflito que desde 2001, segundo dados oficiais, provocou mais de 4.000 mortos entre a força multinacional (incluindo 2.441 norte-americanos e 445 britânicos), centenas de milhares de vítimas afegãs e um custo para Washington avaliado em 975 mil milhões de dólares (874 mil milhões de euros).

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