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Quem é o adolescente acusado de matar duas pessoas num protesto nos Estados Unidos?

Kyle Rittenhouse tem um fascínio por armas, é ex-membro de um programa de jovens cadetes da polícia e participou em comícios para a campanha de reeleição de Donald Trump.

As manifestações contra a violência policial nos Estados Unidos voltam a ganhar dimensão, desta vez em Kenosha, Wisconsin, depois de Jacob Blake, de 29 anos, ter sido alvejado sete vezes por um polícia branco, no domingo, enquanto abria a porta de um veículo, onde estavam os três filhos menores.

O momento foi gravado com um telemóvel e gerou uma onda de protestos nas ruas de Kenosha.

Na segunda noite de protestos duas pessoas morreram e uma ficou gravemente ferida num ataque feito alegadamente por um homem branco, que foi filmado por um telemóvel a abrir fogo no meio da uma estrada com uma espingarda semiautomática.

Trata-se de Kyle Rittenhouse, de 17 anos, natural de Antioch, que se situa a 24 quilómetros de Kenosha, que na quarta-feira acabou por ser detido pela polícia do Illinois.

Segundo a BBC, há registos em vídeo que comprovam que Kyle passou horas durante o dia de terça-feira a ajudar patrulhas da polícia em Kenosha. Chegou mesmo a dizer aos jornalistas que o trabalho dele era vigiar edifícios e prestar auxílio médico. O The Guardian explica que esse vídeo foi partilhado por um jornalista do meio de comunicação conservador Daily Caller e a pessoa que aparece é muito idêntica a Rittenhouse.

"As pessoas estão feridas e o nosso trabalho é protegê-las", explicou, dizendo que parte do trabalho era ajudar os feridos. "Estou a correr perigo e é por isso que tenho a minha arma", cita o The Guardian o que se ouve no vídeo.

O mesmo jornal refere também que polícias e líder cívicos de Kenosha têm criticado o facto de forasteiros armados terem vindo nas últimas noites à cidade causar o caos, com a ilusão de que estão a ajudar as forças de segurança.

Mas quem é este adolescente acusado de homicídio?

Twitter @kodalindie

Os perfis nas redes sociais mostravam um fascínio pela polícia que aparentemente não será de agora.

Por exemplo, a fotografia de perfil que usava tinha uma moldura do "Blue Lives Matter" ["Vidas azuis importam"], um movimento pró-polícia que frequentemente entra em conflito com os apoiantes do Black Lives Matter.

Armas é outra das paixões, segundo a BBC. Há fotos do suspeito onde aparece com armas e a praticar tiro. Entretanto as páginas das redes sociais de Kyle Rittenhouse, segundo o The Guardian, já não se encontram disponíveis.

Segundo a CNN, a polícia confirmou que Rittenhouse era um ex-membro de um programa de jovens cadetes, um programa projetado para jovens entre os 14 e os 20 anos explorarem uma carreira na aplicação da lei.

Ligações a Donald Trump e a grupos de Facebook que incitam à violência


As contas das redes sociais de Kyle Rittenhouse sugerem que é apoiante de Donald Trump, como explica a BBC. Existe um vídeo onde está na primeira fila de um comício para a campanha de reeleição do Presidente, em Iowa, em janeiro. Para além de que na biografia do Instagram tinha escrito "Trump 2020".

Um porta-voz de Trump disse ao BuzzFeed News que este adolescente "não teve nada a ver com a campanha".

"O presidente Trump tem repetidamente e consistentemente condenado todas as formas de violência e acredita que devemos proteger todos os americanos do caos e da ilegalidade. Apoiamos totalmente a aplicação rápida da lei neste caso", acrescentou.

Em relação aos grupos de Facebook que incitam à violência, a BBC revela existir um grupo chamado Kenosha Guard, que fez uma "chamada às armas" para os membros. Nesse mesmo grupo discutiram as armas e os danos que queriam causar no protesto.

O grupo já teria sido denunciado, mas nunca apagado. Depois do tiroteio de terça-feira à noite foi eliminado.

"Na altura, não encontrámos evidências no Facebook que sugerissem que o atirador fazia parte do Kenosha Guard ou que ele tenha sido convidado na página do evento que organizaram", disse o Facebook ao Verge, um portal online de notícias, citado pela BBC.

Tem havido uma revolta generalizada sobre como os polícias, tanto os locais quanto os federais, enviados à cidade pelo Presidente Donald Trump, responderam às manifestações.

Na noite de quarta-feira, começaram a acalmar depois do procurador geral de Wisconsin ter acusado o polícia que alvejou Blake.

Já na quinta-feira, a American Civil Liberties Union (ACLU) pediu a renúncia imediata do chefe da polícia e do xerife do condado de Kenosha, acusando-os de defender a "supremacia branca", "demonizar pessoas que foram assassinadas por exercerem os seus direitos da Primeira Emenda e se manifestarem contra a violência policial".

Também na quinta-feira Kyle Rittenhouse foi oficialmente acusado por dois homicídios e uma tentativa de homicídio.

Cerca de 200 agentes do FBI estão a ser enviados para Kenosha, diz a BBC, para tentarem repor a ordem e a Casa Branca também já informou estarem disponíveis 2.000 membros da Guarda nacional para ir para o terreno.