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Bolsonaro acusa indíos de "trocar madeira por coca-cola e cerveja"

Presidente do Brasil recua e não nomeia países que importam madeira ilegal da Amazónia.

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, recuou na intenção de divulgar os países que importam madeira ilegal da Amazónia e optou por pedir ajuda à Europa no combate aos ilícitos e à desflorestação.

"Nós não vamos acusar nenhum país de cometer crime ou de ser conivente com um crime, mas temos nomes de empresas que fazem isso, e [os países] poderiam estar a ajudar-nos a combater esse ilícito", afirmou Bolsonaro na quinta-feira, durante a sua habitual transmissão de vídeo na rede social Facebook.

O chefe de Estado brasileiro causou surpresa na terça-feira, na cimeira do países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ao prometer nomear os países que importaram madeira ilegal da Amazónia, mas ainda não o fez até ao momento.

"Mostraremos que estes países, alguns deles que muitos nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão", disse Bolsonaro na ocasião.

Na quinta-feira, ao lado do ministro da Justiça, André Mendonça, e do superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, Bolsonaro chegou a dizer que determinados países "criticam o Brasil, até com razão, em algumas oportunidades, mas em outras, não".

"Temos os nomes das empresas que importam madeira extraída ilegalmente e dos países em que atuam, mas não vamos acusar nenhum país, o que queremos é ajuda para que a importação de madeira ilegal deixe de ser um negócio tão atrativo. Com esse apoio poderemos resolver problemas como tráfico de animais, extração ilegal de madeira e contrabando de ouro", apelou o mandatário.

"Não vamos acusar nenhum país, mas vamos pedir-lhes que nos ajudem a combater a desflorestação. Temos interesse em qualquer ajuda nesse sentido", acrescentou o Presidente, apresentando um discurso mais moderado e diplomático em relação ao que tinha prometido.

Bolsonaro indicou que a Polícia Federal brasileira adquiriu e colocou em operação nos últimos meses uma série de tecnologias que permitem identificar a origem da madeira extraída da Amazónia e determinar se foi cortada em áreas onde sua exploração é legal ou em reservas indígenas ou ambientais.

Entre essas tecnologias, Bolsonaro citou o método de rastreamento de isótopos, que através da análise dos átomos permite identificar a origem de um produto e já é utilizado pelos Estados Unidos para localizar plantações de cocaína, assim como ferramentas para identificação genética (DNA) e a chamada assinatura química da madeira.

Segundo Bolsonaro, essas ferramentas, que já são utilizadas no Brasil para determinar se a madeira que vai embarcar para o exterior é proveniente de áreas de exploração legal ou se foi extraída ilegalmente, permitiriam aos países importadores fazer a mesma distinção e estabelecer quais empresas estão a comprar fora da lei.

O Presidente acrescentou que, além da Polícia Federal, esses esforços serão apoiados em breve pela Marinha do país, porque a maior parte da madeira extraída da Amazónia é transportada por rios.

Bolsonaro afirmou ainda que a França é um entrave para o avanço do acordo entre União Europeia e Mercado Comum do Sul (Mercosul), integrado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

"O nosso grande problema para avançar no acordo da União Europeia com o Mercosul é justamente a França. Estamos a fazer o possível, mas a França, em defesa própria, atrapalha-nos", disse Bolsonaro, que desde o ano passado vem trocando acusações com o seu homólogo francês, Emmanuel Macron, devido a questões ambientais.

Bolsonaro reconheceu também estar preocupado com um projeto de lei que começou a ser discutido no Reino Unido e que proíbe a importação de recursos naturais de países acusados de desflorestação.

"Esse é o grande jogo económico de alguns países do mundo para nos atingir, porque somos uma potência mundial do agronegócio", frisou o chefe de Estado do Brasil.

Há índigenas que "trocam madeira por coca-cola e cerveja"

Jair Bolsonaro afirmou que existem indígenas que "trocam madeira por coca-cola e cerveja" ao comentar o aumento da desflorestação na Amazónia.

"As críticas [internacionais sobre a desflorestação na Amazónia] são potencializadas. Existe desflorestação ilegal? Existe! Acho que existe até, em alguns locais, índio que troca uma 'tora' [tronco de árvore] por uma coca-cola ou cerveja", afirmou.

Em seguida, o chefe de Estado dirigiu-se ao superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, e questionou-o sobre se essa situação seria possível, que, por sua vez, tentou amenizar as declarações de Bolsonaro.

"Já aconteceu a madeira em terra indígena ser negociada por valores pífios, por indígenas ou por brancos, mas a grande causa da desflorestação é a fraude nos processos administrativos que foram gerados lá atrás, em 2010", afirmou Alexandre Saraiva.

Em setembro, no seu discurso de abertura na 75.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), Bolsonaro já tinha causado polémica ao responsabilizar os indígenas pelos fogos que lavram na Amazónia.

"Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo [descendentes de indígenas e brancos] e o índio queimam os seus roçados em busca da sua sobrevivência, em áreas já desflorestadas", declarou Bolsonaro na ocasião, numa declaração que foi bastante contestada por políticos e organizações não-governamentais.

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