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"Avisaram-nos que íamos todos ser degolados"

Afolabi Sotunde

Sobrevivente relata ataque do Boko Haram que matou 80 agricultores na Nigéria.

Um dos sobreviventes do massacre de sábado do grupo jihadista Boko Haram, no nordeste da Nigéria, que resultou na morte de quase 80 agricultores, contou que os atacantes avisaram que iam ser todos degolados.

"Os insurgentes avisaram-nos que íamos todos ser degolados", disse Abdul (nome fictício), um agricultor de 24 anos que sobreviveu ao massacre, citado pela agência France-Presse.

"Algumas pessoas disseram-nos para fugir, eu sou um dos que tiveram sorte", afirmou o jovem, ainda traumatizado após o cruel assassinato de pelo menos 76 dos seus colegas, trabalhadores agrícolas como ele.

Abdul é de Kebbi, uma região pobre a 1.000 quilómetros do estado de Borno, para onde se deslocou com centenas de outros trabalhadores na esperança de encontrar trabalho.

Neste período de colheita, os agricultores precisam de uma grande mão-de-obra, especialmente nos campos de arroz de Koshobe, não longe da capital de Maiduguri, e os jihadistas que têm vindo a multiplicar ataques mortais desde 2009 nesta região não os têm desencorajado.

Cerca de 40 jihadistas também aproveitaram a situação para se apresentarem como trabalhadores em busca de trabalho e, durante vários dias, permaneceram nos campos agrícolas ao lado das suas futuras vítimas.

"Fiz pequenos recados para eles, trouxe comida e lavei os seus pratos", recordou o jovem, muito agitado e nervoso.

Depois, no início da tarde de sábado, os jihadistas pegaram nas armas que tinham escondidas e cercaram cerca de 60 trabalhadores, reunindo-os em frente de um edifício abandonado.

"Os atacantes puseram primeiro os idosos de lado", prosseguiu a testemunha. Depois, "ordenaram aos outros que entrassem no edifício para prestar homenagem ao seu líder, cada um por sua vez".

"Foi uma armadilha, todos aqueles que entraram na casa nunca saíram. Parece que os atacantes também visavam os habitantes de Zabarmari, apesar de um acordo de proteção com a aldeia".

Na terça-feira, o Boko Haram reivindicou a responsabilidade pelo massacre, dizendo que era para vingar a morte de um dos seus combatentes que tinha sido detido e entregue às autoridades pelos aldeões.

"Pensas que podes entregar os nossos irmãos aos soldados e depois viver em paz", disse um jihadista através de um vídeo, no qual aparece com o rosto coberto por um turbante azul e branco.

As 43 pessoas encontradas mortas no edifício abandonado foram os primeiros corpos descobertos no sábado e enterrados no dia seguinte, na presença do governador do estado.

Os jihadistas continuaram então a sua "loucura assassina" nos campos de arroz circundantes, disse Abdul.

Este foi um dos ataques mais mortíferos registados nesta região e ocorreu em dia de eleições para os representantes regionais e conselheiros dos 27 círculos eleitorais do estado de Borno.

Estas eram as primeiras eleições organizadas desde o início da insurgência do Boko Haram, em 2009.

Desde aquele ano, mais de 36.000 pessoas foram mortas e mais de dois milhões tiveram de abandonar as suas casas.