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Economia do Brasil regista maior contração em 25 anos

Ueslei Marcelino

Segundo as projeções do Centro de Estudos Económicos da Fundação Getulio Vargas, quase todos os setores da economia encerraram 2020 com uma queda acentuada na produção.

A economia brasileira sofreu em 2020 uma contração próxima a 4,3%, a maior dos últimos 25 anos, segundo projeções divulgadas esta segunda-feira, antes de o Governo divulgar a variação do Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado, marcado pela pandemia.

Pelas projeções do Centro de Estudos Económicos da Fundação Getulio Vargas (FGV), a maior economia sul-americana cresceu 2,5% no último trimestre do ano passado após se ter expandido 7,7% no terceiro, encerrando 2020 com uma contração acumulada de 4,3%.

Essa projeção coincide com a dos cem economistas de mercado consultados semanalmente pelo Banco Central no boletim Focus, que na última edição também estimaram a queda da economia no Brasil no ano passado em 4,3%.

As projeções de retração da economia brasileira no ano passado variam do mínimo de 4,05% medido pelo Índice de Atividade Económica (IBC-Br), indicador utilizado pelo Banco Central para tentar antecipar a variação do PIB, ao máximo de 4,5% esperado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

A previsão mais otimista é a do ministro da Economia do país, Paulo Guedes, que, em entrevista a uma rede social divulgada hoje, afirmou que a economia "vai cair um pouco menos de 4%".

Em ambos os casos, a queda do PIB em 2020 será a maior dos últimos 25 anos e vai superar a retração de 3,5% que o país sofreu em 2015, quando enfrentou sua maior recessão em várias décadas.

O Governo pode anunciar na quarta-feira uma das maiores contrações económicas da história do Brasil porque, independentemente dos critérios de medição, os piores desempenhos anuais do país até agora foram os de 1990, quando a economia caiu 4,35%, e de 1981, com queda de 4,25%.

Segundo a FGV, quase todos os setores da economia encerraram o ano com queda acentuada na produção, com destaque para os serviços, responsável por quase 70% do PIB do país, com exceção da agricultura e da mineração, que foram favorecidas pelo aumento dos preços das matérias-primas, das exportações e da desvalorização do real.

Do lado da procura, o consumo das famílias, principal motor da economia brasileira, fechou 2020 com queda de 5,6%, segundo a última projeção da FGV, e foi salvo de um colapso ainda maior por uma ajuda mensal que o Governo distribuiu para 67 milhões de desempregados e pobres que foram duramente impactadas pela pandemia.

Embora não tenha mergulhado o Brasil numa nova recessão, a crise económica provocada pela covid-19, que paralisou as atividades por vários meses e reduziu o rendimento e o consumo dos brasileiros, interrompeu a recuperação que o país vinha a procurar desde a recessão de 2015 e 2016, quando o PIB brasileiro caiu cerca de 7 pontos percentuais.

Após as retrações de 2015 (3,5%) e 2016 (3,3%), o Brasil voltou a crescer em 2017, com avanço de 1,3%, e manteve uma tímida taxa de recuperação em 2018 (1,8%) e 2019 (1,9%).

Pelas projeções dos economistas consultados pelo Banco Central, a economia brasileira pode começar a recuperar em 2021, quando é esperado um crescimento de 3,47%, que será reduzido para 2,50% em 2022, 2023 e 2024.

Mas essa recuperação depende de o Brasil avançar na campanha de imunização contra a covid-19 e, finalmente, conseguir controlar a pandemia.

A recuperação neste ano dependerá também da redução das incertezas internas, pois o mercado teme que, face às pressões, o Governo abandone a sua política económica liberal e flexibilize os seus esforços para controlar o défice público do país.

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