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China persegue e intimida estudantes chineses pró-democracia na Austrália

Mark Baker / AP

Denúncia da organização de defesa dos Direitos Humanos Human Rights Watch.

O Governo chinês monitorizou, perseguiu e intimidou estudantes chineses pró-democracia que vivem na Austrália, onde as universidades não conseguiram proteger a liberdade académica dos estudantes, apontou hoje uma organização de defesa dos Direitos Humanos.

Segundo um relatório da Human Rights Watch, o medo causado pela intimidação - que incluiu colegas de turma a relatar as atividades dos alunos às autoridades chinesas - intensificou-se nos últimos anos.

Com medo de represálias contra as suas famílias na China, muitos estudantes e académicos chineses na Austrália censuram agora o seu comportamento, apesar de estarem a milhares de quilómetros de Pequim.

"Foi realmente comovente ver como estes alunos estavam sozinhos e vulneráveis, tão longe de casa, e a sentir falta de proteção da universidade", disse Sophie McNeill, pesquisadora australiana da Human Rights Watch e autora do relatório.

"As universidades realmente temem uma reação de Pequim e, em vez de abordarem abertamente o assunto, estas questões são varridas para debaixo do tapete", notou.

Em três casos, a polícia chinesa visitou ou pediu para reunir com as famílias dos alunos, por causa das atividades deles na Austrália, de acordo com o relatório, que teve como base entrevistas com 24 estudantes pró-democracia da China continental e de Hong Kong e 22 académicos em universidades australianas.

As autoridades chinesas ameaçaram prender um estudante que difundiu mensagens pró-democracia no Twitter na Austrália e confiscaram o passaporte de outro que expressou apoio à democracia à frente de colegas na Austrália, disse a Human Rights Watch.

Esses casos causaram alarme entre os estudantes chineses em toda a Austrália, disse McNeill.

"Eles amariam profundamente a liberdade na Austrália que outros jovens desfrutam", acrescentou. "Mas não podem, porque vivem com medo de que algo aconteça aos seus pais".

Todos os alunos entrevistados pelo grupo disseram temer que as suas ações na Austrália levem as autoridades chinesas a punir ou interrogar as suas famílias na China.

A maioria disse que censurou as suas próprias palavras e atividades na Austrália.

Mais de metade dos académicos entrevistados, que eram da China ou estudavam assuntos relacionados com a China, disseram também que se censuravam regularmente quando falavam sobre a China.

"Esta é a realidade", disse um estudante à Human Rights Watch. "Eu vim para a Austrália e ainda não sou livre".

A embaixada chinesa na Austrália chamou o relatório de "lixo".

"A Human Rights Watch degradou-se para se tornar uma ferramenta política para o Ocidente atacar e difamar os países em desenvolvimento", disse a embaixada em comunicado.

A questão é financeira e diplomaticamente delicada para as universidades australianas, que foram incentivadas pelo governo a construir parcerias com a China e arrecadaram milhares de milhões de dólares neste processo.

O ensino é uma das principais exportações da Austrália, contribuindo com 40 mil milhões de dólares australianos (25 mil milhões de euros) para a economia do país, em 2019.

Antes da pandemia da covid-19, mais de 40% de todos os estudantes internacionais na Austrália eram oriundos da China, de acordo com um relatório de 2019 do Center for Independent Studies, uma unidade de investigação australiana.

A decisão da Austrália de fechar as suas fronteiras, em março de 2020, em resposta à pandemia, deixou os estudantes estrangeiros impossibilitados de entrar no país.

As universidades perderam 1,8 mil milhões de dólares australianos (quase 1,2 mil milhões de euros) em receitas no ano passado e devem perder outros 2 mil milhões este ano, de acordo com estimativas oficiais.

Em 2018, a Austrália introduziu leis amplamente vistas como uma forma de prevenir a interferência encoberta da China na política, universidades e outras instituições australianas.

As leis enfureceram a China e abalaram as relações bilaterais.

A maioria dos alunos assediados disse à Human Rights Watch que não relatou os incidentes às suas universidades porque acreditam que as escolas se preocupam mais em manter as suas relações com Pequim.

Catriona Jackson, presidente - executiva da Universities Australia, associação que reúne as universidades australianas, disse que o relatório era preocupante e não surpreendente.

Ela pediu aos alunos e funcionários chineses que relatassem qualquer assédio às suas universidades.

Jackson negou que as universidades tenham ignorado a interferência chinesa e disse que estão a tentar combater ativamente o problema, ao trabalhar com as agências de segurança.

"O debate livre, a investigação intelectual aberta e o concurso de ideias estão no centro absoluto de tudo o que as universidades australianas fazem", disse Jackson.