Mundo

O que é passado é Prólogo 

06.05.2022 21:01

Enquanto discutíamos minuciosamente todas as virtudes e penalidades associadas às equipas Will e Rock, o mundo continuou a girar. E a aquecer, o que é só uma das variadas e complexas consequências de termos atingido os valores mais elevados de gases de efeito de estufa na história da nossa espécie, ou usando uma data mais reconhecível, um aumento de 50% relativamente a 1990.

Na sua peça, The Tempest, William Shakespeare escreveu estas palavras (What’s past is prologue), propondo que as ações precedentes ao momento em que os protagonistas estão prestes a cometer homicídio predeterminavam e racionalizavam esse desenlace. Atualmente, esta expressão é frequentemente usada por historiadores de guerra, que advertem para a importância de eventos decorridos e as suas similaridades com conflitos bélicos do presente. A base lógica sendo que o passado continua a exercer uma influência indiscutível no presente e que tal será sempre a nossa sina.

É inegável o apelo determinista desta conjetura, especialmente quando consideramos as circunstâncias incertas que têm marcado a humanidade nos últimos tempos: uma pandemia, a guerra, inflação e a advertência de carência de alimentos devido à destabilização da economia global. Dada a sequência destes eventos, seria concebível por esta altura estarmos seriamente a discutir a contingência dos quatro cavaleiros do apocalipse, contudo, um intempestivo estalo que correu o mundo redirecionou as nossas atenções e desassossegos para margens com menor risco existencial. Temporariamente, como é hábito.

Porém, enquanto discutíamos minuciosamente todas as virtudes e penalidades associadas às equipas Will e Rock, o mundo continuou a girar. E a aquecer, o que é só uma das variadas e complexas consequências de termos atingido os valores mais elevados de gases de efeito de estufa na história da nossa espécie, ou usando uma data mais reconhecível, um aumento de 50% relativamente a 1990.

Onde quero realmente chegar é que independentemente das vicissitudes que se apoderam da nossa atenção, as alterações climáticas são uma questão com o potencial de não só subjugar o nosso futuro, como foram um fator imutável que vergou também os nossos antepassados. As oscilações do clima (quer devido a fenómenos naturais ou antropogénicos) serão e sempre foram a grande constante variável que acompanha o processo de habitar um planeta capaz de sustentar vida. A fim de averiguar se o passado será mesmo o prólogo do nosso próximo ato, proponho assim que nos afastemos temporariamente dos temas que dominam o presente e examinemos o processo de emergência e colapso de uma sociedade complexa que foi afectada por mudanças climáticas.

Cahokia

Entre 1050 e 1450 d.C., populações pré-colombianas (antes de 1492 d.C.) e nativas da América – coletivamente referidas como parte da cultura Mississipiana – ocuparam e desenvolveram uma extensa rede de povoações urbanizadas e vilas satélites. Admite-se que entre um variado leque de culturas, Cahokia (figura 1) seria das mais preeminentes e das que atingiram maior complexidade social, com estimativas populacionais máximas na ordem das 15000-20000 pessoas entre 1100 e 1200 d.C.

Figura 1: Áreas aproximadas das variadas culturas Mississipianas e enfoque em Cahokia. Herb Roe CC BY-SA 3.0. 

Presentemente, Cahokia é reconhecida pelos distintos montes de terra gigantes que esta cultura ergueu. O sítio arqueológico histórico de Cahokia Mounds (figuras 2 e 3) não só é o maior de todos entre as culturas Mississipianas, como é também um testemunho duradoiro do potencial de organização social convocado por esta cultura.

Figura 2: Sítio Histórico Estadual de Cahokia Mounds (Monk’s Mound). The Chickasaw Nation, USA.  

Através do método científico, as hipóteses relativas à eflorescência e colapso da cultura de Cahokia têm vindo a ser continuadamente refinadas. Deste modo, quando as evidências apontam ostensivamente para factos verificáveis que podem corroborar ou afastar hipóteses, uma teoria científica é formada.

Relativamente a Cahokia, as evidências arqueológicas acumuladas apontam para um primeiro período de precipitação e aumento de temperatura acima da média, compreendido entre os anos de 450-1000 d.C. Tal cenário terá favorecido a emergência e o rápido crescimento populacional das culturas Mississipianas, através de uma transição para um regime com maior preponderância agrícola e excedentes alimentares, por sua vez abrindo as portas para a hierarquização e o amadurecimento da complexidade das sociedades (Aharon et al. 2012). Em contrapartida, a hipótese de degradação antropogénica do meio em conjunto com oscilações climáticas tem vindo a adquirir uma posição autoritária naquilo que foi o abandono e colapso de Cahokia (Pompeani et al. 2021).

Passemos então a examinar o estado da arte relativo à alvorada e desfecho desta sociedade complexa, a propósito de constatarmos como o destino de sociedades do passado continua a ser tão símile ao que encaramos no presente. E para isso proponho um desafio.

Trago comigo um gráfico proveniente do trabalho de Pompeani e colegas (2021) (figura 4), o qual estou convencido poderá ser útil não só para revelar inúmeras interações ligadas a alterações climáticas, degradação antropogénica do meio e repercussões na sociedade, mas também para mostrar que estes trabalhos científicos não são bichos-de-sete-cabeças, que somente especialistas conseguem compreender. O objetivo será assim descomplicar um tópico visivelmente complexo, na esperança que possamos assimilar algumas simetrias com a nossa atualidade.

O ‘bicho-de-sete-cabeças’ de Cahokia

É hábito aconselharmos uma pessoa que está prestes a iniciar uma tarefa complicada, a não começar a casa pelo telhado. Aqui é precisamente o que vamos fazer, observando o gráfico do topo para baixo e esclarecendo o que se passa em cada uma das secções. Em primeira instância, vemos que existem seis letras diferentes (A, B, C, D, E e F) que repartem este trabalho, sendo balizadas por intervalos de tempo compreendidos entre 800 e 1500 d.C. Para efeitos desta análise, as letras A e C podem ser ignoradas, sendo que as mesmas representam, respetivamente, uma validação dos resultados efetuados em B e as fases arqueológicas de Cahokia.

Figura 5: Foco nas secções B e D. De Pompeani e colegas (2021) 

Agora ao que interessa, a secção B. A descrição Horseshoe diz respeito ao lago situado nas imediações do Sítio Histórico Monk’s Mound (figuras 2 e 3), um candidato perfeito para fazer uma reconstrução dos níveis históricos de isótopos estáveis de oxigénio (δ18O). Este isótopo é uma ferramenta imprescindível na paleoclimatologia, visto que permite aferir com elevada precisão níveis de evaporação e precipitação, ou seja, cenários de seca (dry) vs pluviosidade (wet). Ambos estes critérios estão vinculados ao sucesso ou insucesso agrícola, por sua vez responsáveis pela manutenção de sociedades complexas. Desta forma, o isótopo δ18O serve como uma excelente proxy para compreender como o clima mudava no passado distante, antes dos registos modernos começarem.

Voltando à análise de B, observamos que até cerca do ano 1000 d.C., as concentrações de δ18O revelam um regime de maior pluviosidade – o que pode ser entendido pela linha azul curvilínea se localizar abaixo da linha recta azul – favorecendo a emergência e rápida expansão de complexidade de Cahokia. Porém, o século seguinte terá sido relativamente mais seco, visto que a linha azul se mantém acima do nível médio.

É somente no início do século XII que os níveis de pluviosidade aumentam consideravelmente, ultrapassando registos anteriores, e apenas assinalando níveis denominados como ‘seca’ já em meados do século XIII. No entanto, em 1200 d.C. a curva começa a deslocar-se para um regime evidentemente mais seco do que nas décadas anteriores (pontuado por anos mais húmidos), e este é um aspeto fulcral, porque condições húmidas levam a maiores excedentes agrícolas, que por sua vez resultam em crescimento populacional e imigração. Se o leitor estivesse em Cahokia entre os séculos XII e XIII, e assistisse à bonança da época, presumivelmente consideraria que tais condições se mantivessem no futuro. Mas não foi assim que aconteceu.

Foquemo-nos de seguida na secção D. Tal como em B, esta diz respeito a uma análise desenvolvida no lago Horseshoe. Contudo, esta visou o estudo das concentrações de chumbo (Pb) [em inglês, Lead] e de isótopos de Azoto (N) [em inglês, Nitrogen], consideradas como proxies fidedignas que refletem a intensidade do uso do solo por humanos. Por conseguinte, é interpretado que valores mais elevados (em inglês, Higher) de chumbo e de isótopos de azoto sugerem populações em crescimento, que por sua vez alteram e convertem mais o seu ambiente próximo para finalidades que beneficiam diretamente o ser humano a curto-prazo (tais como a ocupação de terras para agricultura ou a deflorestação para obtenção de materiais e combustão).

Figura 5: Foco nas secções B e D. De Pompeani e colegas (2021) 

Ao examinar-nos esta secção, percebemos que desde o início do período de estudo em 800 d.C. que as concentrações de chumbo (linha laranja) e de isótopos de azoto (linha verde) exibem um crescimento significativo. Recordemos a secção B, que durante este período evidencia um regime climático mais húmido e convidativo à agricultura. É plausível que esse regime de pluviosidade tenha sido acompanhado de uma maior presença humana nas imediações do lago Horseshoe, verificando-se numa tendência crescente das duas linhas precisamente até à altura em que o regime de pluviosidade se inverte para condições de maior seca, no início do século XI. Aproximadamente nos cem anos seguintes, as concentrações de chumbo estagnam, enquanto os isótopos de azoto descendem para níveis semelhantes ao início do período de estudo.

É a partir de meados do século XII que as coisas se tornam interessantes. Como havia sido referido anteriormente na secção B, foi nesta altura que o regime climático se tornou declaradamente mais húmido, mantendo-se essa tendência até cerca de 1200 d.C., quando as condições se vão tornando mais secas, ano após ano. Posto isto, é aqui evidente um fenómeno. No período mais húmido do registo de Cahokia em B, podemos também visualizar em D como ambas as proxies (linhas verde e laranja) de ocupação humana, atingem os seus valores mais elevados no registo. Quase como se fosse uma dança entre as alterações climáticas e a sociedade, tanto o chumbo como os isótopos de azoto começam uma tendência de decrescimento assim que a linha azul (B) inicia o seu roteiro para condições de menor humidade (pelo menos até 1500 d.C.).

Consoante examinamos diferentes conjuntos de dados, e averiguamos as suas interações e interdependências, também nos munidos da capacidade de inferir cenários cada vez mais robustos. A reciprocidade admissível entre as secções B e D permite-nos deduzir que as alterações climáticas tiveram um papel crucial não só na expansão de Cahokia, mas também no seu abandono e eventual colapso em meados do século XIV, um cenário verossímil pelos dados já apresentados.

Sem embargo às linhas de investigação já apresentadas, é evidente que na ciência um trabalho não é suficiente para tornar hipóteses irrefutáveis. Como tal, não podemos afirmar com toda a certeza que a influência entre B e D não passa de uma coincidência – e, por conseguinte, que as alterações climáticas não têm o papel determinante no destino de sociedades complexas, como tenho aduzido. Não é por razão alguma que um adágio fundamental da ciência é que ‘correlação não implica causalidade’. A única maneira de poder comprovar tal entrosamento é com mais ciência, seja isso através da tentativa de replicação destes resultados por outros cientistas (princípio da falseabilidade), ou pela apresentação de mais interações que elevem o papel das alterações climáticas a um fator totalmente insubstituível na explicação de eventos do passado.

É precisamente esse o objetivo das secções E e F, que concluem esta análise. Em E, o que se observa é que em 1200 d.C. as populações de Cahokia começaram a ter necessidade de erguer defesas na forma de paliçadas (em inglês, palisades). A edificação destas fortificações é concomitante com o início das oscilações climáticas que marcaram o século XIII, e que trouxeram reduções na pluviosidade (linha azul em B). Uma hipótese verossímil, é que com os tempos de abundância a terminarem devido às alterações do regime climático, a população se tenha encontrado numa situação de escassez de recursos, levando ao aumento de conflitos.

Figura 6: Foco nas secções E e F. De Pompeani e colegas (2021) 

A propósito das evidências que apontam para um acréscimo de hostilidades em Cahokia, outros trabalhos atribuem menor relevância das alterações climáticas, sugerindo em alternativa, que foi o rápido aumento populacional na forma de imigração, o principal motivador do aumento de conflagrações. Esta hipótese alega, que as oscilações climáticas são um factor secundário quando comparado com a diversidade populacional e faccionalismo que aumentaram a temperatura social em Cahokia, diminuindo a coesão e confiança entre a população, acabando por criar obstáculos a uma identidade partilhada (que também seria corroborado por um aumento de fortificações entre grupos). Esta é uma hipótese que tem vindo a receber atenção redobrada nos dias que correm (ex: Schiefer & van der Noll, 2017; Gijsberts et al. 2011), atendendo à declaração que os princípios basilares do nosso projecto civilizacional são a globalização, a diversidade e o multiculturalismo.

O que esta dicotomia final pretende demonstrar, é que dificilmente há uma causa isolada que pode explicar tudo. Ao estudarmos o passado temos tendência a querer encontrar explicações simples e insuladas, mas dificilmente poderá existir um fator com esse poder determinante. Na verdade, a nossa realidade assemelha-se mais a uma rede interligada de causa e efeito que a um agente absoluto, e o mesmo acontece no presente. Não obstante, têm sido feitos esforços hercúleos por parte da comunidade científica para corroborar o argumento que as alterações climáticas tiveram um papel determinante na história de Cahokia, e em resumo, eis o cenário que é avançado por este trabalho:

– Condições de humidade estáveis criaram o ímpeto para a emergência e rápido desenvolvimento de Cahokia.

– Uma alteração para um regime mais seco, em conjunto com uma população mais elevada e dependente de agricultura, aumentou a susceptibilidade de Cahokia a influências climáticas.

– Condições de seca acentuam-se em 1200 d.C., provocando uma admissível escassez de recursos, que se traduziu na necessidade de erguer defesas.

– O prolongamento do regime climático de seca sugere um abandono severo da população em meados do século XIV. É plausível que a redução de humidade tenha resultado também numa perda de habitabilidade do território (reduzindo excedentes agrícolas) e que as pessoas tenham decidido abandonar o local, provavelmente devido a uma combinação de insegurança alimentar e física, totalizando o colapso de Cahokia.

Agora que contemplamos o epílogo deste texto, voltamos a refletir na premissa que o entabulou. Que o passado é prólogo daquilo que estamos a experienciar e que podemos usar esse conhecimento para melhor navegar circunstâncias incertas. Por certo, os habitantes de Cahokia enfrentaram desassossegos e inquietações que levaram a transformações profundas do seu quotidiano, e é bastante admissível que as alterações climáticas tenham desempenhado um papel substancial nesta transição.

Francamente, e como tenho vindo a deslindar com a SIC Notícias, nós, habitantes deste planeta no século XXI, temos mais em comum com as populações de Cahokia do que estamos dispostos a admitir.

Na verdade, estes antepassados foram assolados por oscilações climáticas, degradação antropogénica do meio, aumento de tensões e hostilidades internas e externas, perda de rotas comerciais e pela eclosão de doenças.

Todas estas circunstâncias se têm vindo a tornar mais familiares para os humanos do presente, e cada vez mais o serão, consoante a ilusão se desfaz de que nos elevámos acima das adversidades dos nossos antepassados. Continuamos a fazer parte deste planeta, e a estar sujeitos aos seus caprichos. Esse é o preço de habitar um planeta capaz de sustentar vida. Mais vale aprendermos o que pudermos com as experiências daqueles que vieram antes de nós.

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