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As histórias que contamos a nós próprios

As histórias que contamos a nós próprios

E se o homem que atirou a tarte à Mona Lisa estava de facto a tentar chamar a atenção para a destruição de habitat e genocídio de espécies não-humanas que o Homo sapiens está a perpetuar?

A recente tentativa de vandalização da afamada obra de Leonardo da Vinci, por parte de um homem disfarçado de mulher numa cadeira de rodas, e munido de uma tarte, não ficou indiferente a muita gente. Mona Lisa saiu ilesa da transgressão porém, a inexistência de um manifesto a detalhar os motivos que impeliram o sujeito a arremessar o pospasto contra o vidro, ou a absente reivindicação do ato por parte de alguma organização ou grupo, levou ao célere preenchimento das lacunas com a incerteza que geralmente se segue. O que definitivamente se sabe são as palavras que o autor clamou enquanto era escoltado para a saída (traduzido do francês):

“Pensem na Terra, as pessoas estão a destruir a Terra. Pensem nisso. Os artistas dizem-nos para pensarmos no planeta. Foi por isso que fiz isto.”

Um pouco por todo o mundo, após o ‘ataque’, os media atribuíram o móbil a um protesto a chamar a atenção para as alterações climáticas (The Daily Beast; Forbes; NBCNews; New York Post; Observador). Todavia, nada na enunciação do sujeito corrobora esta hipótese, embora a apressada resposta dos media seja sintoma de algo que tenho vindo a abordar na coluna para a SIC Notícias e que falei na minha palestra para a TEDx, Os Limites da Sustentabilidade (disponível no YouTube).

TEDx Talk. Os Limites da Sustentabilidade: Lições do Passado e Novos Imaginários. Acesso YouTube.

As alterações climáticas tornaram-se sinónimo do impacto antropogénico no planeta, embora as mesmas sejam somente uma manifestação de um problema muito maior, a sobrecarga dos sistemas terrestres devido à ação humana em várias frentes. Este excesso por sua vez está a ser originada pela ação conjunta de fatores como:

  • Demasiadas pessoas a requisitar uma fatia crescente de recursos limitados,
  • Poluição e acidificação dos oceanos,
  • Dependência de combustíveis fósseis e recursos finitos,
  • Deflorestação, degradação e uso excessivo dos solos,
  • Perda de biodiversidade,
  • Sistemas económicos viciados em crescimento, e também,
  • Alterações climáticas naturais e antropogénicas

As alterações climáticas são de facto um problema gravíssimo – e talvez mesmo um risco existencial – que a humanidade e toda a vida não-humana na Terra terão de enfrentar. Não obstante, estas não representam a totalidade daquilo que especialistas como o criador do conceito de pegada ecológica, William Rees, apelidam de human predicament (tradução mais próxima possa ser o ‘Dilema Humano’).

É chamado de dilema, mas na verdade aproxima-se mais de um imbróglio. Suponhamos que a humanidade mantém a sua ambição de obter maior crescimento material e energético (ambos intrinsicamente dependentes de combustíveis fósseis) de forma a perpetuar a civilização industrial, complexa e globalizada do século XXI, e a enorme população vinculada à mesma. Nesse caso, os sistemas terrestres, já em sobrecarga, irão, paulatinamente, evoluir para um estado de colapso ecológico e disrupção climática, recriando condições semelhantes às das cinco grandes extinções que assolaram o nosso planeta no passado distante.

Por outro lado, se a humanidade escolhesse a preservação da bioesfera, isso significaria a contração voluntária do projeto civilizacional [em jeito de exemplo, o PIB mundial teria de ser reduzido em mais de 8%, todos os anos, durante a década vigente, só para termos uma probabilidade aproximada a 66% de limitar o aumento da temperatura a 1.5 ºC acima de níveis pré-industriais (Carbon Brief, 2020), o que resultaria num colapso social e económico praticamente a nível global.

Alternativamente, um investimento massivo nas actuais alternativas para a redução de gases de efeito de estufa necessitaria de uma transição isenta do uso de combustíveis fósseis. Porém, tanto a civilização que erguemos como a população humana que permitimos que chegasse actualmente aos 8.000.000.000, estão subjugadas a estas matérias. A sua renúncia resultaria em choques profundos em termos de segurança alimentar, produção energética, e mais uma vez, uma contração do PIB mundial que se sucederia de instabilidade social, prováveis conflitos armados e uma escalada severa na taxa de mortalidade.

E tudo isto somente para tentar colmatar o rápido aumento dos gases de efeito de estufa, os principais responsáveis pelo aumento da temperatura média do planeta que, implacavelmente, levará às referenciadas alterações climáticas. Contudo, o impacto antropogénico nos sistemas terrestres está de tal forma metastisado nas manifestações acima descritas, que já não deveria ser possível condensar tudo numa só sintoma, muito menos quando as ‘soluções’ propostas para o remediar requerem a alarmante mineração e industrialização de vastas áreas do planeta, exacerbando em larga escala o nosso impacto no planeta.

Montanhas Taihang na China, cobertas de painéis solares.

Posto isto, como é que chegámos a um ponto em que praticamente qualquer movimento ambiental declara que a sua missão está intimamente ligada ao combate às alterações climáticas, mas recusam aproximar-se do tópico do crescimento populacional humano? Como é que temos membros da classe política a proclamarem a sua reverência pela sustentabilidade quando são incapazes de se associar com a matéria de economias de decrescimento? Como é organizações mundiais advogam maior equidade e justiça social, mas relegam a alternativa da simplicidade voluntária como utópica e inviável? Como é que temos empresas a brandir um apoio clamoroso contra a deflorestação, todavia continuam a perseguir lucros bilionários? E como é que convencemos milhões de humanos que a alteração de alguns comportamentos e atitudes que visam a redução de gases de efeito de estufa poderiam alguma vez travar o colosso destruidor planetário que é o nosso projeto civilizacional?

Parte da resposta está seguramente relacionada com o facto de precisarmos de uma narrativa que fomente esperança, que esteja ao alcance de todos – se, e só se assim o desejarem voluntariamente – e que, acima de tudo, não requeira uma completa transformação da nossa conceção do mundo.

De entre um mercado de ilusões que competiam pela nossa atenção, a fábula que emergiu vencedora foi a que poderíamos continuar a perseguir maiores níveis de abundância material, energética e calórica, para cada vez mais pessoas, e que se todos reciclássemos, reduzíssemos o consumo de água em casa e no trabalho, se desligássemos o interruptor à saída, se conduzíssemos um veículo elétrico e tivéssemos painéis solares no telhado e quintal, e se adoptássemos dietas sem produtos de origem animal que a sustentabilidade estaria já ao virar da esquina.

Quando confrontados com o cenário plausível de um colapso ecológico, caso continuássemos no nosso trajecto de business-as-usual, a história que mais apelou a todos foi a que se construiu à volta das alterações climáticas. Longe de uma realidade que requer uma contracção diligente e substancial da população humana e das nossas ambições materiais, energéticas e alimentares, a narrativa erguida em redor das alterações climáticas apresenta as mesmas como um desafio essencialmente tecnológico, possibilitando que temas como desenvolvimento sustentável e crescimento económico em prol da transicção verde, continuem em cima da mesa.

Igualmente, em vez de ter de lidar com questões espinhosas como o rápido crescimento da população humana, o foco nas alterações climáticas desviou a conversa para o consumo excessivo nos países com economias desenvolvidas, descurando aquilo que ecólogos já reconheceram há várias décadas. Que o Impacto (I) humano é o resultado do número de pessoas (P), multiplicado pela sua taxa de consumo, ou afluência (A), vezes a tecnologia (T) disponível. A equação que exprime esta relação (I= P.A.T) foi escrita em 1971 e continua tão válida como sempre, embora, actualmente a discussão esteja desproporcionalmente centrada nos comportamentos daqueles com maior Afluência, ignorando a realidade inconveniente que a grande maioria dos novos <200,000 passageiros humanos que todos os dias chegam a este planeta, almejam consumir e viver como a minoria mais abastada.

É evidente que qualquer história dedicada à redução de consumos frívolos no Ocidente, na intenção de retirar centenas de milhões de pessoas de níveis de pobreza perversos e numa promessa que poderemos prosseguir com o modo de vida que nos habituámos desde que tenhamos alguns apetrechos tecnológicos a reduzir emissões, será sempre mais cativante que a alternativa. Esta aponta que estamos todos, ricos e pobres, colectivamente (e de maneiras diferentes) a sobrecarregar os sistemas terrestres e a acelerar a perda de biodiversidade no planeta.

E por falar nisso. Quantos de nós se lembraram da ovelha negra que é o assalto à biodiversidade, também apelidada da sexta extinção em massa, enquanto nos debruçávamos sobre as emissões de gases de efeito de estufa e as alterações climáticas? Infelizmente, já uma investigação por parte do The Guardian, em 2019, constatava que por cada notícia que relatava negociações ligadas à proteção da biodiversidade, pelo menos vinte proporcionais às alterações climáticas eram lançadas (e estes resultados serão certamente conservadores, que a diferença real deve ser bem mais explícita).

E se o homem que atirou a tarte à Mona Lisa estava de facto a tentar chamar a atenção para a destruição de habitat e genocídio de espécies não-humanas que o Homo sapiens está a perpetuar? Ou quiçá, poderá ter sido mesmo para a incessante subida de emissões de gases de efeito de estufa e para as alterações climáticas que estão a instigar?

Independentemente dos seus motivos, “Pensem na Terra, as pessoas estão a destruir a Terra…” só diz respeito a um planeta, e embora o nosso impacto seja como uma Hidra da mitologia grega, com várias cabeças, será seguramente errado reduzir o mesmo somente às alterações climáticas. Héracles (Hércules na mitologia Romana) não venceu a Hidra de Lerna cortando uma cabeça de cada vez, equitativamente, não iremos emergir vencedores do confronto com a criatura que é a nossa civilização sem confrontarmos de frente este monstro.

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