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Quando a poliomielite reaparece

Quando a poliomielite reaparece
THOM LEACH / SCIENCE PHOTO LIBRA

Opinião de Tiago Correia, comentador SIC e professor de Saúde Internacional.

A pólio está a ressurgir em partes do mundo que não registavam casos há largos anos. O assunto interessa devido ao sucesso do esforço global de controlo da doença que dura há décadas. O que é que este ressurgimento significa e o que nos obriga a pensar?

A pólio está entre os casos mais óbvios do quanto a conjugação de esforços científicos, políticos e de cooperação permitem ganhos de soma positiva a países ricos e pobres. O sucesso foi tal, que em 2019 declarou-se a erradicação mundial do poliovírus tipo 3; África foi classificada como estando livre da poliomielite endémica em 2020; e o poliovírus selvagem tem continuado circunscrito ao Afeganistão e Paquistão.

A poliomielite é uma doença incapacitante e comporta risco de vida: 1 em 200 pessoas fica paralisada e, entre estas, 5-10% acabam por morrer. A transmissão ocorre através do contacto com fezes, o que tanto requer a higienização de espaços e pessoas como sistemas de saneamento e abastecimento de água para consumo humano e indústria agropecuária.

Durante o verão de 2022, a comunidade científica e decisores políticos de várias metrópoles, incluindo Nova Iorque e Londres, mostraram preocupação devido à deteção deste vírus.

Em boa verdade, a preocupação não tem tanto a ver com o vírus em si, porque há vacinas disponíveis e os casos diagnosticados em pessoas ainda são poucos. A preocupação, neste caso, diz respeito ao que este ressurgimento significa. Há dois significados importantes.

O primeiro é o atraso causado pela pandemia da Covid-19 nas campanhas mundiais de vacinação. Estimativas recentes mostram que mais de 80 milhões de crianças ficaram em risco de contrair algum tipo de poliovírus nos dois últimos anos. Isto é um exemplo claro daquilo que fui chamando a atenção como sendo a natureza sindémica da Covid-19, ou seja, o quanto este coronavírus agrava a saúde e o bem-estar das populações também, porque prejudica a monitorização, imunização e o tratamento de outras doenças.

A taxa mundial de imunização contra a poliomielite caiu para 80% em 2021, representando a menor taxa em 14 anos. Países como o Perú, Brasil, República Dominicana e Haiti passaram a estar sob alerta das agências internacionais.

O segundo significado é a negação ou hesitação vacinal. As pessoas que simplesmente negam tomar vacinas continuam a representar uma pequena margem da população (em torno de 2%). Mas as pessoas que hesitam já representam uma larga maioria (entre os 60-70%). Hesitar significa aceitar tomar vacinas com insegurança, aceitar tomar umas e recusar outras, ou atrasar a toma de vacinas.

Noutro texto já abordei os sentidos e possíveis soluções para diminuir a hesitação vacinal.

O que importa sublinhar no caso da pólio é que, tanto por conta do atraso da vacinação como pela negação ou hesitação vacinal, a transmissão do poliovírus causado pela vacina oral está a aumentar e a surgir em locais onde não surgia há décadas. Entre 2019 e 2020, os surtos de poliovírus derivados da vacina triplicaram, o que é acompanhado pelo aumento de crianças paralisadas.

O problema não está na vacina. Trata-se de uma vacina muito conhecida, altamente segura e a mais eficaz para evitar a transmissão do vírus selvagem. Contudo, dado conter o poliovírus enfraquecido, em casos de falta de higiene, condições de vida precárias e baixos níveis de vacinação, é possível que origine surtos.

Isto recorda-nos algo simples, mas que tendemos a esquecer sempre que deixamos um sufoco para trás: as vitórias no combate à erradicação ou controlo das doenças são momentâneas. A vigilância epidemiológica, a partilha de informação entre países, a informação transparente e não alarmista das populações e o investimento constante em sistemas de saúde robustos e resilientes é o que faz a diferença perante novos surtos.

A negação e hesitação vacinal são talvez os maiores obstáculos de ultrapassar nos países ricos, enquanto nos países pobres é a dependência da atenção da comunidade internacional, que tende apenas a atuar quando os problemas batem à porta dos países desenvolvidos

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