As correntes oceânicas que transportam enormes quantidades de lixo no Oceano Pacífico contêm uma grande abundância de vida marinha. Mais ainda, os cientistas acreditam que a poluição plástica no oceano está mesmo a permitir a criação de novos ecossistemas flutuantes de espécies que normalmente não são capazes de sobreviver no oceano.
A investigação, realizada por investigadores da Universidade de Georgetown, em Washington, e publicado na revista especializada PLoS Biology, analisou a concentração de organismos na "Grande Mancha de Lixo do Pacífico" ("Great Pacific Garbage Patch", em inglês), um enorme aglomerado flutuante coberto de detritos.
Os cientistas descobriram que existe uma correlação entre a presença de plástico e a abundância de espécies como velas do mar ou caracóis marinhos.
Estas descobertas levam os investigadores a arriscar que as mesmas correntes que promovem a acumulação de lixo em diferentes partes do oceano são essenciais para o desenvolvimento de alguns organismos flutuantes, que se aproveitam destas para se alimentar e procriar.
A “Grande Mancha de Lixo do Pacífico” está localizada no meio do maior vórtice aquático do mundo, conhecido como o Giro do Pacífico Norte (NPG), formado por quatro correntes oceânicas e considerado o maior ecossistema do planeta.
Para realizar as suas investigações, os cientistas aproveitaram a passagem de um barco pelo NPG, após uma expedição a nado de 80 dias.
A equipa recolheu amostras diárias na parte leste do vórtice e descobriu que a concentração de criaturas marinhas era maior no centro do que na periferia.
"A 'mancha de lixo' é mais do que uma mancha de lixo. É um ecossistema, não por causa do plástico, mas apesar dele", realçou a principal autora do estudo, Rebecca Helm, em comunicado.
Os investigadores esperam que o seu trabalho leve as empresas que operam em alto mar a considerar o seu impacto nos ecossistemas da superfície do mar.
Mancha de plástico equivalente a três Franças
Esta mancha, detetada pela primeira vez em 1977, contém mais de 1,8 mil milhões de fragmentos de plástico.
Não se trata de uma ilha ou de uma massa única, mas sim de uma vasta área com grandes quantidades de plástico, com detritos que vão dos pequenos bocados a elementos maiores, como redes de pesca abandonadas, que representam 46% do total, segundo o estudo publicado a 22 de Março no boletim Scientific Reports, da revista científica Nature.
A quantidade de plástico encontrada nesta área está "a aumentar exponencialmente", de acordo com o trabalho desenvolvido pela fundação Ocean Cleanup e por investigadores de instituições na Nova Zelândia, Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Dinamarca.
A quantidade da massa de plástico presente continua a acumular-se devido ao sentido das correntes marítimas e ao descuido dos humanos, tanto no mar, como em terra.
A maior parte daquele plástico tem provavelmente origem em países do Pacífico, mas também pode vir de qualquer ponto do mundo pois aquele material anda por todo o oceano e até já foi encontrado no Ártico.
Plásticos ameaçam animais e entram na cadeia alimentar
Plásticos, como cotonetes, palhinhas ou sacos de plástico descartáveis, vão parar aos oceanos e deterioram-se, dando origem a pequenas partículas que são ingeridas pelos animais e podem levar à sua morte.
Através dos peixes, os microplásticos chegam à cadeia alimentar e são ingeridos pelos humanos.
Os microplásticos também são ingrediente de muitos cosméticos e produtos de higiene pessoal, como exfoliantes para cabelo, corpo e rosto, pastas e cremes dentais, entrando na rede de esgotos, mas como são demasiado pequenos para serem completamente filtrados nos sistemas de tratamento vão para os rios e mares.
A poluição do mar pelos plásticos é um problema global. Em 1990, a produção de plástico era metade da atual e daqui a alguns anos poderá existir no oceano mais plástico do que peixe, se nada for feito para evitar o elevado consumo deste material, segundo organizações ambientalistas.
Soluções de limpeza dos oceanos
Um sistema idealizado originalmente pelo adolescente holandês Boyan Slat, agora engenheiro e fundador da fundação The Ocean Cleanup, pretende limpar a Grande mancha de lixo do Pacífico.
A máquina foi capaz de capturar e reter detritos que variam em tamanho, desde enormes equipamentos de pesca abandonados, conhecidos como "redes fantasmas", até pequenos microplásticos de até 1 milímetro.
Cientistas chineses desenvolveram um pequeno peixe-robô programado para recolher microplásticos dos mares enquanto nadam.
Um robô em forma de peixe que consegue recolher pequenos pedaços de resíduos plásticos foi desenvolvido por cientistas da Universidade de Sichuan, na China, segundo um estudo. Com 13 mm de comprimento, as pequenas máquinas atraem as moléculas que constituem os microplásticos, fazendo com que estes se agarrem ao corpo do robô.

