A escolha de María Corina Machado como vencedora do Prémio Nobel da Paz surpreende e, segundo os jornalistas Rui Cardoso e Luís Ribeiro, traz embaraço a Donald Trump. Ambos consideram que o galardão foi uma forma de sublinhar a importância do Estado de Direito e das liberdades democráticas, em oposição aos populismos autoritários que ameaçam o equilíbrio global.
Para Rui Cardoso, “é curiosa esta decisão". Distinguir Maria Corina Machado “significa, objetivamente, pôr em causa o regime ditatorial que está estabelecido na Venezuela e que, como se sabe, é inimigo de Trump e Trump é inimigo deles".
“Algumas daquelas palavras dirigidas ao regime da Venezuela, nomeadamente a supressão da oposição política, da liberdade de imprensa, da livre expressão de opiniões, também assentariam maravilhosamente ao regime de Putin na Ucrânia”.
A escolha do Comité Nobel “é cirurgicamente dirigida a Trump quando se diz que o respeito pelo Estado de Direito, pelas regras básicas da democracia e pelos direitos humanos são as condições da democracia”.
Rui Cardoso lembra que “Trump, no plano interno, quer militarizar a vida política americana, quer transformar os seus adversários políticos em inimigos internos”. Esse projeto político é “o oposto de tudo aquilo que o Comité Nobel quis destacar”.
Ao colocar a democracia como condição da paz, o Comité “carregou e sublinhou várias vezes essa questão”, contrastando-a com o lema de Trump - “a paz pela força, uma ideia recuperada de Ronald Reagan, mas que, no caso de Trump, não tem princípio, meio nem fim, nem qualquer coerência diplomática”.
Trump perde contra uma mulher: “Uma dor acrescida para Trump”
Luís Ribeiro vê o prémio como um golpe duplo para o Presidente norte-americano, mas “por outro lado, é verdade que Maria Corina Machado é adversária de um regime que os Estados Unidos ainda recentemente apontaram como um regime a derrubar”.
“Isto vai ser uma dor acrescentada para Donald Trump porque ele perde contra uma mulher. Ora, isto, para um misógino empedernido como ele, custa-lhe (...) Na cabeça dele, ele acha que perdeu contra uma mulher, o que agrava um pouco a dor. Por outro lado, é uma mulher que luta por uma coisa que ele também defendeu, que é a queda do regime de Nicolás Maduro".
O analista recorda que Washington “dobrou a recompensa sobre a cabeça de Maduro, que os Estados Unidos acusam de ser o cabecilha de um cartel”.
“Não foi Trump quem ganhou, mas foi uma pessoa que luta por uma das causas que ele próprio também apontou como prioridade do seu mandato. Nesse sentido, é um mal menor.”
Trump "nunca poderia ser um candidato sério"
Luís Ribeiro destaca também que “houve um grande cuidado do Comité Nobel ao dizer que a decisão já tinha sido tomada na segunda-feira”, o que exclui a possibilidade de o acordo entre Israel e o Hamas ser considerado este ano.
“Não faria sentido, nunca poderia ser um candidato sério. Para não falar do falhanço total na guerra da Rússia na Ucrânia. Ele estendeu a passadeira vermelha a Putin e não serviu de nada".
Rui Cardoso lembra que os precedentes históricos também contrariam as pressas de Trump:
“Em 1993, quando houve os acordos de Oslo, as pessoas envolvidas - Arafat, Rabin e Shimon Peres - só receberam o prémio no ano seguinte. Talvez o Sr. Donald Trump e as pessoas que ficam muito nervosas por não ter tido o prémio vejam a história dos prémios e percebam. Se quiserem perceber, bem entendido.”
A mensagem do Comité Nobel
Para ambos os analistas, a mensagem é inequívoca: premiar Maria Corina Machado é reafirmar a centralidade da democracia como condição para a paz.
“O Comité Nobel pôs, de facto, o dedo na ferida: é uma boa notícia para o mundo - e uma má notícia para Trump”, resume Rui Cardoso.
