Um grupo de investigadores Stanford Medicine desenvolveu um modelo de IA que prevê se um doador morrerá dentro do período crítico em que seus órgãos são viáveis para transplante. Estudo demonstrou eficácia na redução em 60% de "colheitas fúteis" em comparação com a tomada de decisão humana.
Em causa a janela de tempo que os cirurgiões têm entre a retirada do suporte de vida de um doador e a morte do mesmo para que a colheita seja bem sucedida. Ou seja, nos EUA, onde o estudo foi realizado, a maioria das doações de fígado é interrompida quando o tempo de isquemia quente (período de tempo desde que o órgão é privado de sangue, oxigénio e nutrientes, enquanto o metabolismo celular continua) do doador excede os 30 a 60 minutos.
Quando isto acontece, há uma colheita que acaba por ser cancelada resultando em custos desnecessários e desperdício de recursos. Para evitar isso mesmo, foi desenvolvido este modelo tendo um estudo, publicado na revista Lancet Digital Health, analisado a sua eficácia. A ferramenta de IA foi treinada com base em dados de 2.221 doadores de órgãos de seis centros nos EUA.
O modelo utiliza dados neurológicos, respiratórios e circulatórios para prever a progressão da doença num potencial doador e obteve maior precisão do que modelos anteriores e do que a análise de especialistas humanos. Foi testado retrospetivamente e prospetivamente, conseguindo uma redução de 60% nas colheitas desnecessárias em comparação com as previsões dos cirurgiões.
A ferramenta mantém ainda a precisão mesmo quando há ausência de informações do doador, afirmaram os investigadores.
“Ao identificar quando um órgão será útil antes de qualquer preparação para a cirurgia ter começado, este modelo pode tornar o processo de transplante mais eficiente”, disse Kazunari Sasaki , professor clínico de transplante abdominal e autor sénior do estudo.
Sasaki acredita ainda que a ferramenta “tem o potencial de permitir que mais candidatos que precisam de um transplante de órgão o recebam”.
Em Portugal não há este tipo de colheita, mas médicos querem mudança
Ao contrário dos EUA, em que a colheita de órgãos pode ser feita quando um doador é retirado do suporte de vida (de forma controlada), em Portugal a colheita só pode acontecer em doadores em morte cerebral e, desde 2013, em paragem circulatória não controlada. Mas os médicos querem avanços.
A Ordem dos Médicos apresentou uma proposta de alteração à lei que permita a colheita de órgãos 'post-mortem' em paragem cardiorrespiratória controlada, estimando abrandar o aumento das listas de espera por transplantes.
O tema esteve em debate em maio na Ordem dos Médicos (OM), no âmbito da Jornada de Esclarecimento Maastricht III, evento promovido pela Comissão para Regulamentação da Colheita de Órgãos em Dador em Paragem Cardio-Circulatória Controlada (Maastricht III) da OM.
O bastonário da OM, Carlos Cortes, afirmava então que esta já é "uma discussão que tem mais de 10 anos" e "é algo" que já é feito em vários países europeus, como Espanha, Reino Unido, França, Bélgica, bem como no Canadá e nos Estados Unidos.
