A visita de Cristiano Ronaldo à Casa Branca esta tarde deve ser lida sobretudo como estratégia diplomática da Arábia Saudita, segundo o jornalista e comentador da SIC Rui Cardoso, que salienta a hipótese de negociações de caças F-35. O comentador analisa também o acordo de 10 anos entre a França e a Ucrânia e a decisão do Conselho de Segurança da ONU sobre o plano de paz para Gaza.
“É a Arábia Saudita a mostrar os seus trunfos. Um desses trunfos é, obviamente, Cristiano Ronaldo, que é uma marca internacional com presença e com valor”.
Poderia pensar-se que Ronaldo deveria ser como uma montra de Portugal, Rui Cardoso considera que "o problema é que ele joga secundariamente na seleção portuguesa e joga 90% do tempo naqueles clubes milionários da Arábia Saudita alimentados pelos petrodólares".
Donald Trump já mostrou vontade de interferir no Campeonato do Mundo de 2026, "querendo afastar jogos de cidades que ele acha que não têm condições de segurança, isso significa, na verdade, cidades que não são governadas por pessoas politicamente afetas a Trump”
"Trump não resiste a tentar meter o dedo naquilo que lhe deixarem”.
Venda de F-35 à Arábia Saudita e o impacto no Médio Oriente
Entre os temas que deverão marcar o encontro, Rui Cardoso destaca os caças F-35.
“A questão aí mais importante chama-se F-35. Se a Arábia Saudita vier a adquiri-los, isso altera o equilíbrio regional: a única potência regional que os tem é Israel, e tem servido deles da maneira que temos visto. Se porventura a Arábia Saudita os receber, isso causa enormes inquietações a Israel”.
O príncipe herdeiro saudita tem sido claro sobre o que exige em troca: “Tem que haver uma solução com dois Estados, tem que haver um Estado palestiniano, sem isso eles não entrarão em quaisquer negociações, nomeadamente reconhecimento diplomático de Israel.”
Espanha e França enviam sinal político a Putin
O comentador analisa também o acordo de 10 anos entre a França e a Ucrânia, que prevê a entrega de 100 caças Rafale, drones, sistemas de mísseis e defesas antiaéreas e a reunião entre Zelensky e o presidente do Governo espanhol, onde deverá ser discutido um reforço no apoio à Ucrânia
“Pelo menos a Espanha e a França mandam sinais fortes para Putin de que estão ao lado de Zelensky, enquanto Trump, ao não mandar nem um Tomahawk que fosse para a amostra, manda os sinais errados a Putin.”
Segundo o comentador, essa passividade encoraja Moscovo a prosseguir uma guerra “em que o crime de guerra não é exceção, mas é a norma”.
A força internacional para Gaza e o futuro Estado palestiniano
Sobre a aprovação, no Conselho de Segurança da ONU, do plano de paz de Donald Trump, Rui Cardoso destaca dois pontos.
"A coisa mais importante desta decisão do Conselho de Segurança, é que, primeiro, legitima a força internacional, e depois, segundo, liga a presença da força internacional à construção do futuro Estado palestiniano. E isso é que, novamente, provoca, tal como os F-35, potenciais para a Arábia Saudita, provoca choro e ranger de dentes em Israel, com Ben-Gvir, ministro dito da Segurança, a dizer que se houver um Estado palestiniano, se isso for aprovado nas Nações Unidas, que o melhor é começar-se com uma campanha de assassínios seletivos de dirigentes palestinianos, o que é bonito e edificante numa altura em que houve de facto concertação da parte inclusivamente da China e da Rússia que se abstiveram para deixar passar esta resolução".
