Donald Trump recebeu calorosamente o príncipe herdeiro saudita na Casa Branca, tentando ignorar o elefante na sala: o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em outubro de 2018, caso que destruiu a relações bilaterais entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita.
Esta foi a primeira vez que Mohammed bin Salman regressou à Sala Oval em sete anos, desde que o jornalista residente nos Estados Unidos, crítico do governo saudita, foi assassinado num consulado da Arábia Saudita em Istambul. O corpo foi desmembrado e nunca foi encontrado.
Apesar de ter sido diretamente acusado pelos serviços americanos de encomendar o homicídio, Mohammed bin Salman sempre negou toda as acusações e nunca foi alvo de sanções por parte de Washington.
Esta terça-feira, Trump defendeu o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e garantiu que este nada sabe sobre o caso. O Presidente norte-americano não gostou da pergunta de uma jornalista e pediu-lhe que não embaraçasse o convidado.

Mohammed bin Salman "não sabia de nada"
Depois de questionar a jornalista sobre para quem trabalhava e receber como resposta "ABC News", o Presidente classificou o canal como “notícias falsas”.
“Está a mencionar alguém [Jamal Khashoggi] que era extremamente controverso. Muitas pessoas não gostavam desse senhor de quem está a falar, quer gostasse dele ou não. Aconteceram coisas, mas ele [Mohammed bin Salman] não sabia de nada. E podemos deixar as coisas assim. Não precisa de embaraçar os nossos convidados com perguntas como essa.”
Por sua vez, Mohammed ben Salman disse que a morte do jornalista foi dolorosa e que a Arábia Saudita fará tudo o que está ao seu alcance "para que não volte a acontecer".
Depois de a mesma jornalista ter feito também perguntas sobre os negócios da família Trump na Arábia Saudita e o escândalo Jeffrey Epstein, Presidente norte-americano ameaçou mesmo revogar a licença da ABC News.
Viúva de Khashoggi ficou "perturbada" com palavras de Trump
Jamal Khashoggi, de 60 anos, entrou no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, no dia 2 de outubro, para obter um documento para se casar com uma cidadã turca e nunca mais foi visto.
A noiva do jornalista considerou o encontro de terça-feira entre Trump e Mohammed bin Salman “muito doloroso”.
Numa entrevista à CNN, Hanan Elatr Khashoggi lamentou as declarações do Presidente norte-americano: “A sua justificação para o crime perturba-me, uma vez que nada justifica um crime horrível, sequestro, tortura e assassinato e desmembramento de um corpo porque é uma pessoa controversa ou porque alguém não gosta dele... Isso não dá motivo a nenhum criminoso para tirar a vida de uma pessoa inocente.”

“Senti-me muito mal porque ele descreveu outra pessoa, não o Jamal. E espero um dia encontrar-me com o presidente Trump e apresentar-lhe o verdadeiro Jamal e partilhar com ele quem era realmente o Jamal. Como ele era transparente, corajoso, um grande homem.»
Em dezembro de 2019, cinco homens sauditas foram condenados à morte e outros três a penas de prisão, por um tribunal em Riade, tendo as penas de morte sido comutadas em setembro de 2020.
Um retomar das relações?
Além de receber o príncipe saudita, Trump deu vários passos em prol da recuperação das relações entre os dois países.
Em maio já tinha anunciado ter escolhido a Arábia Saudita como destino da primeira grande viagem ao exterior e agora anunciou que vai elevar da Arábia Saudita ao estatuto de principal aliado externo da NATO, categoria reservada a países com os quais Washington mantém uma estreita cooperação militar e estratégica.
Isto quando seu sucessor, o democrata Joe Biden, começou porém por prometer tratar o príncipe herdeiro como um "pária", embora tenha mudado de posição e se tenha encontrado com ele na capital saudita em 2023.

