Tiros de armas ligeiras e de guerra foram ouvidos ao início da tarde no centro de Bissau, capital da Guiné-Bissau, nomeadamente junto ao palácio presidencial. O Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, foi detido, adianta a revista francesa Jeune Afrique.
A informação foi transmitida pelo Chefe de Estado da Guiné-Bissau à publicação gaulesa. Sissoco Embaló afirma que foi detido por volta do meio-dia (hora local, a mesma de Portugal continental), enquanto estava no seu gabinete no palácio presidencial.
A mesma fonte revela que o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, General Biague Na Ntan, o vice-Chefe do Estado-Maior, General Mamadou Touré, e o ministro guineense do Interior, Botché Candé, também foram capturados. Todos estão detidos no quartel-general do Estado-Maior, de acordo com a publicação.
Militares terão tomado o poder
Segundo um comunicado das Forças Armadas guineenses, os militares tomaram o poder na Guiné-Bissau. O comunicado foi lido na televisão estatal guineense TGB pelo porta-voz do Alto Comando Militar, Dinis N´Tchama, que informa que os militares assumiram a liderança do país.
Na comunicação informa-se que foi "instaurado pelas altas chefias militares dos diferentes ramos das Forças Armadas, o Alto Comando Militar para a restauração da segurança nacional e ordem pública" e que o mesmo "acaba de assumir plenitude dos poderes de Estado da República da Guiné-Bissau".
O Alto Comando Militar informa que depôs o Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, e que encerrou, "até novas ordens, todas as instituições da República da Guiné-Bissau". Informa ainda que estão suspensas "as atividades de todos os órgãos de comunicação social", assim como decidiu "suspender imediatamente o processo eleitoral em curso".
Fronteiras encerradas e recolher obrigatório
Os militares encerraram também todas as fronteiras do país, terrestres, marítimas e espaço aéreo nacional, e estabeleceram "recolher obrigatório das 19:00 até 06:00, até repostas as condições necessárias para restaurar a normalidade constitucional do Estado guineense".
No comunicado, explica que se trata de uma reação "à descoberta de um plano em curso de destabilização do país", atribuído a "alguns políticos nacionais com a participação de conhecidos barões de droga nacionais e estrangeiros".
Segundo os militares, o plano consistiria na "tentativa de manipulação dos resultados eleitorais" das eleições gerais de domingo, cuja divulgação estava agendada para quinta-feira.
O Alto Comando Militar acrescenta que "foi descoberto pelo Serviço de Informação de Estado um depósito de armamento de guerra" destinado à "efetivação desse plano".
O Alto Comando Militar exercerá o poder do Estado a contar da data de hoje "até que toda a situação seja convenientemente esclarecida e respostas as condições para o pleno retorno à normalidade constitucional", acrescenta.
Os militares apelam "à calma, à colaboração dos guineenses e compreensão de todos perante" o que classificam como "grave situação imposta por uma emergência nacional".
Eleições de domingo ainda sem resultados oficiais
A Guiné-Bissau aguarda os resultados oficiais das eleições gerais, presidenciais e legislativas, de domingo, realizadas no domingo e e nas quais ambos os principais candidatos - Sissoco Embaló e o líder da oposição, Fernando Dias - reivindicaram a vitória.
Na terça-feira, e já depois de o candidato Fernando Dias se ter declarado vencedor das eleições sem necessidade de uma segunda volta, o porta-voz da candidatura de Sissoco Embaló, Óscar Barbosa, disse igualmente que "tudo indica que não haverá segunda volta", mas não adiantou os resultados alcançados pelo então Presidente da República.
Em declarações feitas antes do golpe de Estado em curso, Óscar Barbosa exortou os guineenses "a manterem serenidade e que aguardem pela divulgação dos resultados das eleições pela Comissão Nacional de Eleições, a ser feita na quinta-feira".
Governo português em “contacto permanente” com a embaixada
O Governo português reagiu entretanto aos acontecimentos que “interromperam o curso da normalidade constitucional na Guiné Bissau". Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, tutelado por Paulo Rangel, apela “a que todos os envolvidos se abstenham de qualquer ato de violência institucional ou cívica” e que seja retomado “o processo de apuramento e proclamação dos resultados eleitorais”.
“O Governo está em contacto permanente com a embaixada portuguesa em Bissau, para se assegurar da situação dos cidadãos portugueses e, bem assim, da população em geral”, refere o comunicado.
Segundo a Statista, plataforma especializada que reúne dados e estatísticas sobre diversas áreas e setores, desde a independência, em 1974, até 2021, a Guiné-Bissau testemunhou pelo menos 19 tentativas de golpe de Estado, das quais quatro foram bem sucedidas.
Com Lusa
