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Peter Mandelson deixa Câmara dos Lordes após investigação a ligações a Epstein

As revelações incluem transferências de 75.000 dólares de Epstein para contas ligadas a Mandelson e o encaminhamento de emails internos confidenciais. O primeiro-ministro, Keir Starmer, afirmou que Mandelson "desiludiu o país" e ordenou uma análise completa dos contactos entre ambos. 

Peter Mandelson deixa Câmara dos Lordes após investigação a ligações a Epstein
Jaimi Joy

O político britânico Peter Mandelson vai abandonar voluntariamente a Câmara dos Lordes na sequência de alegações de que passou informações confidenciais ao milionário pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein, as quais estão a ser investigadas pela polícia, foi divulgado esta terça-feira.

O presidente da Câmara dos Lordes, Michael Forsyth, leu, na tarde desta terça-feira, uma declaração a confirmar a intenção de Mandelson de retirar-se da câmara alta do parlamento britânico a partir de quarta-feira.

A notícia foi conhecida horas após o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, ter dito, durante o Conselho de Ministros, esta feira de manhã, que o ex-embaixador do Reino Unido em Washington "desiludiu o país" ao envolver-se com o influente milionário norte-americano Jeffrey Epstein, acusado de abuso sexual e tráfico de mulheres, várias das quais menores de idade.

Keir Starmer também tinha ordenado a preparação rápida de legislação para poder retirar a Peter Mandelson o seu lugar na Câmara dos Lordes, acrescentou o porta-voz.

Mandelson foi nomeado para a câmara alta do parlamento em 2008, mas suspendeu funções no final de janeiro de 2025, após a nomeação para embaixador britânico nos Estados Unidos, posição da qual foi demitido oito meses depois, em setembro, devido a revelações sobre as ligações a Epstein.

Mandelson terá passado informações quando era ministro

De acordo com documentos publicados na sexta-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Mandelson terá passado informações confidenciais a Epstein enquanto era ministro do Comércio do então governo britânico trabalhista de Gordon Brown, ao encaminhar um 'email' interno em 2009 destinado ao primeiro-ministro sobre a situação económica.

Em outra troca de 'emails' de 2009 revelada pelo jornal Financial Times, Peter Mandelson parece sugerir a Epstein que peça ao chefe do banco JPMorgan para "ameaçar ligeiramente" o então ministro das Finanças britânico, Alistair Darling, a fim de obter uma redução do imposto sobre os bónus dos banqueiros.

Extratos bancários mostram ainda que Jeffrey Epstein terá transferido um total de 75.000 dólares (63.200 euros) em três fases para contas ligadas a Mandelson em 2003 e 2004.

Peter Mandelson, que na altura era deputado, afirmou no domingo não se lembrar dessas transferências e não saber se esses extratos eram autênticos.

O antigo político também afirmou que "não consegue localizar o local nem identificar a mulher" cujo rosto foi ocultado pelas autoridades norte-americanas e que aparece ao seu lado numa foto sem data, na qual ele aparece de camisa e cuecas.

"Para o público, ouvir figuras políticas dizerem que não se lembram de ter recebido ou não grandes somas de dinheiro é simplesmente espantoso. Isso faz com que percam a confiança", afirmou o porta-voz de Keir Starmer.

Os documentos marcam uma nova etapa na queda daquele que foi um dos arquitetos do 'New Labour' (novo Partido Trabalhista) com Tony Blair.

Mandelson deixou o Partido Trabalhista

Peter Mandelson anunciou no domingo à noite que deixava o Partido Trabalhista para não "causar mais vergonha" ao partido, liderado pelo atual primeiro-ministro, Keir Starmer.

Este último ordenou na segunda-feira uma "análise" completa e urgente dos contactos entre Peter Mandelson e Jeffrey Epstein durante o período em que foi ministro, ou seja, de 2008 a 2010.

A polícia britânica anunciou também que iria analisar denúncias sobre alegados factos de "má conduta no exercício de funções públicas" com a ajuda do Governo, que já referiu material suspeito por conter informações confidenciais relacionadas com a crise financeira de 2008 e medidas para estabilizar a economia.

Por seu lado, a Comissão Europeia anunciou, esta terça-feira, que iria "analisar" se Peter Mandelson, que foi comissário europeu para o Comércio entre 2004 e 2008, infringiu determinadas regras da instituição.

Epstein morreu a 10 de agosto de 2019 numa prisão federal de Nova Iorque, após ter sido acusado de múltiplos crimes de tráfico sexual de jovens mulheres e raparigas menores de idade que poderiam resultar numa pena de prisão de até 45 anos.

Com Lusa