Guerra Rússia-Ucrânia

Cinco perguntas e respostas para perceber o conflito entre Rússia e Ucrânia

O envio de tropas para as fronteiras da Ucrânia fizeram soar o alarme no Ocidente. Como chegamos até aqui e que poder militar têm os dois países em caso de invasão?

Cinco perguntas e respostas para perceber o conflito entre Rússia e Ucrânia

A tensão entre a Ucrânia e a Rússia tem vindo a aumentar de dia para dia. Vladimir Putin teve a autorização do Senado para enviar tropas russas para fora do país. O Ocidente respondeu com sanções e os EUA ordenaram uma nova movimentação de tropas para o Báltico.

Importa saber como chegamos até aqui, quais as motivações de Putin, o que se passou nos territórios separatistas pró-russos e qual o poder militar dos dois países.

Porque é que Putin enviou militares para a fronteira?

Desde o fim da Guerra fria, a NATO expandiu-se para o Leste, incorporando 14 novos países, entre os quais três países do antigo Pacto de Varsóvia, a República Checa, Hungria e Polónia, e outros três que fizeram parte da União Soviética – a Lituânia, Estónia e Letónia.

A Rússia olhou para a adesão desses países, alguns cujos territórios são contíguos à Rússia, como pode ver no mapa, como um perigo iminente às suas fronteiras.

A Ucrânia não é membro da NATO, mas tem um compromisso desde 2008 para uma possível adesão. Desde a queda do Presidente ucraniano pró-Rússia Víktor Yanukóvytch, em 2014, a Ucrânia aproximou-se politicamente do Ocidente. Realizou exercícios militares conjuntos com a NATO e recebeu armas dos Estados Unidos e drones da Turquia.

Kiev e os EUA olham para estas manobras como movimentos legítimos para reforçar a defesa da Ucrânia depois da crise da Crimeia em 2014. No entanto, Putin vê com perigo a aproximação da Ucrânia à NATO. Segundo o Presidente russo, a NATO pode usar o território ucraniano para atacar Moscovo e, por isso, tem defendido linhas vermelhas para evitar um ataque.

Foi com base nestes argumentos que Putin enviou milhares de militares para a fronteira entre os dois países, negando, contudo, estar a preparar uma invasão à Ucrânia. O Presidente russo alegou que o posicionamento das tropas russas é uma resposta a ameaças e provocações. Vladimir Putin quer garantir que a Ucrânia não adere à NATO.

Os Estados Unidos estimam que, neste momento, a Rússia tem provavelmente entre 169.000 e 190.000 soldados destacados dentro e junto à fronteira da Ucrânia.

O que pode ter motivado Putin a avançar agora?

Putin, que chegou a chamar à dissolução da União Soviética a maior catástrofe geopolítica do século passado, dedicou a sua Presidência a restaurar a influência de Moscovo em todo o espaço pós-soviético, desafiando o Ocidente e tentando reafirmar a Rússia como uma potência global.

As declarações públicas de Putin sobre a Ucrânia sugerem que as suas ações não são apenas motivadas por jogadas políticas, mas também por convicções pessoais. A Ucrânia esteve envolvida nos pontos altos e baixos da Presidência de Putin – as revoluções pró-ocidentais em 2004 (as chamadas “revoluções coloridas”) e 2014 (com a queda do Presidente ucraniano pró-russo) foram golpes nos interesses russos, mas a tomada da Crimeia foi apresentada por Putin como uma vitória histórica.

Após 22 anos como líder da Rússia, alguns analistas acreditam que Putin pode estar a refletir sobre o seu legado e a tentar fechar assuntos inacabados com a Ucrânia.

O que se passa em Donetsk e Lugansk?

O Presidente russo assinou esta segunda-feira um decreto a reconhecer a independência de duas regiões separatistas no leste da Ucrânia – Donetsk e Lugansk, conhecidas como Donbass. Estas regiões proclamaram-se como repúblicas independentes em 2014 e romperam com o controlo do governo ucraniano.

Desde então, a Ucrânia diz que que cerca de 15.000 pessoas foram mortas em combates nestes territórios, com os separatistas a serem apoiados pelo regime de Moscovo. Também a Organização das Nações Unidas (ONU) reiterou que o conflito já custou 13 mil vidas, entre as quais mais de três mil civis.

(Photo by ANATOLII STEPANOV/AFP via Getty Images)

A Rússia nega, no entanto, fazer parte do conflito, mas tem apoiado os separatistas de forma secreta com equipamento militar, ajuda financeira, emissão de passaportes e até com vacinas anti-covid-19.

Esta foi a primeira vez que a Rússia não considerou Donbass como parte da Ucrânia.

As agências internacionais avançaram que tropas russas entraram, esta segunda-feira à noite, em Donbass. Os decretos assinados pelo Presidente da Rússia ordenam a mobilização do Exército para os territórios separatistas pró-russos no leste da Ucrânia para uma “manutenção da paz”.

Putin já tinha reconhecido a independência de duas regiões separatistas da Geórgia – Abkhazia e Ossétia do Sul -, depois de travar uma curta guerra com o país em 2008. O Presidente russo forneceu amplo apoio financeiro às regiões e estendeu a cidadania russa à população.

Como é que as sanções podem atingir a Rússia?

Esta terça-feira, o Presidente dos Estados Unidos anunciou sanções à Rússia. Joe Biden informou que irá aplicar sanções à Rússia e às elites políticas russas, que vão “mais além do que os aliados implementaram em 2014”, para além do bloqueio do gasoduto Nord Stream 2, decidido em conjunto com a Alemanha.

O Reino Unido deu o pontapé de saída: cinco bancos russos (Rossiya, IS Bank, General Bank, Promsvyazbank e Black Sea Bank) serão alvo de sanções. O Banco Rossiya já está sob sanções dos EUA desde 2014 pelos seus laços estreitos com funcionários do Kremlin.

Na mira dos britânicos estão também três oligarcas russos. Gennady Timchenko e os bilionários Igor e Boris Rotenberg, cujas fortunas cresceram vertiginosamente após a ascensão de Putin no poder, também vão ser alvo de sanções. Os três homens já são sancionados pelos EUA.

A União Europeia também já deu o aval final à lista de sanções europeias à Rússia, após o reconhecimento russo de territórios separatistas no leste ucraniano, anunciou a presidência francesa do Conselho.

Em concreto, as sanções aprovadas abrangem 27 indivíduos e entidades dos setores político, militar, empresarial e dos media, além de cerca de 350 membros da câmara baixa do parlamento russo (Duma).

No que toca às sanções financeiras, preveem-se restrições às relações económicas da UE com as duas regiões separatistas, de Donetsk e Lugansk, bem como limites à capacidade de o Estado russo aceder aos mercados de capitais e financeiros da UE, especificou Josep Borrell.

(AP)

O Canadá também já anunciou uma “série” de sanções. Irá proibir os cidadãos de realizarem quaisquer transações para os territórios separatistas pró-russos, irá impor sanções aos parlamentares russos que votaram a favor da “decisão ilegal de reconhecer os territórios” e irá proibir a população de participar em compras de dívida russa.

Qual é o poder militar russo em relação ao da Ucrânia?

As Forças Armadas da Ucrânia estão em grande desvantagem numérica em relação à Rússia. No entanto, os especialistas militares acreditam que as forças ucranianas seriam capazes de resistir e inflingir baixas se a Rússia decidisse invadir o país.

O exército da Ucrânia está mais equipado e bem treinado do que em 2014, altura em que a Rússia capturou a península da Crimeia da Ucrânia sem luta. Os soldados ucranianos também são vistos como altamente motivados para defender o coração do país.

De acordo com dados do IISS, Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, a Rússia tem 900 mil militares ativos, enquanto a Ucrânia conta apenas com 196 mil militares.

Também na Marinha, há uma desequilíbrio entre os dois países. A Rússia conta com 74 navios de guerra e 51 submarinos. A Ucrânia tem apenas dois navios de guerra.

Relativamente à Força Aérea, Putin tem ao seu dispor dez vezes mais aviões de tanque e helicópteros do que a Ucrânia.

Na reserva – aqueles que receberam treino militar nos últimos cinco anos – a Ucrânia tem 900 mil militares e a Rússia tem dois milhões.

Segundo a Sky News, alguns analistas acreditam que um ataque russo à Ucrânia aconteceria com armamento de longo alcance. E, mais uma vez, a Rússia tem vantagem: o país tem mais de 500 lançadores de mísseis balísticos.

Vários países da União Europeia, Estados Unidos e Reino Unido têm fornecido ajuda militar e armas à Ucrânia para melhorar a sua “capacidade defensiva”.