Donald Trump fez, na noite desta quarta-feira (madrugada de quinta-feira em Portugal), uma declaração à nação dos Estados Unidos da América. Não anunciou uma guerra contra a Venezuela - como se esperava depois das declarações do apresentador de TV Tucker Carlson - mas fez uma espécie de balanço do ano, com duras críticas aos democratas e uma série de promessas à população.
As declarações foram feitas num momento em que os EUA se preparam para celebrar as festas de fim de ano, mas o Presidente norte-americano manifestou-se mais focado nas divisões internas no país do que num sentimento de unidade.
Ataque aos imigrantes e a Biden
Trump iniciou a declaração com um ataque contra os imigrantes e o anterior governo dos Estados Unidos, alegando que os primeiros 11 meses de mandato trouxeram as maiores "mudanças positivas" da história. Em apenas alguns meses, "passámos do pior para o melhor", graças às deportações em massa, disse o Presidente.
"O nosso país era motivo de chacota em todo o mundo, mas já não se estão a rir. Nos últimos 11 meses, realizámos mais mudanças positivas em Washington do que qualquer outra administração na história dos Estados Unidos. Nunca houve nada igual", garantiu Trump.
O republicano comparou a atual política de imigração com a da anterior administração democrata, que acusou de ter inundado cidades com imigrantes indocumentados e de ter libertado criminosos violentos. Sem apresentar qualquer prova, Trump afirmou ter fechado a fronteira sul com o México e que nenhum imigrante ilegal entrou nos Estados Unidos nos últimos sete meses.
Trump promete "boom económico como o mundo nunca viu"
O discurso repetiu várias das mensagens recentes do Presidente dos Estados Unidos, que até agora não conseguiram acalmar a ansiedade do público em relação ao custo dos alimentos, habitação, serviços públicos e outros bens básicos.
Ladeado por duas árvores de Natal e com um retrato de George Washington por detrás, o discurso proferido na Sala de Receção Diplomática da Casa Branca procurou atribuir ao seu antecessor, Joe Biden, todas os desafios que a economia enfrenta.
"Há onze meses, herdei uma trapalhada e estou a consertá-la", disse Trump. "Estamos prestes a ter um 'boom' económico como o mundo nunca viu", acrescentou, embora a inflação permaneça elevada e o mercado de trabalho tenha enfraquecido na sequência da imposição de impostos sobre as importações.
Reformas "agressivas" na habitação
O chefe de Estado falou em ritmo acelerado e tentou responder à frustração pública com a economia, fazendo promessas ousadas sobre o crescimento no próximo ano, dizendo que as taxas sobre as hipotecas irão cair e que "anunciará algumas das reformas no setor da habitação mais agressivas da história americana".
Trump trouxe gráficos para mostrar que a economia está em trajetória ascendente, fez afirmações sobre o crescimento dos rendimentos, desaceleração da inflação e influxo de investimentos no país, alegando que líderes estrangeiros lhe garantiram que os Estados Unidos é o "país mais promissor do mundo", uma afirmação que o Presidente tem repetido em eventos públicos.
Afinal, como está a economia?
A matemática dura internalizada pelo público pinta, ao contrário do que anuncia Trump, um quadro mais adverso, de uma economia com alguma estabilidade, mas poucos motivos para inspirar confiança.
O mercado de ações está em alta, os preços da gasolina estão em baixa e as empresas de tecnologia estão a apostar fortemente no desenvolvimento da inteligência artificial. Mas a inflação, que vinha a diminuir após atingir o nível mais alto em quatro décadas em 2022 sob o governo Biden, voltou a acelerar depois de Trump declarar ao mundo uma guerra tarifária em abril.
O índice de preços ao consumidor está a aumentar a uma taxa anual de 3%, acima dos 2,3% registados desde o "Dia da Libertação" em 2 de abril, quando Trump anunciou impostos às importações de produtos de praticamente todo o mundo, que mais tarde suspendeu e reajustou sucessivamente ao longo dos meses seguintes.
Salários e desemprego
Mais tarde, Trump concentrou-se em citar algumas das conquistas económicas, alegando que "os salários estão a subir mais rapidamente do que a inflação" e que os preços de muitos serviços e produtos diminuíram, mencionando exemplos como uma "queda de 22% nos preços dos automóveis" e a gasolina a 2,5 dólares (2,13 euros) por galão (3,8 litros).
O salário mediano nos Estados Unidos subiu 3,5% em novembro, em comparação com igual mês de 2024, mais do que a inflação homóloga de 3%. No entanto, foi o aumento anual nos salários mais baixo desde maio de 2021.
No trabalho, a taxa de desemprego subiu de 4% em janeiro para 4,6% atualmente, mas Trump diz que os compromissos de investimento em novas fábricas impulsionarão os empregos na indústria e que o consumo ganhará um novo estímulo quando as pessoas receberem maiores restituições de impostos no próximo ano.
Cheques para militares "já estão a caminho"
O chefe de Estado sugeriu que as tarifas - que são parcialmente responsáveis pelo aumento dos preços ao consumidor - financiariam um novo "dividendo do guerreiro" que abrangerá 1,45 milhões de militares, traduzindo-se num pagamento que pode aliviar algumas dificuldades financeiras sentidas por muitas famílias.
O valor de 1.776 dólares constitui uma referência ao 250.º aniversário da assinatura da Declaração da Independência no próximo ano. "Os cheques já estão a caminho", anunciou Trump.
Trump enfrenta referendo em 2026
A popularidade de Trump junto do eleitorado tem vindo a cair sustentadamente e os votos de boas festas surgem num momento particularmente sombrio. Em 2026, Trump e o Partido Republicano enfrentam um referendo sobre a liderança do inquilino da Casa Branca, nas eleições intercalares, que decidirão o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado.
O discurso desta quarta-feira ofereceu uma oportunidade a Trump para tentar recuperar algum ímpeto, depois das derrotas republicanas nas eleições deste ano.
Com LUSA