Olhares pelo Mundo

Abate de 12 babuínos saudáveis reacende debate sobre bem-estar animal em jardins zoológicos

O Jardim Zoológico de Nuremberga, na Alemanha, decidiu abateu 12 babuínos-da-Guiné saudáveis por questões de falta de espaço que estavam a comprometer o bem-estar dos animais. O caso voltou a expor as tensões entre conservação animal e limites éticos nos parques zoológicos europeus.

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Após cerca de um ano e meio de debate e análise da situação, os 12 babuínos-da-Guiné foram abatidos esta semana. A direção do Jardim Zoológico de Nuremberga afirma que a medida, tomada “com pesar”, foi necessária para garantir o bem-estar do grupo restante e respeitar a legislação de proteção animal. O problema da sobrepopulação já era conhecido há vários anos, com tentativas anteriores de transferir animais para outros jardins zoológicos e de controlar a reprodução através de contraceção, esta última sem sucesso.

O recinto destinado aos babuínos-da-Guiné, inaugurado em 2009, foi projetado para acolher até 25 indivíduos e respetiva descendência. A população ultrapassava recentemente os 40 animais, o que, segundo os responsáveis do zoo, estava a gerar conflitos internos e a comprometer o equilíbrio do grupo.

Ativistas tentam travar abates e são detidos

Na manhã de terça-feira, 29 de julho, o Jardim Zoológico de Nuremberga foi encerrado ao público por “motivos operacionais”. Poucas horas depois, sete ativistas escalaram o muro exterior e uma mulher colou as mãos ao chão numa tentativa simbólica de impedir o abate. A polícia interveio rapidamente e deteve o grupo junto à entrada principal.

A confirmação da morte dos animais chegou ainda nessa tarde. Em conferência de imprensa, o subdiretor do Jardim Zoológico, Jörg Beckmann, explicou que os 12 babuínos "foram mortos com um disparo". Os corpos foram levados para recolha de amostras biológicas destinadas à investigação científica e serão utilizados para alimentar predadores do próprio zoo.

O diretor do parque, Dag Encke, justificou a medida como uma forma de evitar entrar em conflito com a legislação alemã de bem-estar animal, uma vez que o número de animais excedia largamente a capacidade prevista para o recinto.

Queixa-crime e acusações de má gestão

A associação alemã de defesa dos animais Pro Wildlife apresentou uma queixa-crime contra a administração do zoológico, acusando-a de gestão reprodutiva negligente e de violar a lei de proteção animal.

“Esta matança era evitável e, do nosso ponto de vista, é ilegal”, afirmou Laura Zodrow, porta-voz da organização. “O zoo teve tempo e alternativas que não foram exploradas com a devida eficácia”, acrescentou.

Segundo a própria instituição, desde 2011 foram transferidos 16 babuínos para jardins zoológicos em Paris e na China, mas essas parcerias terão entretanto esgotado a sua capacidade. Tentativas de aplicar métodos de contraceção falharam e não conseguiram travar o crescimento do grupo.

Prática cada vez mais questionada

O caso de Nuremberga não é único. A prática de eutanásia de animais saudáveis continua a ser legal em vários países europeus e tem precedentes que geraram forte contestação. Um dos mais mediáticos ocorreu em 2014, quando o Zoo de Copenhaga, na Dinamarca, matou uma girafa saudável de dois anos, dissecou o corpo em frente a visitantes e ofereceu a carne a leões. O incidente causou uma onda de indignação internacional.

Especialistas alertam que a reprodução descontrolada e a falta de estratégias de gestão eficazes continuam a colocar os zoológicos em posições questionáveis. A morte de animais saudáveis levanta dúvidas sobre os limites éticos da gestão da vida em cativeiro.

O que deve ser um jardim zoológico hoje?

O abate dos babuínos em Nuremberga relança um debate que tem vindo a crescer: qual deve ser o papel dos jardins zoológicos numa sociedade que valoriza o bem-estar animal?Devem ser locais de entretenimento, conservação, educação - ou tudo isso, mas com regras mais claras e limites éticos mais firmes?

Num contexto em que muitos cidadãos consideram os animais como seres com direitos, torna-se difícil aceitar que decisões como esta possam ser tomadas com base apenas em critérios técnicos de gestão populacional. A pressão sobre estas instituições para encontrarem soluções mais éticas e sustentáveis está a aumentar, como se tornou evidente em Nuremberga.

Com Associated Press