Nas águas escuras e geladas do extremo sul do planeta, câmaras e algoritmos unem-se para revelar criaturas que o olhar humano nunca viu.
Cientistas do British Antarctic Survey (BAS) recorreram à inteligência artificial para transformar a forma como se explora o fundo do mar da Antártida. O que antes podia demorar anos a analisar é agora feito em segundos - e cada nova imagem pode revelar uma espécie que o mundo nunca viu.
Uma nova ferramenta desenvolvida pelo Laboratório de Inteligência Artificial do BAS promete mudar o ritmo da exploração científica. Capaz de processar fotografias e vídeos de alta resolução captados por câmaras subaquáticas, o sistema identifica e rotula rapidamente espécies de águas profundas, desde estrelas-do-mar e corais a esponjas e peixes, num ambiente onde quase tudo permanece desconhecido.
Treinado com base em 100 imagens cuidadosamente anotadas durante a expedição alemã RV Polarstern no Mar de Weddell, a profundidades entre 1.900 e 2.150 metros, o modelo de IA consegue ultrapassar obstáculos como organismos sobrepostos e a presença de espécies ainda não catalogadas em águas com temperaturas abaixo de zero.
O biogeógrafo marinho Huw Griffiths sublinha que a tecnologia representa um salto sem precedentes na monitorização da biodiversidade.
“Esta mudança drástica na velocidade com que processamos os dados através da IA significa que algo que recolhemos há dez anos ainda pode estar a ser processado hoje. Mas agora, se formos lá, podemos ter as respostas antes mesmo de regressarmos do navio — o que significa que podemos agir imediatamente, e os dados não estarão desatualizados quando soubermos o que está a acontecer”, disse Griffiths à Reuters.
Antes, a rotulagem manual podia demorar até oito horas por imagem. Agora, com supervisão humana, o sistema permite análises em tempo real a bordo dos navios de investigação.
“Sabemos que encontramos muitas espécies novas na Antártida. Dez a 20% dos animais que capturamos numa rede podem ser novos para a ciência, cada vez que descemos. Por isso, sabemos que este sistema vai encontrar novas espécies”, acrescentou o investigador.
A ameaça das alterações climáticas
O fundo marinho da Antártida alberga mais de 94% das espécies do Oceano Antártico, a maioria endémicas e perfeitamente adaptadas às condições extremas de gelo e escuridão.
Mas estas comunidades frágeis estão sob ameaça. Com o aquecimento dos oceanos e as atividades humanas a alterar os habitats, o sistema do BAS está agora a processar cerca de 30 mil imagens captadas na Península Antártica e no Mar de Weddell, para tentar perceber o que está a mudar.
Os investigadores alertam que os habitats correm o risco de perdas, agravando o declínio da biodiversidade global.
“São as mudanças nos números, as mudanças nas proporções — mas também qualquer coisa que não tenhamos visto antes, ou algo que costumávamos ver muito e entretanto desapareceu — que são sinais de alerta das alterações climáticas”.
