Alterações Climáticas

Recifes de coral ultrapassam ponto de não retorno: planeta entra em nova fase de colapso climático

Um relatório global de 160 cientistas alerta que o planeta está a ultrapassar os seus limites ecológicos. Os recifes de coral já entraram em colapso e outros ecossistemas poderão seguir-se nos próximos anos.

Corais brancos no recife da Costa dos Corais, em Japaratinga, Alagoas, Brasil
Corais brancos no recife da Costa dos Corais, em Japaratinga, Alagoas, Brasil
Jorge Silva / Reuters

O mundo está no limiar de uma “nova realidade” sob a influência das alterações climáticas. Segundo um estudo internacional publicado esta segunda-feira, os recifes de coral ultrapassaram quase certamente um ponto de viragem catastrófico, com efeitos em cadeia para milhões de pessoas e ecossistemas.

O Global Tipping Points Report, elaborado por uma equipa de 160 cientistas de 87 instituições e 23 países, analisa os principais “pontos de viragem” que podem empurrar o planeta para mudanças irreversíveis. Quando ultrapassados, estes limites podem desencadear um efeito dominó de desastres ambientais.

“Infelizmente, temos agora quase a certeza de que ultrapassámos um desses pontos de viragem para os recifes de coral tropicais”, disse à AFP o autor principal do estudo, Tim Lenton, cientista ambiental da Universidade de Exeter.

Recifes de coral em colapso

Com um aquecimento de +1,4°C face à era pré-industrial, os recifes “estão a sofrer um declínio sem precedentes”, afetando centenas de milhões de pessoas que deles dependem e ameaçando um milhão de espécies marinhas.

Os corais, que funcionam como barreiras naturais contra a erosão e são reservatórios de biodiversidade, estão a ficar brancos devido ao calor. Este evento de branqueamento resulta da expulsão dos microrganismos que lhes dão cor e alimento e, sem eles, os corais acabam por morrer de fome.

Loading...

Quando morrem, deixam apenas esqueletos que se degradam com o tempo. Desde 2023, os cientistas têm registado mortalidade “sem precedentes”, num episódio de branqueamento que já dura há dois anos.

A “zona de perigo”

Com o aquecimento global a aproximar-se dos +1,5°C em relação à era pré-industrial, a grande maioria dos recifes está condenada. Este limite, segundo os investigadores, poderá ser ultrapassado dentro de poucos anos se as emissões de gases com efeito de estufa não forem reduzidas de forma drástica.

Esse valor é precisamente o limite mais ambicioso do Acordo de Paris (2015), que o secretário-geral da ONU, António Guterres, considera “à beira do colapso”.

Ultrapassá-lo colocaria “o mundo numa zona de perigo ainda maior”, alerta Tim Lenton.

Outros ecossistemas em risco

Os cientistas alertam que outros sistemas vitais também estão próximos do ponto de rutura: o degelo de glaciares e das calotes polares, o colapso das correntes oceânicas e a morte da floresta amazónica.

A circulação meridional do Atlântico (AMOC), que transporta águas quentes para o norte e ajuda a regular o clima europeu, é uma das mais vulneráveis. O seu colapso poderia provocar invernos mais rigorosos na Europa, alterar os regimes de chuva na África Ocidental e na Índia e reduzir a produtividade agrícola em grande parte do planeta.

Os investigadores também concluem que o limite de temperatura que ameaça a Amazónia é menor do que se pensava - de 1,5°C. Mais de 100 milhões de pessoas dependem diretamente daquele ecossistema.

O relatório foi divulgado poucas semanas antes da COP30, que se realizará em Belém, no Brasil, em novembro. Antes da cimeira, os negociadores reúnem-se esta segunda e terça-feira em Brasília para preparar o encontro.

“Estamos a aproximar-nos rapidamente de múltiplos pontos de viragem planetários que podem transformar o nosso mundo. Isto exige ações imediatas e sem precedentes por parte dos líderes da COP30 e dos decisores políticos", disse Tim Lenton.

Os autores defendem que os países devem reconhecer a dimensão da crise e demonstrar coragem política na redução das emissões e no aumento da remoção de carbono.

Pontos de viragem positivos

Apesar das conclusões alarmantes, o relatório também identifica sinais encorajadores. Nos últimos dois anos, houve progressos em “pontos de viragem positivos” que podem gerar efeitos benéficos em cadeia.

A energia solar e eólica tornaram-se competitivas em todo o mundo, e tecnologias como veículos elétricos, baterias de armazenamento e bombas de calor estão a expandir-se rapidamente. Outras soluções, como ohidrogénio verde e o amoníaco verde, mostram potencial.

Segundo o relatório, desencadear pontos de inflexão positivos é “a única via credível para um futuro seguro, justo e sustentável”.

“Conclusões incrivelmente alarmantes”

"O facto de os recifes de coral de águas quentes estarem a ultrapassar o seu ponto de inflexão térmica é uma tragédia para a natureza e para as pessoas que dependem deles para alimentação e rendimento”, afirmou Mike Barrett, coautor do estudo e investigador da Universidade de Exeter.
“Esta situação sombria deve servir de alerta: se não agirmos agora, também perderemos a Amazónia, as camadas de gelo e as correntes oceânicas vitais”, acrescentou.

Um cenário que, sublinha, seria “verdadeiramente catastrófico para toda a humanidade”.

Loading...


São já poucos os cantos do mundo que podem dizer que não sentem as consequências das alterações climáticas. Dos violentos fogos na Califórnia e na Austrália, ao degelo no Ártico e na Antártida, às inundações sem precedentes na Europa e na China, a verdade é inegável. O que acontece no planeta se as temperaturas aumentarem mais do que 1,5ºC, 2ºC ou 4ºC?