Opinião

As Rainhas já não são o que eram

Acumulando uma dezena de nomeações para os Óscares, “A Favorita” relança a tradição do chamado cinema histórico. Mas será que já nos esquecemos das glórias dessa tradição? Quem se lembra de Greta Garbo?
As Rainhas já não são o que eram

A sério, muito a sério: olhamos para esta pose de Greta Garbo no filme Rainha Cristina, produção da Metro Goldwyn Mayer lançada em 1933, e não creio que estejamos muito preocupados em acusar a imagem de falta de “realismo”. Porquê? Porque sabemos que estamos a lidar com um modelo de encenação e espectáculo que não inventava desculpas para fingir que estava a “reconstituir” a história (ou a História, se preferirem).

Por definição, não é possível “reconstituir” os acontecimentos históricos. Já aconteceu... Mesmo quando queremos aplicar o mais estrito realismo, estamos sempre a reinventar esses acontecimentos, ou melhor, a encená-los e a acrescentar novas interpretações às suas memórias.

Também por isso, lembrei-me de Garbo. E pensei na subtileza com que o realizador Rouben Mamoulian a dirige e também nas infinitas nuances da luz sobre o seu rosto (sendo a direcção fotográfica do genial William H. Daniels, profissional indissociável da iconografia e da mitologia da própria Garbo).

E sou levado a perguntar: que ficou dessa idade de ouro de Hollywood que (ainda) se reflicta no “cinema histórico” que se faz nos nossos dias?

A pergunta, reconheço, não é inocente, já que estava, desde o primeiro momento, a pensar no filme A Favorita, de Yorgos Lanthimos, evocação do começo do século XVIII e das atribulações do reinado de Ana de Inglaterra — é um dos líderes da corrida dos Oscars (10 nomeações!) e, obviamente, um dos títulos do momento que vale a pena descobrir.

Mas... e há sempre um mas... Onde está a sofisticação dos tempos de Garbo? Não, não se trata de cultivar a nostalgia pela nostalgia. Apenas de reconhecer que Lanthimos é um formalista que filma obsessivamente (e monotonamente) com grande angulares... Para quê? Para mostrar que sabe “deformar” o espaço. E que, acima de tudo, está mais preocupado com a ostentação visual do que com a vibração humana.

Enfim, não simplifiquemos. É também verdade que Lanthimos não é propriamente distraído e sabe criar condições para que brilhem as suas talentosas actrizes: Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz (todas nomeadas: a primeira para o Oscar de melhor actriz, as outras duas na categoria de actriz secundária).

O certo é que as Rainhas do passado são mesmo “bigger than life” (como a velha guarda de Hollywood gostava de dizer). Agora, o cinema “maior que a vida” é algo que nos faz falta e que os super-heróis, privilegiando o barulho das luzes (literalmente, por vezes), não nos conseguem dar.

Até porque, por vezes, basta saber filmar a infinita complexidade de uma personagem anónima, à deriva na enxurrada da nossa crise económica. Ou seja: já viram Correio de Droga, o novo filme de Clint Eastwood? Se não levarem a mal, aproveito a sugestão simbólica e acrescento que é aí que encontramos a verdadeira realeza cinematográfica.